Depressão pós parto

É claro que te amo 

E tenho tudo para ser feliz 

Mas acontece que eu sou triste…

Vinicius de Moraes (1)

Depressão pós-parto

Por Arianne M M Angelelli

Psiquiatria da Infancia, Adolescência e Perinatalidade

Introdução

“Tenho medo do meu filho”, dizem muitas mulheres, diante da fragilidade e total dependência do recém-nascido. Sobre o filho temido estão projetados os medos, as fantasias, os remorsos e as culpas, o desejo de voltar atrás, de ser de novo livre, e também os restos de operações edípicas e pré-edipicas vividas pela mulher no passado. A afirmação pode parecer ilógica: que mal pode fazer à mulher um ser tão indefeso como o bebê? Nos tempos atuais, a supervalorização da criança (fato recente na história do mundo) e a tirania dos ideais exerce sobre a mulher uma imposição que transforma a maternidade. Em muitos casos vivências de persecutoriedade, perda, falibilidade e impotência dominam a cena perinatal: um drama em que uma mulher, geralmente sozinha, enfrenta grande adversidade ligada ao fato de tornar-se mãe.

Clitemnestra “Depois do assassinato”. Por John Collier, 1882, na Guildhall Art Gallery, Londres. Fonte: Wikipedia.

A trilogia grega Orestéia, de Ésquilo (escrita no século V AC) conta a saga de traições e vinganças da família real de Micenas. Para ter sucesso na guerra de Tróia, um pai sacrifica sua filha, e, ao retornar para casa, é assassinado por sua esposa que deseja poder e vingança. Mais tarde, é o outro o filho deles, Orestes, que planeja a morte da mãe para vingar o pai. É então que a mãe tem um estranho sonho… Sonha que dá à luz a uma serpente que abocanha o seu seio e se amamenta de sangue e leite. Este sonho é o presságio que Clitemnestra, a irmã menos bonita de Helena de Tróia, tem da vingança que seu filho virá a perpetrar sobre ela, em nome de seu pai (2).

 Um filho que é uma serpente, um seio que gera sangue e leite, são imagens fortíssimas que atravessam os séculos e ainda hoje valem como metáforas das situações conflituosas e ambivalentes que podem ocorrer com a chegada do bebê. O processo gestacional, o parto e o puerpério exigem muito da mulher em termos físicos e psíquicos. Ao contrário do que se poderia pensar, nem a gravidez, nem o pós-parto são períodos de proteção contra a eclosão de surtos e doença mental. Essa mulher que a tragédia grega pinta com as cores da ambivalência, do amor e do ódio, é a mãe adoecida de depressão ou psicose que encontra no real a fantasia de ser espoliada e machucada pelo filho.

A relação entre a serpente que suga o sangue e o leite e a amamentação também é evocada pelo sonho de Clitemnestra. É comum que dificuldades na amamentação possam estar mascarando um quadro depressivo ou ansioso na mãe, quadro que pode se correlacionar com questões transgeracionais. Por outro lado, não corresponder às expectativas ( próprias e do ambiente) em relação a amamentar, ser capaz de cuidar do bebê e mesmo ter um bom parto pode ser um fator desencadeante da depressão na mulher que considera que fracassa neste momento em que seu narcisismo é posto à prova.

É necessário, para cuidar de um bebê, o trabalho psíquico de colocar-se a serviço do ser humano em porvir, pois não nascemos prontos, precisamos de outro ser humano para nos tornarmos pessoas. O desamparo da criança é vivenciado pelo cuidador, neste momento delicado em que ele se dá conta do que representa a empreitada. A mãe precisa de toda ajuda e, ainda assim, está só. O mergulho, a regressão ao mundo sem palavras, sensorial, ao mundo do tudo ou nada que é o cuidado diário do recém-nascido exige um grande esforço, pois o bebê representa o arcaico dos nossos primeiros tempos e demanda do seu cuidador a capacidade para se colocar em contato com emoções muito primitivas (3). Mas atribuir a uma só pessoa- a mãe- o fracasso ou o sucesso nesta tarefa complexa é fruto da simplificação e da idealização da função materna. Esta deve ser constituída a cada caso e precisa do apoio ambiental. A idealização da maternidade supõe “um saber atávico sobre o maternal” (4) que a clínica e a observação atenta nos fazem questionar.

Para Christina Wieland (5) a cultura ocidental e sua desvalorização do feminino contribuem para que a imago materna, que nos atravessa a todos, oscile entre a mãe santa idealizada e a bruxa, justificando ora a veneração e ora a violência contra a mulher. Este estado de coisas não ajuda em nada quando a mãe se depara com o bebê real e se defronta com a maternagem que ela realmente pode exercer. A reação da sociedade à dependência experimentada nos estágios iniciais da vida, quando a mãe tem total poder sobre nós, e que reprimimos em nossa busca por autonomia e individuação, pode se transmutar em todo tipo de hostilidade, velada ou não, contra a Mãe.  Mesmo a visão mais romântica da amamentação, por exemplo, e o cuidado mais bem-intencionado podem estar a serviço de uma tirania não consciente que rouba à mulher o exercício da sua subjetividade e criatividade. A crença no instinto maternal e os preconceitos motivados por essas razões inconscientes levam também à dificuldade que a própria mulher tem de procurar ajuda de quando adoece psiquicamente, na gravidez e no pós-parto.

A partir disso falaremos aqui de alguns conhecimentos úteis para o profissional psi, no que concerne à depressão periparto e sua terapêutica dentro do campo da psiquiatria, assim como de algumas implicações que a patologia pode ter sobre o desenvolvimento da criança.

Quadro clínico da depressão pós-parto

Diferenciando Saúde e Doença.

Atualmente, pela grande quantidade de quadros de humor diagnosticados no pós-parto terem se iniciado já na gravidez, prefere-se utilizar o termo depressão periparto para englobar estes casos também. A alteração do humor relativa ao sentimento de culpa, a preocupação e a tristeza fazem parte da vida e da condição humana. Em fases de transição, como o a gravidez e o puerpério, reações de ajustamento são comuns. Por isso é necessário fazer a distinção entre as reações patológicas e as reações adaptativas normais de todo este processo. Antes do parto, os quadros psiquiátricos se correlacionam com um pior desfecho obstétrico- a tristeza ou ansiedade na gravidez, para além de um certo limite, tem muitas consequências. Já no pós-parto a diferenciação entre blues puerperal e depressão é muito importante, pois o “blues” é autolimitado e não deve ser Medicalizado*. Como estabelecer esta diferença? O blues puerperal é uma condição transitória e muito frequente relacionada ao cansaço, sentimentos de desamparo e flutuações hormonais. É própria à situação de adaptação da mãe ao recém-nascido e às mudanças no primeiro mês após seu nascimento. A transitoriedade (pico de sintomas na primeira semana, com resolução dentro de no máximo um mês) e a característica flutuante do quadro, sem marcas de gravidade, indicam que a conduta nestes casos deve ser de apoio à puérpera e suporte ambiental. Se, por outro lado, os sintomas de humor seguem um curso de piora progressiva, evoluindo para a caracterização de um episódio depressivo maior, a mulher deve ser encaminhada para tratamento.

Sintomas

Os fatores mais importantes que justificam a hipótese de um episódio depressivo, independente de sua ocorrência dentro ou fora do pós-parto, são o humor triste e a ausência de prazer na vida. Alterações de apetite, sono, alterações cognitivas como distratibilidade e perda de memória, fadiga e sentimento de culpa ou vergonha costumam estar presentes, mas nem sempre indicam depressão se encontrados isoladamente. Os critérios para o diagnóstico da depressão não variam no período perinatal em relação a outras fases da vida (ver tabela 1) embora haja algumas particularidades desta fase: a presença de ansiedade e preocupações obsessivas com o bebê (8). É importante distinguir a depressão com características ansiosas de situações potencialmente angustiantes, comuns na gravidez e pós-parto, ligadas a estressores como falta de suporte, complicações gestacionais ou questões de saúde do bebê. A preocupação materna primária- um estado particular das mães de bebês pequenos e que se caracteriza por forte conexão mental e emocional entre a mãe e filho (9) faz parte da saúde, assim como os dilemas e conflitos característicos do momento de transição para a parentalidade.

A retração da libido, caraterística da depressão, encontra na fase puerperal um fator agravante: a presença do bebê que necessita ser cuidado. A mãe que está bem dirige a seu filho sentimentos que brotam de sua vida sexual, num sentido amplo- o bebê é investido eroticamente por ela, que se ocupa do seu corpo, alimentação e bem-estar, encontrando verdadeiro prazer no seu contato (10). Na depressão, está reduzida a energia libidinal disponível para este investimento, pois a mãe se retrai. A tarefa do cuidado com o bebê passa a ser penosa ou carregada de preocupações. Então, a face oculta da maternidade, que para a maioria permanece reprimida, vem à tona: componentes agressivos e terroríficos como os do sonho de Clitemnestra, e a ambivalência – sangue e leite- que existe nos sacríficios que o estado de neotenia do bebê exige da mãe. A mudança radical que ocorre na vida da mulher ao tornar-se mãe (geralmente mais marcada na vinda do primeiro filho) é um luto impossível quando esta adoece num quadro de depressão. A nova condição é vivenciada como perda da identidade. A mãe se sente incapaz de fazer face à responsabilidade da tarefa. Muitas mulheres tem a sensação de que a maternidade é uma espécie de malogro (perda de liberdade, transição para um papel que a oprime) e o humor deprimido impede que as perdas e mudanças de rumo na vida na transição para a parentalidade sejam compensadas pelo investimento narcísico no filho (11). Isso pode se iniciar já na gravidez. Após o nascimento da criança, vicissitudes relativas a ela podem seguir um caminho de mão dupla: quando algo ocorre com o bebê (por exemplo, a internação prolongada numa UTI, uma doença ou síndrome, retraimento excessivo, questões na amamentação) e a mãe não pode “se alimentar” do seu amor, o risco de depressão também aumenta.

        A disforia é um sintoma de humor comum na depressão perinatal e pode ser descrita como um sentimento de mal-estar constante associado à irritabilidade. Pode prevalecer sobre o sentimento de tristeza e se associar à angústia, (descrita como o aperto ou peso no peito) e choro frequente. Os equivalentes orgânicos do afeto (sono e apetite) comumente se alteram na depressão perinatal. No pós-parto, quando o bebê tem despertares na madrugada, a insônia e o cansaço materno não podem ser explicados somente por este fator, pois a dificuldade de dormir novamente após um despertar noturno ou repousar durante o dia, decorrentes da depressão e ansiedade, pioram o cansaço da mãe.

        O sintoma fadiga, ou cansaço excessivo, deve ser bem investigado. Se ele não cede após períodos de descanso pode ser na verdade um sintoma depressivo. Fadiga e perda de energia estão presentes em muitos puerpérios de mães saudáveis; pelas demandas da fase, principalmente quando há pouco auxílio ambiental. Um estudo inglês recente relaciona a solidão e sobrecarga da pandemia de COVID 19 a aumento da sintomatologia depressiva nas mães (12). Por isso, a avaliação clínica deve levar em conta o contexto, o conjunto dos sintomas e o humor associado, e não somente a queixa isolada. Não podemos nos esquecer também de fatores orgânicos que podem concorrer neste momento. Nos casos de muita perda de energia e astenia, doenças físicas e desequilíbrios hormonais tem de ser investigados. Alguns quadros puerperais de base sistêmica podem ter sintomas que se confundem com a depressão: anemia, tireoidite pós-parto ou hipotireoidismo, síndrome de Sheehan (falência hipofisária decorrente de choque hipovolêmico-perda excessiva de sangue- durante ou após o parto), doenças autoimunes, encefalite e outras doenças infecciosas, reações a medicamentos, entre outros. Assim, o diagnóstico diferencial da depressão pós-parto inclui a pesquisa de quadros clínicos que a agravem ou melhor expliquem.

        Os sintomas cognitivos da depressão podem ser muito perturbadores. Na depressão, queixas de memória e distratibilidade não se explicam apenas pelo cansaço da fase. Dificuldade de se organizar, de tomar decisões, tendência a procrastinar e preocupação com detalhes são sintomas derivados de alterações cognitivas que contribuem para um agravamento dos problemas cotidianos, levando a certo caos que deixa a mulher ainda mais paralisada. Anteriormente eficientes e capazes de enfrentar situações desafiadoras, no trabalho ou em outras áreas da vida, as mulheres deprimidas veem-se ineficientes e bloqueadas na própria capacidade de pensar. Encaram a maternidade como dificuldade intransponível.  Preocupações e ruminações obsessivas de causar dano ao bebê podem aparecer, e mesmo pensamentos de morte e ideação suicida. O suicídio é uma das maiores causas de morte materna até que se complete o primeiro ano de vida da criança. (13). Muitas vezes ocultados na entrevista com o médico ou terapeuta, pensamentos suicidas devem ser investigados.

        Para evitar o diagnóstico em quadros transitórios, a maioria dos manuais classificatórios de psiquiatria pede a presença de duas semanas de sintomas para caracterizar o transtorno depressivo maior (vide tabela 1), visto que situações passageiras podem ser autolimitadas. Quase sempre há flutuação dos sintomas no tempo, com alternância de momentos melhores e piores, sendo comum a piora matinal.  

        A depressão pós-parto é um tabu porque é vista pelo imaginário social como sinal da inapetência do amor materno, tão idealizado em nossa cultura. Existe subnotificação, retardo em procurar ajuda e não reconhecimento do quadro em muitos casos, que permanecem sem tratamento. (14) Em um estudo, apenas um terço dos pediatras sentia-se capaz de reconhecer os sintomas de depressão pós-parto das mães que frequentavam a sua clinica (15). As mães podem esconder seus sintomas por vergonha ou desconhecimento.

        Prevalência e fatores de risco

        A prevalência de depressão periparto varia nos estudos, inclusive por diferenças metodológicas. Em condições sociais particularmente desfavoráveis, a prevalência pode estar bem acima acima dos 10-13% encontrados na maioria dos estudos populacionais (13,14,16). Dificuldades sociais e familiares, pobreza e gravidez na adolescência, entre outros fatores, aumentam seu risco. A depressão pós-parto masculina pode ser um gatilho e um agravante para a depressão materna, tendo uma prevalência média de 10% e ocorrendo principalmente entre o terceiro e o sexto mês após o nascimento do filho (17,18). A complexidade da situação puerperal nos deve fazer atentar para os sintomas que podem surgir no bebê, na vida de relação e na família, e que podem estar relacionados com um quadro depressivo não identificado. Porém, o fator mais importante de risco é a depressão gestacional ou episódio anterior na vida da mulher. A suscetibilidade à depressão depende de fatores endógenos e individuais, sempre observados nos relatos do transtorno através dos tempos (19). Alguns fatores de risco comumente encontrados para o transtorno estão elencados na tabela 2.

                Não há consenso sobre o ponto de corte no tempo a partir do qual um quadro depressivo na mulher não mais se correlaciona com o período pós-parto apesar de os manuais classificatórios especificarem uma data específica (6 semanas pós-parto no caso da CID 10 e 4 semanas pós-parto no caso do DSM V (20).  Alguns estudos consideram até um ano após o parto, levando em conta a magnitude do estressor “filho” que perdura por muito mais que um ou dois meses depois do nascimento! A variação no critério tempo de início do quadro dificulta a comparação entre os estudos.  Quanto ao curso da doença, o episódio depressivo no puerpério tem algumas particularidades: em geral persiste por seis meses, mas um terço das mães ainda apresentará sintomas mesmo depois de dois anos (22). Também pode haver maior demora na resposta às medicações, além da grande particularidade da questão da amamentação que discutiremos adiante.

        Diagnóstico Diferencial

        É importante ter em mente que parte dos quadros de humor puerperal não serão depressões unipolares, mas sim bipolares- portanto algumas de nossas pacientes serão na verdade portadoras de transtorno bipolar. Casos de depressão pós-parto que na realidade se encontram dentro do espectro bipolar apresentam maior incidência de crises de pânico, irritabilidade, impulsividade e labilidade do humor, e irão implicar em mudança no diagnóstico e perspectiva do tratamento. Um indício de bipolaridade é a má resposta ou piora com o uso de antidepressivos (23). A investigação dos antecedentes pessoais e familiares de transtorno bipolar do humor pode auxiliar o clínico na questão do diagnóstico diferencial. A bipolaridade, porém, não é a única causa de resposta paradoxal ao tratamento. Algumas doenças sistêmicas ou cerebrais podem estar presentes associando-se à depressão, agravando-a ou explicando totalmente os sintomas apresentados, o que muda o diagnóstico ou influencia a conduta terapêutica.

        Os sintomas obsessivos podem estar presentes no quadro depressivo perinatal, por vezes com intensidade e gravidade suficiente para justificar o diagnóstico de TOC (transtorno obsessivo compulsivo) comórbido. São preocupações e pensamentos de caráter rígido, incapacitante, para além de um excesso de zelo com o bebê. Preocupações hipocondríacas e pensamentos de causar dano à criança podem estar presentes, causando grande sofrimento.  

Tratamento da depressão periparto

Se nos casos de Blues pós-parto as medidas de suporte costumam ser suficientes, trazendo melhora e alívio, nos casos de depressão encontramos um estado melancólico ou ansioso que se agrava pelas demandas do bebê. O tratamento deve ser tríplice com medidas psicoeducativas e ambientais, provendo cuidado à mãe e ao bebê, psicoterapia e medicamentos, observando-se as particularidades do momento. À mãe com antecedentes de depressão, ou bipolaridade na família, o pré-natal deve incluir a indicação de suporte psicológico sempre que possível. Nos casos mais leves a psicoterapia pode ser indicada isoladamente, sem prescrição medicamentosa, mas em geral não é fácil a decisão terapêutica no caso do ciclo gravídico puerperal; pois se o uso de fármacos na gravidez e amamentação não é isento de riscos para a mãe e para o bebê, também são grandes as consequências para ele da doença depressiva materna e doença mental da mãe, em geral. (24-32)

A decisão de tratar com medicamentos a mulher no ciclo gravídico-puerperal deve levar em conta o risco/benefício em cada caso, a gravidade e a decisão pessoal da mãe. Casos de depressão moderada a grave geralmente não podem prescindir do uso de medicamentos, assim como nos casos geralmente mais graves de depressão bipolar. Não existe medicamento totalmente seguro quando entramos neste campo, mas diversos consensos, constantemente atualizados, auxiliam o clínico que atua nesta área (33,34).  Há medicamentos sabidamente teratogênicos e outros cujo risco parece ser mais baixo. Há drogas que apresentam uma maior transferência para o leite materno, e outras que tem menor passagem ao leite, e assim por diante.

 Alguns princípios gerais devem guiar a conduta do clínico, como evitar usar polifarmácia e tentar utilizar as menores doses possíveis dos medicamentos aparentemente mais seguros em cada fase (gravidez, amamentação, puerpério). Deve-se levar em consideração a resposta da mãe a determinados fármacos e evitar fazer trocas de medicamentos desnecessárias. O alívio do sofrimento dentro da possibilidade de menor risco possível deve nortear a conduta. Algumas medicações anteriormente consideradas seguras podem vir a se associar a maiores riscos conforme as evidências cientificas vão se acumulando. Outros medicamentos, anteriormente proscritos, como por exemplo o lítio na gravidez, passam a ser mais bem aceitos quando os trabalhos mais recentes passam a evidenciar um risco mais baixo do que se pensava anteriormente.

Uso de medicamentos na amamentação.

Na depressão pós-parto há quatro tipos de medicamentos mais usados no controle e alívio dos sintomas (35-39). Os antidepressivos podem pertencer a classes diferentes, como os tricíclicos e os inibidores de recaptação de serotonina, entre outros. Dentre as opções disponíveis, contamos com drogas relativamente eficazes e seguras para o uso na amamentação. Não se justifica a interrupção da amamentação por conta da necessidade do uso de antidepressivos pela mãe. Alguns antidepressivos considerados mais seguros (como a sertralina a paroxetina e o escitalopram) apresentam baixa razão leite/plasma (proporção entre a concentração de droga presente no leite em relação à concentração no sangue da mãe). Não parece haver prejuízo cognitivo ou de desenvolvimento para os bebês em aleitamento no caso de várias destas medicações, o que encoraja o seu uso- quando sabemos das consequências da depressão não tratada para o desenvolvimento do bebê.

Os benzodiazepínicos e os indutores de sono também podem se fazer necessários para tratamento do sono e ansiedade maternos, com ação rápida e sinérgica ao efeito dos antidepressivos, principalmente nos quadros mais agudos. Podendo ter um efeito de sedação nos neonatos que amamentam, devem ser usados com cautela, mas são em alguns momentos mais eficazes e rápidos do que outros medicamentos. Aconselha-se o uso pontual e por curto período destes medicamentos para controle de sintomas agudos das depressões que podem cursar com muita ansiedade e angústia.

Finalmente, os antipsicóticos e os estabilizadores de humor podem ser necessários, havendo opções mais indicadas para uso nesta fase. Alguns antipsicóticos e estabilizadores de humor como a quetiapina mostram-se relativamente seguros tanto na gravidez quanto na amamentação. Caso especial é a depressão que se relaciona com o transtorno bipolar- seu manejo é mais difícil pois pode ser exacerbada pelos antidepressivos. Nos casos de pacientes bipolares infelizmente a polifarmácia é mais regra do que exceção. Quando a mãe não está amamentando, a escolha do medicamento deve ser direcionada para aquele que apresenta maior evidência de resposta para ela. Não é necessário, porém, interromper a amamentação ao iniciar o tratamento da mãe, assim como em muitos casos não é prudente interromper o medicamento antidepressivo na gravidez – aqui pesem o desejo materno e a avaliação do risco de tratar e não tratar que é diferente em cada caso.

Há muitos medicamentos que podem ser utilizados na amamentação inclusive para que as mães deprimidas possam estar em condições para fazer psicoterapia. Nos transtornos de humor, pode haver dificuldade de engajamento no processo de psicoterapia e de aderência aos outros tratamentos disponíveis. O uso da medicação traz alívio dos sintomas incapacitantes propiciando uma melhora nos outros aspectos da vida, na medida em que a mãe consegue se mobilizar para buscar ajuda. Para muitas medicações a literatura não encontra associação entre uso materno e prejuízo cognitivo ou emocional das crianças – seja na gravidez ou na amamentação. O uso de antidepressivos na gravidez, como observado nos estudos mais recentes também não parece se correlacionar com o aumento do risco de transtornos do espectro autista (40,41).

Há medicamentos novos com ação hormonal que parecem ser promissores, como a brexanolona (https://www.medscape.com/viewarticle/910643)- ainda não utilizada no Brasil.

Consequências da Depressão Puerperal

Do ponto de vista psiquiátrico, o período perinatal é momento de vulnerabilidade. A maneira como se dá o puerpério e suas reconfigurações, em termos de papéis assumidos e para o psiquismo, tem consequências duradouras em vários campos da vida materna e do filho. A presença de depressão neste momento é preditor de crises depressivas futuras e de dificuldade de reorganização da vida pessoal e profissional da mulher.

Estudos recentes cada vez mais apontam para as consequências da depressão materna na prole, com prejuízo na interação mãe-bebê (menor reciprocidade, estimulação e vocalizações da mãe para com o bebê) e alteração de vários indicadores em seu desenvolvimento (interacionais, motores, cognitivos e sociais), assim como piora da qualidade do apego e maior risco de morbidade psiquiátrica futura (24-32). Porém a interação entre os fatores da doença materna e suas consequências na criança é complexa. Num estudo realizado em nosso meio, filhos de mães deprimidas desenvolveram mais rapidamente a linguagem (24), ao mesmo tempo que tinham pior índice de reciprocidade social. As consequências da depressão materna na prole dependem de vários fatores, como o suporte social, a resiliência da família e da própria criança. Visto que parte dos quadros já se inicia na gravidez, fatores nutricionais, descuido com o pré-natal, uso de drogas psicoativas e álcool, e mesmo alterações de dieta ligados a um precário estilo de vida interferem no desenvolvimento do feto e da criança. Já foi descrito o aumento da morbidade psiquiátrica na prole de mães submetidas a estresse em situações de guerra até as gerações futuras. Este fato tem sido associado a alterações de metilação do DNA fetal que se transmite aos seus descendentes (32). Seria este um correlato biológico para o que conhecemos em psicanálise como transgeracionalidade?

 Sabe-se que mães com depressão podem se mostrar capazes de manter o nível de interação com seus bebês por mecanismos compensatórios, direcionando ao filho sua energia em detrimento de outros aspectos de sua vida, principalmente nos casos de depressão mais leve. A relação da depressão materna com o padrão de apego apresentado pelo bebê parece ser consistente, direcionando a forma com que a criança tenderá a interagir com o ambiente, sua regulação emocional e autocontrole na vida futura. Bebês de mães deprimidas, principalmente se cronicamente deprimidas, são um grupo de risco para doenças psiquiátricas. Os primeiros mil dias de vida, contados a partir da concepção, parecem ser cruciais para o desenvolvimento físico e psíquico do indivíduo e a neurociência tem demonstrado prejuízos ao desenvolvimento ocasionados pelos traumas ocorridos no início da vida (32).

        Na clínica com bebês de 0-3 anos, encontra-se muitas vezes nos casos de depressão ou ansiedade maternas uma certa intrusividade que pode ser tão danosa como a negligência nos cuidados. A simbiose neste caso não funciona de modo a promover sintonia entre mãe e filho, mas destina-se ao controle e alívio da culpa e persecutoriedade maternas, podendo ocasionar um desequilíbrio dos ritmos no neonato e um excesso de excitação do mesmo. Seus sinais de retração não podem ser acolhidos nem traduzidos como necessidade legítima de repouso, de auto-regulação. Acriança pode reagir a esta invasão com uma imobilidade defensiva se a mãe “estiver muito agitada- encobrindo, pela atividade, uma depressão própria- ou demasiadamente excitante e estimulante, não permitindo, ao bebê, o intervalo e o tempo necessários a uma apropriação. (42). Nestes casos, tudo pode parecer bem com a mãe zelosa e conectada com a criança, mas aparecem problemas psicossomáticos ou de sono no bebê- invadido pela hipervigilância materna, ele não “desliga” e não descansa.

        Se não há queixas específicas, a ameaça pode estar projetada nas figuras mais próximas da mãe (avó, sogra, parceiro). Neste caso, surgirão conflitos familiares difíceis de manejar. “Hoje… a mãe deve enfrentar sozinha este desamparo que ela não compreende e que não é reconhecido socialmente… Ela tenta, frequentemente, apoiar-se na única pessoa que está a seu alcance: seu marido. Ela espera dele o que deveria esperar de uma mãe: que a ajude, que cuide do bebê para ela, o que frequentemente causa problemas, dificuldades para o casal ou fragiliza e afugenta o pai.” (11). Se o ambiente não é capaz de metabolizar a angústia da situação, pode reagir retaliando a mãe ou atacando o seu vínculo com o bebê que a todos parece excessivo ou inadequado.

Existe preconceito e desinformação de muitos clínicos em relação aos riscos dos medicamentos usados para tratar os transtornos puerperais. É comum a interrupção de medicamentos necessários para a mulher com depressão, quando engravida, aumentando a chance de depressão perinatal. Da mesma maneira, ao amamentar, muitas pacientes preferem não usar medicações psicotrópicas, temendo prejudicar o bebê, por desconhecerem os riscos da própria depressão, acreditando que seu sofrimento irá preservar o filho. O sacrifício materno acaba sendo contraproducente, pois no início da vida, em termos psíquicos, mãe e bebê compõe uma díade e o sofrimento e as dificuldades acabam sendo compartilhados, direta ou indiretamente.

Conclusão

Apesar dos tabus envolvendo os transtornos mentais perinatais, vem se notando maior mobilização social e pelos profissionais da saúde para fazer frente às demandas das mulheres, bebês e famílias. O profissional de saúde que se dispõe a trabalhar neste campo deve equilibrar a percepção da vulnerabilidade tão característica desta fase com a tendência autoritária do discurso que por vezes domina a visão medicalizante quando se fala da doença mental da mulher no puerpério. Quantas iatrogenias podem acontecer por falta de compreensão destes processos! A provisão ambiental não deve usurpar o protagonismo parental deste momento, o que muitas vezes ocorre, mesmo que disfarçada sob o discurso de uma ordem médico-científica que reivindica para si todo o saber. Temos situações de abandono e situações de intervencionismo que em nada ajudam a mãe (e o pai, muitas vezes também alijado de toda decisão). Às vezes a mãe chorosa sai da consulta com o especialista (obstetra ou pediatra) com uma prescrição de sulpirida (EquilidR) para se “acalmar” e “ter mais leite”, quando sua lactação é normal e tudo o que precisa no momento é ser ouvida e obter suporte. Em que medida a prescrição de um neuroléptico como o “equilid” é capaz de embotar o afeto e a libido, prejudicando o vínculo mãe-bebê, é tema para ser estudado ainda. As emoções e a regressão que ocorrem na perinatalidade não devem ser consideradas como doença e se há uma “cura” para este estado de coisas, essa cura é o descanso, o suporte ambiental, a boa escuta e o próprio tempo passado com o filho… Como diz Winnicott:

A mãe, que talvez esteja fisicamente exausta, e, talvez, incontinente, e que está dependente para muitas coisas, é ao mesmo tempo a única pessoa que pode apresentar o mundo ao bebê de modo significativo para este…, todavia, seus instintos não conseguem se desenvolver se ela estiver amedrontada… o leite materno não desce como uma excreção- é uma resposta a um estímulo que consiste exatamente na visão, no cheiro, e no contato com o bebê, bem como no som do seu choro. (43).

Obstetras, psiquiatras, pediatras e profissionais envolvidos com a gravidez e o parto, os que prestam auxílio às mães nos níveis de atenção básica, e toda a rede social tem papel importante na identificação e cuidado da depressão perinatal. Ela é muito frequente, principalmente em populações com vulnerabilidade social, e seu tratamento é fator importante para a prevenção das patologias psíquicas que podem acometer as crianças no futuro.

Tabela 1 (Fonte: American Psychiatry Association.)

Critérios para episódio depressivo maior segundo o DSM V (resumido)

Cinco ou mais dos sintomas abaixo presentes por pelo menos 2 semanas e que representam mudanças no funcionamento prévio do indivíduo     
             Pelo menos um dos sintomas é    
 –Humor deprimido             
 –Perda do interesse ou prazer
Os sintomas não se devem aos efeitos fisiológicos de uma substância (ou outra condição médica)  Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo do funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida.  
Não houve nenhum episódio de mania ou hipomania anterior (exceto induzidos por substância ou outra condição médica)Os sintomas não se devem aos efeitos fisiológicos de uma substância ou outra condição médica  Quadro não é melhor explicado por transtorno esquizoafetivo, transtorno delirante ou outro transtorno do espectro esquizofrênico e outros transtornos psicóticos.  
1-Humor deprimido (sente-se triste, vazio ou sem esperança).
2- Acentuada diminuição do prazer ou interesse em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia quase todos os dias.
3-Perda ou ganho de peso acentuado sem estar de dieta (mais de 5%do peso corporal)
4- Insônia ou hipersonia quase todos os dias.
5-Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias.
6-Fadiga e perda de energia quase todos os dias.
7-Sentimento de inutilidade ou culpa excessiva ou inadequada (que pode ser delirante) quase todos os dias.
8-Capacidade diminuída de pensar ou concentrar-se, ou indecisão quase todos os dias.
9-Pensamentos de morte recorrentes (não apenas medo de morrer), ideação suicida recorrente (com ou sem plano suicida), ou tentativa de suicídio.  
        Especificadores: Com características ansiosas.Com características mistas.Com características melancólicas.Com características atípicas.Com sintomas psicóticos.Com padrão sazonal.No período próximo ao parto: Início durante a gravidez ou nas 4 semanas após o parto.Com catatonia.

Tabela 2   Fatores de risco para depressão pós-parto (16,19,21)

Fatores psicossociais- ausência de suporte social e familiar, dificuldades financeiras, conflitos conjugais, ausência de companheiro, perda de companheiro ou entes queridos na gestação, relacionamento ausente ou difícil com uma figura materna, abuso ou negligência na infância.
Vulnerabilidade- idade precoce, antecedentes de depressão ou depressão pós-parto, disforia pré-menstrual, traços de personalidade como neuroticismo ou introversão, baixa autoestima.
Fatores da gestação- Gestação indesejada, gemelaridade, menor intervalo entre as gestações, parto prematuro, tratamento para engravidar, parto cesáreo.
Fatores relativos ao bebê- malformações congênitas, estadia em UTI neonatal, intercorrências neonatais, não amamentar.

*Nota: O termo medicalização refere-se à adoção de um viés patologizante ou organicista na compreensão do sofrimento e comportamento humano: “o conceito é considerado um “clichê da análise social”. Publicações proliferam sobre diferentes objetos medicalizáveis, tais como a infância, comportamentos desviantes; gravidez e parto…Para cada um deles, surgem potencialmente novas condições médicas …ou entidades clínicas já existentes aumentam em prevalência, sobretudo em países desenvolvidos”. (6;7)

Referências

  1. Moraes, Vinicius de. Dialética. In:  Poesia Completa e Prosa. Org. de Afrânio Coutinho com assistência do autor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 1987.
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Links das referências

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https://doi.org/10.1590/1413-81232014196.03612013

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Ayers S, Shakespeare J. Should perinatal mental health be everyone’s business? Primary Health Care Research & Development 16, 323–325, 2015. doi: 10.1017/S1463423615000298. [PubMed]

Para ver as legendas em inglês, aperte o icone de configurações

O homem que amava caixas

Coisa boa de se ter filhos pequenos é poder ler com eles as histórias feitas para crianças , que enternecem nossa imaginação e nos trazem de volta para a sabedoria esquecida da infância. Há livros para crianças que todo adulto deveria ler. Nesses tempos em que a realidade nos bate na cara todos os dias com estatísticas escabrosas, acordos sinistros, milhões de árvores cortadas, vidas cortadas, verbas cortadas para a arte , é bom poder ouvir histórias e ver lindas figuras que falam sobre relações humanas…como elas deveriam ser. Pautadas pela ética e pelo respeito. Deveríamos entremear com este tipo de contos as nossa leituras jornalisticas e escutar histórias infantis no intervalo do noticiário… quem sabe assim nos resguardássemos da desesperança e do cinismo que nos ameaça , a partir de dentro de nossos corações já endurecidos.

O homem que amava caixas , de Stephen M King, é a uma dessas histórias que li há algum tempo, e da qual sempre me recordo. Um homem diferente tem uma fixação por caixas. Não sabe dizer ao seu filho que o ama. Então, passa a construir para ele caixas em forma de castelos, com formato de aviões, e todos os tipos de caixas, para brincarem. O filho, que ama o pai, não se importa com sua esquisitisse. É por meio das caixas que se comunicam.

Esta história me lembra um filme que vi na adolescência, e nunca mais esqueci também. Outro dia encontrei-o num streaming , assisti de novo, e voltei a me encantar com ele. É a história de um rapaz que amava pássaros. O título foi traduzido aqui no Brasil como ” Asas da Liberdade”. Este rapaz encontra um amigo que o ama apesar de seus gostos estranhos. Passam a perseguir pássaros, criar pássaros juntos. A amizade floresce apesar das suas diferenças.

O homem que amava caixas, que diagnóstico ele teria? Seria um autista de alto funcionamento, um “Asperger”? Seria psicótico? Ou teria um bonito transtorno obsessivo compulsivo, destes que a gente lê no livro de psicopatologia, acumulador de caixas, caixinhas e caixotes? Todos os achavam esquisito. Mas ele tinha um filho, e brincavam.

O homem das caixas e o homem dos pássaros moram hoje dentro de mim. Quando alguém tem um gosto assim, estranho, é por meio desta preferência que escolhe se comunicar melhor. Nem sempre é fácil entender. Pode ser só em filmes e histórias que tamanhas esquisitices encontrem um final feliz. Mas na sala de análise há sempre caixas a nos confundir… às vezes conseguimos brincar com elas. E quando isso acontece, é muito bom.

O Homem que amava caixas foi editado pela editora Brinque-Book.

O filme Birdy ( Asas da Liberdade) é de 1984, dirigido por Alan Parker. Disponível em youtube , Apple TV e Google Play.

A difícil arte da intimidade

E, no entanto, constroem-se pontes.

Antoine de Saint-Exupéry

( atenção: este relato contém spoilers– O filme DAY AFTER I`M GONE pode ser visto em https://mubi.com/pt/films/the-day-after-i-m-gone)

O filme israelense Day After I’m Gone ( O dia seguinte à minha partida) apresenta de forma dramática e intensa a tensão que pode estar presente entre um pai e uma filha que apresentam muitas dificuldades de comunicação.  Habitando o mesmo espaço físico, existe um abismo entre eles e uma impossibilidade de se construir uma ponte que possa criar um caminho de encontro.

O abismo entre eles nos é apresentado logo no início do filme. Yoram, que é veterinário, diz à sua colega de trabalho que se descobre que o filho entrou na adolescência quando se passa a odiá-lo. Após formular essa frase chocante e de impacto, conta do desaparecimento de sua filha adolescente há dois dias.  A amiga lhe interroga onde ela poderia estar e se a polícia ainda não foi acionada, provavelmente pensando que a garota poderia estar em apuros ou sofrido violência. Ele, apesar de preocupado e aflito, nega tal fato dizendo que ela já vai voltar, que é “coisa de adolescente”. Percebemos então que o pai também não está podendo acessar os próprios sentimentos de preocupação com a filha. Voltando para casa, porém, já sensibilizado pela conversa com a amiga, decide ir à delegacia. É repreendido pela delegada pela demora em comunicar o desaparecimento. A delegada lhe diz que a filha é criança, e ele não concorda, pois considera a filha responsável pelos próprios atos. A policial retruca que, por lei, por ter apenas 16 anos, ela ainda é uma criança. Para obter dados sobre a filha e poder iniciar uma busca começa a lhe fazer perguntas:  se tem a senha do celular da filha, se ela tem facebook ou instagram, etc. Ele não tem nenhuma dessas informações- o que já vai revelando a distância e o desconhecimento da vida e do cotidiano da filha.

 A questão da intimidade e de quem é o outro sempre foi um ponto que muito me intrigou e afligiu. Esse tema é intensamente tratado no livro de Josephine Hart “ Perdas e Danos”, que foi transformado em filme por Louis Malle ( 1992), baseado num caso verídico que aconteceu na Inglaterra :  um ministro da Alta Corte se envolve com a namorada do filho, que quando os flagra num encontro se joga pela janela. Enquanto o pai vai vive esse tórrido e proibido romance se pergunta como isso é possível:  como pode ele estar ali,  deitado ao lado de sua mulher, com quem é casado há tantos anos, como se nada estivesse acontecendo. E como é possível que a esposa sequer desconfie de qualquer coisa  enquanto ele vive essa paixão avassaladora e louca. Essa é uma situação que o angustia muito- essa situação de divisão e ambiguidade convivendo dentro de si, sem que o outro ao seu lado tenha sequer ideia.

Sempre me perguntei quem de fato é o outro–  o que sabemos das pessoas que convivem ao nosso lado. Essa é uma situação muito comum nos nossos dias, principalmente com filhos adolescentes:  por mais que os controlemos, o que sabemos de sua intimidade, de quem são eles?

Este pai, voltando para casa depois do desconcertante diálogo com a policial, permanece sentado, imóvel no sofá, olhando para o nada. Preocupado? Com raiva? Totalmente imóvel e com o olhar perdido. De repente a adolescente Roni abre a porta, entra, cumprimenta-o friamente e vai para seu quarto como se nada tivesse acontecido. Ele pergunta onde estava e ela responde um lacônico “por aí”.

Na noite seguinte o mesmo ritual frio e distante se repete : Roni chega, dá um “oi” e se dirige ao seu quarto. Na madrugada, enquanto dorme, Yoram  é acordado com batidas à sua porta – investigadores da polícia chegam dizendo que foi  identificado nas redes sociais uma comunicação dela de que iria se suicidar. Ele reage violentamente achando isso um absurdo, uma invasão, mas a polícia força a entrada e de fato a filha já estava desacordada após ter ingerido remédios para se matar. A moça é levada para o hospital.

Atordoado com tudo isso, no hospital , é abordado por um judeu ortodoxo que reza pela filha e lhe entrega um livro de rezas,  lhe dizendo que reze também por sua recuperação.

Depois do ocorrido retornam à casa e o mesmo clima de distância permanece sem que ele consiga se aproximar da moça, sem que possam conversar sobre o que aconteceu. O silêncio entre eles permanece inalterado, tenso. No decorrer do filme somos informados de sua esposa morreu recentemente, e de que antes deste fato , os três eram muito próximos e unidos.

Ele, sem saber de fato o que fazer, como se aproximar, conversar e acolher a filha, decide ir visitar a família da esposa que mora ao sul de Israel. Comunica-lhe sua decisão, a qual ela acha muito estranha porque parece que não tinha um bom relacionamento com a mesma. Partem em viagem no mesmo silêncio por todo longo trajeto, fluxo represado, denso e tenso.

Ao chegarem, encontram a família da mãe com todas as suas esquisitices. Vamos nos dando conta porém que esse foi um gesto desesperado , um pedido de socorro de um pai paralisado e impotente diante da impossibilidade de um gesto espontâneo em relação à dor e ao sofrimento da filha. Roni havia lhe pedido que não lhes contasse nada de sua tentativa de suicídio, mas ele o faz numa conversa particular com sua cunhada. Esta lhe pergunta se a moça queria de fato se matar e ele responde que não, que queria apenas lhe mandar uma mensagem, chamar sua atenção. E ele diz  que não faz ideia do que ela realmente  queria lhe comunicar. 

Diz Winnicott que quando a criança descobre que pode se esconder, que tem essa possibilidade, isso lhe dá a descoberta de um poder… mas se ao mesmo tempo  é uma glória poder se esconder, é uma tragédia não ser encontrado!  De certa forma a moça, neste filme,  não era encontrada pelo pai, que a via mas não a percebia, não a sentia:  ela lhe era uma estranha. Em seu trabalho sobre a tendência antissocial Winnicott diz que quando a criança ou adolescente apresentam comportamentos de agressividade, mentiras, roubos, rebeldia, estes comportamentos antissociais estão expressando um sentimento de que algo bom foi perdido por uma falha que é atribuída ao ambiente. Sabendo que a falha é do ambiente, estão vivendo uma deprivação afetiva e desejam resgatar o que tinham de bom e perderam. Endereçam então ao próprio ambiente esse protesto que ao mesmo tempo é um pedido de ajuda.  O momento do comportamento antissocial é justamente um momento de esperança: identificaram  em seu entorno algum sinal que lhes deu a esperança, ou a ilusão,  de que a falha pode ser  reconhecida de modo a se restabelecer a situação anterior.

A tia, ao se inteirar do fato, imediatamente diz que tem sim que contar à família, que seria absurdo não contar, que isso é muito sério – e a partir daí assume a administração da situação. Reúnem a família inteira em uma “roda de conversa”, chamam a menina para lhe dizer, cada um à seu modo, que reconhecem a dor da sua perda, da terrível vivência da doença e morte da mãe. Falam inclusive da própria dor relativa a esta morte, reiterando que Roni é membro da família e muito querida por todos ali. Cada um fala de seus sentimentos por ela, da importância que tem, reconstruindo sua história desde o nascimento, rememorando momentos significativos de sua vida.

Ao partirem, ela está, obviamente, furiosa com o pai por ter violado o seu segredo. Pede à ele para voltar dirigindo o carro, pedido que já havia feito na ida mas ele não permitiu – e eis que dessa vez ela vem dirigindo no caminho de volta. O mesmo silêncio se mantém entre eles, apenas um pouco mais leve. No caminho, passam pelo túmulo da mãe e a filha chora: a situação do luto extremamente dolorosa já não é negada. Chegam em casa e num primeiro momento não parece haver qualquer mudança no relacionamento entre eles… Roni vai para seu quarto enquanto Yoram fica na varanda.

Porém, quando a moça vai à cozinha pegar um copo de água , logo em seguida, encontra o livro de rezas que o pai trouxera do hospital.  Olha, acha estranho e pergunta a ele o que é aquilo, ao que ele lhe responde: Rezei por você enquanto você estava no hospital… Ela sorri …e vem sentar no sofá da sala, ligando a televisão.

Através desse simples gesto a filha consegue se dar conta do amor do pai, da sua importância para ele, sua angústia e sofrimento com o que poderia ter lhe acontecido. Sendo o pai não religioso, ter rezado por ela e ter trazido o livro para casa era muito significativo, e assim finalmente ela conseguiu ser encontrada.

As vezes é muito difícil lidar com os adolescentes e saber exatamente qual seria a conduta mais acertada, e a medida adequada do limite. Apesar do seu pedido de não contar nada à família da mãe e da fúria pelo pai não ter atendido a este pedido, foi de extrema importância a família ter se encarregado do seu desespero e do sofrimento de Roni. A ação da família foi reconhecer e nomear sua angústia e sua perda, acolhendo esses dois seres atolados em si mesmos, sem conseguir compartilhar o sofrimento, por não poder elaborar o luto da mãe/esposa que funcionava como a ponte e o elo de comunicação da família.

Também foi um processo muito importante a possibilidade do pai  ter a humildade de reconhecer sua total impotência para lidar com a situação, se aproximar da filha e compreender o que se passava com ela.

O momento atual da humanidade é um momento de luto coletivo, onde estamos tendo que lidar com muitas perdas ao mesmo tempo, desde a morte física de pessoas próximas e queridas, como a nossa vida roubada- um momento em que como um todo estamos sofrendo uma deprivação. As crianças perderam os amigos, a escola. Os professores, suas atividades regulares, sua rotina, assim como adultos e adolescentes. A ideia da morte paira no ar como uma possibilidade real e concreta. Roubaram-nos a possibilidade de fazer planos e com isso os sonhos, os projetos…Estamos à deriva…. cada um de nós tendo que encontrar em sua história e circunstância a esperança de um porto onde atracar com segurança permanecer em espera. As relações de amor que cultivamos, agora, são o nosso porto seguro.


Aponte
Ê, a nuvem vai fazer chover
Lavar a terra maltratada
Sem teu amor, não sobra nada
A gota d’água pra viver
Tão seco assim não brota nada
És minha santa, és minha amada
Fui te encontrar pra me perder
Aponte que eu não enxergo quase nada
Nem assovio, nem um pio
Pode vir raio ou trovoada
Eu não arredo desse rio
Aponte onde dá o norte
Aponte onde leva o rio



Composição: Lan Lan / Nanda Costa / Sambê

Para assinar o MUBI https://mubi.com/pt ( vale muuuuuuuuuito a pena!)

O filme DAY AFTER I`M GONE pode ser visto em https://mubi.com/pt/films/the-day-after-i-m-gone

Gestos Alongados

Eu queria levar banana-maçã pro meu pai. Não que ele tivesse me pedido. Estava na lista dele, mas no mercado não tinha. Sei disso porque faço as compras para ele desde março. Ele tem mais de noventa anos e neste 2021 está recluso há catorze meses. Hoje levo.

Conduzo o carro através do seis quilômetros que nos separam. Não é longe, mas nessa pandemia, as coisas se encompridam. Os gestos se alongam em etapas. Antes de sair, coloco máscara de proteção (duas), troco os sapatos, pego o elevador, torço para não encontrar com muita gente.

Uma vontade grande de estar na rua, com ganas de sair dela logo.

No caminho, claro de sol, abro as janelas quando pego velocidade. Sensação de liberdade provisória. É sábado à tarde e vejo poucas pessoas nos pontos de ônibus. Estão com máscaras no rosto, no queixo, nas mãos. Conversam e riem.

Os fins de semana são tempos de ônibus alegres, pessoas em grupo, o tempo mais largo, folgado. Como suas roupas, soltas, sem cintos, fivelas, compromissos. Perto do parque do Ipiranga, ciclistas e pessoas correndo. Um cachorro escapa da guia e vai ao encontro de dois labradores. Uma pequena confusão de latidos e correrias. Na Vila Mariana, passo em frente a restaurantes com mesas ao ar livre, nas calçadas. Famílias em fim de almoço, crianças gritando. Gente querendo viver, difícil pensar na morte.

Chego na rua onde ele mora, estaciono logo. Volto ao ritual. Máscaras, elevador, tirar sapatos. Meu pai abre a porta e se afasta. Agora já se acostumou a não vir me abraçar. Estar com ele também requer gestos alongados. Lavar as mãos, sentar longe, vontade de estar próxima, medo de ficar muito perto. Apartar-se do pleno viver, preservar a vida.

Sinto o piso frio da cozinha sob meus pés. Vejo a quietude da sala, os móveis escuros, um violino mudo em cima de uma poltrona, o teclado encapado em plástico. O sol filtrado pelas cortinas atenua os contornos.

Coloco as bananas na fruteira. Ele sorri. Obrigado, filha. Ele sabe que não precisa delas. Eu também sei. Mas ele gosta e não tinha vindo nas compras.

Venha se sentar.

O apartamento, com seus sofás, quadros, porta-retratos, respira todo à minha mãe. Meu pai vive sozinho em meio às suas lembranças há vinte e cinco meses.

Estar com ele também requer estirar sentimentos. Para que caibam a ausência e a presença dela, dele, dos dois.

Estar com ele requer visitar a falta dela. Na sala, no quarto, nos olhos dele. Por isso tudo é tão comprido. Alongam-se os silêncios, as pausas. Meu pensamento, dilatado, comprime o passado e o futuro.  Revejo a mesa, almoços, risadas e antevejo a sala vazia. Sentimentos condensados.

No quarto, dentro do armário, as roupas soltas de seus hábitos, aguardam um destino.

As caixas de remédio empilhadas perto dos copos me alertam para verificar se estão acabando. Conto os comprimidos de cada uma. Três, seis, nove, treze.

Precisamos pedir pra farmácia, pai. Ele faz que sim com a cabeça e, como se lembrasse de alguma coisa, se levanta, pega a chave e de forma ritmada dá corda no relógio antigo de parede. Os sabiás cantam lá fora, meio da primavera. Os ponteiros seguem se movendo. Vamos comer as bananas. 

“Winnicott  afirma que a criatividade é a base do viver saudável, e que é esta condição que faz com que a vida valha a pena. A possibilidade de viver criativamente é relacionada à qualidade da provisão ambiental recebida no início da vida. Com base na teoria de Winnicott sobre a criatividade, é possível pensar o trabalho do luto como estando vinculado à possibilidade de realizar um ato criativo, com o objetivo de reinstalar a idéia de que a vida vale a pena.” Barone,K.C. O trabalho de luto à luz dos fenômenos transicionais. Caderno Ser e Fazer, 8 outubro 2004

Imagem: Pilar Rodriguez

Às mães

Às mães, em tempos de pandemia.
O mundo está mudado, estremecido, vivendo a pandemia e seus efeitos em cada pessoa. As potências de cada um testadas pelo vírus e seu rastro. O planeta se recolhe, em resguardo. No dia de hoje, dia das Mães, passaremos a data comemorativa de forma estranha, pouco familiar.

Teremos mães próximas e mães afastadas de seus filhos.

Teremos mães que outrora protegeram seus filhos com cuidado e presença, e hoje estarão sendo protegidas por eles –pela ausência. Faremos vídeo-chamadas de tele-amor.
O que é isso de ser mãe em dias assim? Não há manual para esse mundo

de extremos e urgências, assim como não há para ser a mãe de um bebê.

Mães são guerreiras falíveis, e carregam muito cansaço e solidão por trás das mais sorridentes fotos estampadas nas redes sociais.
Mas há também o milagre de ser mãe – a mãe que se pode ser. A sua força a brotar sabe-se lá de onde, a serenar as angústias e aliviar dores desse estranho tempo atual.
A mãe a apertar firme no colo seu filho pequeno, quando ele chora temendo o vírus que ronda as ruas, estando ela mesma, igualmente, assustada.
Você se lembra, mãe? Nada parecia indicar que aquelas noites em claro terminariam e, no entanto, elas passam, e vem o dia e a luz, e algo se modifica e melhora.
Como na quarentena da mãe recém-parida, assim o mundo hoje pede um tempo próprio, um movimento diferente. Pede paciência e calma – como um colo cuidadoso da mãe num choro mais demorado do bebê.

A Virgem e Menino com Santa Ana- Leonardo da Vinci
A Virgem e o menino com Santa Ana- Leonardo da Vinci.

Nesta bela cena, Ana dá colo a Maria

para que possa inclinar-se e trocar olhares com o menino Jesus. Uma representação do holding ( apoio) de que a mãe precisa para poder bem cuidar de seu filho.

Desejo de filho

O que leva um sujeito a desejar ser pai ou mãe? Nos filmes Juno ( Jason Reitman, 2007) e Mais uma chance (Tamara Jenkins , 2018) ; o tema se coloca.

São filmes diferentes mas seus enredos se tocam em alguns pontos. Em “Juno”, fala-se da gravidez na adolescência, seus dilemas. Quando a mocinha decide abortar, falta coragem. Ela decide doar o bebê. Encontra então um casal bacana que está à procura de um filho . Em “Mais uma chance”, há também um casal infértil que oscila entre a ideia de adoção e a busca de tratamentos para conceber. Este casal irá recorrer à ovodoação por conta da idade da mãe, e a doadora será uma sobrinha por quem sentem afinidade.

No primeiro filme, Juno vai escolher o casal que receberá seu bebê por meio de um anúncio. Ao conhecê-los se encanta : são a família que ela idealiza, ela que vive com pai e madrasta e se sente negligenciada pela mãe.

Já a ovodoadora do filme ” Mais uma chance ” é uma pessoa da família. Apesar dos contextos diferentes, ambos os filmes iluminam as triangulações que acontecem nestas situações peculiares. Quando o bebê que vai chegar promete vir por meios diferentes do convencional, a cegonha faz um pit stop que custa caro (literal e psiquicamente) para as pessoas envolvidas.

Escolho aqui falar dos personagens femininos dos filmes para iluminar aspectos das suas dificuldades e alegrias na relação com a maternidade.

Juno é a personagem principal do filme que leva seu nome. Tem 16 anos e engravida do namorado, num deslize. Descobre a gravidez num teste que faz no banheiro de um mercadinho. Nos seu livro “Adolescência em cartaz” Diana e Mario Corso falam sobre ela e especulam sobre a razão inconsciente que pode ter ocasionado este delize… uma tentativa de reparar em ato uma ferida aberta lá atrás, quando Juno foi abandonada pela mãe : ” em nosso entendimento, Juno repete sua história de rejeição e adoção por parte de outra mãe. Sua decisão foi a de manter a gravidez e encontrar alguém que deseje e receba este bebê. Pensa em doá-lo a uma mulher estéril ou a um casal de lésbicas. O desejo por um filho, tão importante para a descartada Juno, encontra, tanto na mulher que adota o recém-nascido quanto na atitude irrepreensivelmente materna da madrasta, uma acolhida que compensa a falta de sua própria mãe.”

E por sinal Bren, a madrasta de Juno, é uma mãe melhor que a encomenda! Amorosa e firme, consegue, ao lado do pai da adolescente, apoiá-la na decisão de entregar sua criança para adoção. Sem recriminações, sem exclusão, sem paternalismo- o que comumente encontramos nas famílias que se deparam com a gravidez indesejada nesta fase da vida. Bren, como madrasta, presentifica o aspecto simbólico da filiação que não precisa passar pela carne para se concretizar. Ela se responsabiliza pela adolescente e assume o cuidado dela junto ao pai, não sem sofrer junto com Juno o peso da difícil decisão.

Aqui Bren acompanha Juno no ultrassom gestacional

A outra personagem feminina do filme “Juno” é Vanessa, a mãe que ela escolhe para dar o seu bebê. É casada , organizada, bem sucedida- mas não consegue engravidar . Faz um casal bonito com Mark: casal que sucumbe ante à dificuldade encontrada no projeto de adoção . Apesar do perfeccionismo e da intensa projeção narcísica sobre a cobiçada criança, Vanessa sofre com o descompasso entre seu desejo de filho e a postura do marido. Ele parece ter fixações na adolescência e não se sente à altura do projeto “pai”. Quando vai receber o bebê de Juno, Vanessa já está sozinha. Recebe emocionada a criança em seus braços e pergunta à Bren, que a observa ternamente: ” Como pareço?”, ao que Bren responde: ” Como uma nova mãe apavorada!” Nesta cena o círculo se fecha: as duas mães adotivas se encontram por meio do ato de Juno de doar o bebê . Bebê gerado pelo desejo inconsciente de restaurar a união perdida com uma mãe que não há… Juno não tinha o desejo de cuidar de um filho , ela queria ser cuidada. Ao perceber isso pôde ter o apoio de sua família para lidar com a situação , aprender com a experiência.

Além da gestação como passagem ao ato, que foi o que aconteceu com Juno, uma gravidez pode ter muitos outros sentidos que não o desejo de cuidar de um filho. ” Para a psicanálise, uma passagem ao ato é algo que tem uma motivação inconsciente para acontecer”, dizem Mario e Diana Corso. Os autores falam também da consolidação da imagem feminina e do desejo de dar um bebê aos pais como motivações inconscientes para a gravidez. Todo desejo de filho é um amálgama de muitos outros desejos nem sempre compreendidos pelo sujeito.

Agora vamos falar de outras três mulheres, personagens do filme “Mais uma chance ” ( Private life ) . Rachel, escritora engajada, é a personagem que aqui sofre com a dificuldade de engravidar. Num diálogo que tem com o companheiro percebemos a culpa por ter adiado o projeto de ser mãe por conta da profissão – agora sente que é tarde demais. Ela vai se submeter ao processo desubjetivante dos tratamentos de fertilidade, nos quais percebemos o sofrimento psíquico que os procedimentos carregados de impessoalidade lhe trazem. Seu cabelo desalinhado, as cenas de nudez, as alterações de humor e o desconforto que parece sentir retratam o custo que o desejo de filho lhe traz. O seu corpo erótico reduzido a um corpo- coisa, máquina que teima em não funcionar. Ela oscila mas não desiste mesmo quando, no final de todo o processo, passa pelo luto do fracasso da inseminação artificial. A alegria de estar com a sobrinha e algumas falas do filme fazem pensar que Rachel e o esposo desejam uma criança como uma mudança em suas vidas e para renovar a própria vida. Aqui parece haver o desejo de cuidar de alguém. Porém, apesar do humor presente em muitas cenas, o patético da situação de reprodução assistida e da busca de um filho desnuda a fragilidade de Rachel e sua tristeza. Sua feminilidade e potência é posta à prova; ela que é uma pessoa criativa se sente desvitalizada e acuada diante da situação. Rachel também se encaixa na descrição que o casal Corso faz quando fala do problema de Vanessa :

Dos rivais que a libertação feminina tem enfrentado, os mais indomáveis parecem ser os ritmos biológicos. Ficamos prontas para engravidar, com a fertilidade a ponto de bala, o corpo viçoso e flexível, quando a cabeça ainda tem muitíssimas outras coisas com o que se ocupar. Depois, quando certas escolhas já foram feitas, e algumas garantias nos tranquilizam, aí já estamos fisicamente mais frágeis para conceber e parir. Se então quisermos ser mães, necessitaremos repouso e assistência médica.”*

Rachel, Sadie e Richard diante do médico especialista em reprodução humana

Sadie é a moça que tem o tal “corpo viçoso e flexível” e a “fertilidade a ponto de bala”, com a cabeça ainda cheia de projetos e coisas para resolver antes de ser mãe. Sobrinha do casal, deseja ser escritora como a tia e aceita doar-lhe seus óvulos . Embarca no projeto vivenciando-o como uma oportunidade de fazer algo de bom : e se perde no caminho pelo peso psíquico que toda a situação representa para ela . Há uma cena em que diz para Rachel que irão ter um bebê juntas- pois será seu óvulo a ser inseminado no ventre da outra. Esta cena é carregada de sensualidade e mostra a intimidade das duas mulheres como um casal e também como mãe e filha, numa perigosa realização imaginária dos desejos incestuosos de Sadie com esta figura materna e dupla de si que a tia parece representar. Para Freud, a descoberta da fase pré-edípica na menina equivale ao encontro de toda uma civilização soterrada sob a escolha heterossexual da mulher: pois o primeiro amor da menina, como no caso do menino, é a mãe. Dar um bebê à sua mãe é uma fantasia que Sadie parece estar próxima de realizar- e é neste momento que a moça se apaga diante do desejo da outra.

E se a tia Rachel permanece como figura idealizada e imitada pela Sadie, a mãe da moça, Cynthia, é por ela desqualificada. Cynthia é a terceira personagem do filme de que quero falar.

Ela está chegando à menopausa e se depara com a decisão da filha de doar seus óvulos. Ambas tem uma relação difícil, estão muito afastadas e com dificuldade de comunicação. Cynthia não valida a escolha profissional da filha que também a critica, que a confronta. Cynthia não compreende a obstinação de Rachel em seu desejo de engravidar, e tem muita dificuldade de aceitar o procedimento da ovodoação. Ficamos sabendo que ela teve a filha muito nova e isto acarretou-lhe muitos sacrifícios . Ela faz alguns movimentos para se aproximar mas o processo adolescente de Sadie dificulta o encontro das duas: a moça está buscando se diferenciar da sua mãe e a mãe também passa por um momento difícil, encarando o ninho vazio sem ter tido chance de outras realizações pessoais.

Outro círculo se fecha aqui: Sadie liga as duas mulheres e cada uma fez uma escolha na vida… ambas começam a envelhecer sentindo falta daquilo que não realizaram. Cynthia é o negativo de Rachel, Rachel é o negativo de Cynthia.

O que todas essa mulheres: Juno, Vanessa e Bren, Rachel, Sadie e Cynthia tem a nos ensinar? São mulheres do nosso tempo às voltas com o dilema da maternidade, e o que é ser mulher. Juno e Sadie passam pela adolescência, Rachel e Cynthia envelhecem, e tem de fazer lutos. Rachel está com dificuldade neste luto- está num impasse, congelada. É o que a cena final do filme deixa transparecer. Vanessa também passa pela crise no casamento que a injunção de se tornar pais representa. Vemos mulheres passando por processos de transformação . Juno recua diante da maternidade, Vanessa avança: ambas crescem no processo. Rachel ainda precisará de mais tempo para resolver o impasse em que se encontra. Sadie sai um pouco estropiada da experiência da ovodoação mas (com ajuda dos tios) prossegue em seu caminho criativo. A generosa Bren, avó por um segundo, transmite à outra mulher apoio e segurança.

Cada uma se vira como pode.

Eu já tinha comprado o livro de Contardo Caligaris e Maria Homem “Coisa de menina” mas não havia lido. Com a morte dele, corri para abrir o livro, ainda dentro do plástico- pequenas alegrias de sábado à noite na pandemia. É bom poder escutar a voz de Contardo e Maria falando que não nascemos mulher, nos tornamos mulheres. E por não sermos somente bichos fêmeas reprodutoras, por termos de significar para nós o que significa ser -ou não ser- mulher e mãe, sempre haverá muitas viscissitudes neste processo. A origem da vida e a diferença entre os sexos permanecem sendo grandes mistérios para nós.

Diante do mistério, toda ciência será sempre pouca- e sempre um pouco louca.

* Juno | Mario & Diana – Psicanálise na vida cotidiana (marioedianacorso.com)

Uma das musicas mais lindas sobre adoção… desejo de filho!!!

Acalantos

“meu coração me acordou chorando ontem à noite

o que posso fazer eu supliquei

meu coração disse

escreva o livro

Rupi Kaur ( Outras jeitos de usar a boca, 2014 )

Esta história começa com a perda de um vovô querido que me comoveu muito, colhido pela Covid. E este sobressalto no peito. Meu coração disse: escreva. E então a idéia de um acalanto me veio : a composição de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos que fala disso, de avós e netos. Fiz a postagem ( https://www.gestoespontaneo.com.br/avos/) mas meu coração não sossegou.

Porque no meio do caminho da minha busca musical, navegando na internet, dei em outras terras . Topei com um outro avô e um terceiro acalanto, que não conhecia. Navegando na internet também cheguei à Bahia

e ouvi:

Ou seja: encontrei Caetano, vovô moderno, observando seu neto Benjamim aprendendo a dormir! Cantava assim:

O autoacalanto de Benjamin
Que é, por enquanto, caçula de mim
É um deslumbramento
Ele emula o canto de um querubim, curumim

O que é mesmo que isso me ensina?
Um ser que a si mesmo se nina
É um quase lamento
Já é nota de tom
E tem cor de jasmim

Eu nunca tinha visto nada assim

O alumbramento do avô reparando no neto que começa a compor alguma coisa de si, quase um lamento, acalentando a si próprio… eu também não tinha visto nada assim. O avô não só observa o neto, como traduz o que vê, na letra da canção – e o imita. O autoacalanto que ajuda Benjamim a dormir é por seu avô reproduzido, brincado, na própria canção, nas vocalizações que ouvimos após os versos finais.

Coisa de vô e neto.

Quem tem bebê pequeno sabe que aprender a dormir sozinho não é fácil. A possibilidade de um bebê se autoacalentar, principalmente em algumas fases em que se angustia mais de estar separado da mãe : não é pouca coisa não! A nossa colega Gilca nos fala disso em seu post ( https://www.gestoespontaneo.com.br/o-sono-dos-bebes/).

Assim, o que o avô percebe, e faz com que ele se en-cante, é o uso que Benjamin faz das vocalizações para ninar-se a si mesmo.

Este acontecimento psíquico não escapou dos olhos de Winnicott.

Em “O brincar e a Realidade” o autor nos conta desta descoberta e inaugura um campo muito rico de pensamento para a psicanálise . Ele nomeia de objetos transicionais aquelas primeiras posses dos bebês que podem ser o ursinho, o “naná”, ou até a ponta de um cobertor e que os ajuda a se consolar e ficar bem sem a presença da mãe. Ele nos ensina que mesmo palavras que o bebê canta ou repete podem ter para ele um valor transicional, no sentido de permitirem um intercâmbio entre ele e o mundo, confortarem, reassegurarem, na medida em que encarnam ,para ele, a mãe. Estes objetos estão numa área intermediária que “mistura” seu mundo interno e a realidade, uma área de verdadeiro brincar, que ainda não é para o bebê pura imaginação ( pois o objeto tem de estar lá na sua concretude) mas já denota uma capacidade de ir além da concretude das coisas, uma qualidade do que em nós é o psiquico e que nos bebês pequenos está em estado nascente.

Um avô que observa esta coisa acontecendo em seu neto e a torna música nos lembra o quão deslumbrante pode ser a percepção, para o adulto, deste acontecimento. O poeta, o artista, é aquele que olha uma coisa corriqueira, comum, e se deslumbra. Winnicott vai entender a cultura como uma derivação dos objetos transicionais do bebê: na medida em que os espaços de troca culturais são lugares privilegiados onde ou Eu e o mundo se misturam sem que se precise abrir mão da fantasia e da sensação de ter criado, inventado, o mundo. A cultura é o sonho compartilhado com o mundo real.

Vovô Caetano faz a mesma coisa que Benjamin quando compõe sua canção.

Coisa de vô e neto.

Agora vamos rodar o filme para uns cem anos atrás. Há cem anos , também assolado por uma epidemia, um outro avô escreveu sobre seu neto, a partir da observação dos acontecimentos psiquicos que podia inferir das suas brincadeiras. A história é mais ou menos assim.

Este avô foi passear na casa da filha ( dizem que era a sua filha predileta) e observou o neto brincando com um carretel. Ele sacou, como Caetano, que as vocalizações da brincadeira estariam representando a imagem mental da continuidade-descontinuidade da presença materna! A esta altura você já deve estar imaginando que o vovô aqui era o Freud.

Freud e seus netos, filhos de Sophie

Sobre o relato da brincadeira do neto, transcrevo abaixo suas próprias palavras:

“As diferentes teorias sobre a brincadeira das crianças … esforçam-se por descobrir os motivos que levam as crianças a brincar, mas deixam de trazer para o primeiro plano o motivo econômico, a consideração da produção de prazer envolvida. Sem querer incluir todo o campo abrangido por esses fenômenos, pude, através de uma oportunidade fortuita que se me apresentou, lançar certa luz sobre a primeira brincadeira efetuada por um menininho de ano e meio de idade e inventada por ele próprio. Foi mais do que uma simples observação passageira, porque vivi sob o mesmo teto que a criança e seus pais durante algumas semanas, e foi algum tempo antes que descobri o significado da enigmática atividade que ele constantemente repetia.

A criança de modo algum era precoce em seu desenvolvimento intelectual. À idade de ano e meio podia dizer apenas algumas palavras compreensíveis e utilizava também uma série de sons que expressavam um significado inteligível para aqueles que a rodeavam. Achava-se, contudo, em bons termos com os pais e sua única empregada, e tributos eram-lhe prestados por ser um “bom menino‟. Não incomodava os pais à noite, obedecia conscientemente às ordens de não tocar em certas coisas, ou de não entrar em determinados cômodos e, acima de tudo, nunca chorava quando sua mãe o deixava por algumas horas. Ao mesmo tempo, era bastante ligado à mãe, que tinha não apenas de alimentá-lo, como também cuidava dele sem qualquer ajuda externa. Esse bom menininho, contudo, tinha o hábito ocasional e perturbador de apanhar quaisquer objetos que pudesse agarrar e atirá-los longe para um canto, sob a cama, de maneira que procurar seus brinquedos e apanhá-los, quase sempre dava bom trabalho. Enquanto procedia assim, emitia um longo e arrastado “o-o-o-ó”, acompanhado por expressão de interesse e satisfação. Sua mãe e o autor do presente relato concordaram em achar que isso não constituía uma simples interjeição, mas representava a palavra alemã “fort.” Acabei por compreender que se tratava de um jogo e que o único uso que o menino fazia de seus brinquedos, era brincar de “ir embora” com eles. Certo dia, fiz uma observação que confirmou meu ponto de vista. O menino tinha um carretel de madeira com um pedaço de cordão amarrado em volta dele. Nunca lhe ocorrera puxá-lo pelo chão atrás de si, por exemplo, e brincar com o carretel como se fosse um carro. O que ele fazia era segurar o carretel pelo cordão e com muita perícia arremessá-lo por sobre a borda de sua caminha encortinada, de maneira que aquele desaparecia por entre as cortinas, ao mesmo tempo que o menino proferia seu expressivo “o-o-ó”. Puxava então o carretel para fora da cama novamente, por meio do cordão, e saudava o seu reaparecimento com um alegre “da” (ali). Essa, então, era a brincadeira completa: desaparecimento e retorno. Via de regra, assistia-se apenas a seu primeiro ato, que era incansavelmente repetido como um jogo em si mesmo, embora não haja dúvida de que o prazer maior se ligava ao segundo ato.

A interpretação do jogo tornou-se então óbvia. Ele se relacionava à grande realização
cultural da criança, a renúncia instintual (isto é, a renúncia à satisfação instintual) que efetuara ao deixar a mãe ir embora sem protestar. Compensava-se por isso, por assim dizer, encenando ele próprio o desaparecimento e a volta dos objetos que se encontravam a seu alcance.” ( Freud- Além do princípio do prazer -1920).

Quando publicou este texto, em 1920, contando a história da brincadeira do neto, Freud havia acabado de perder sua filha Sophie, a mãe deste garotinho, para a gripe espanhola!

Entre Freud, Winnicott, e hoje, muita coisa mudou e muita coisa permanece a mesma.

Cem anos depois, cá estamos nós, assolados por uma nova pandemia, que nos levou muitos avôs ( inclusive o vovô Aldir Blanc), assim como no passado a gripe espanhola levou Sophie. Por que o texto de Freud permanece atual?

Aqui está um avô que observa. Diferente de Caetano, que compôs uma musica , este avô também tentou entender, traduzir, as vocalizações de seu neto e o nascimento de algo psiquico que aquilo representava. Este mesmo homem, assolado pela dor da perda da mãe deste garotinho, publicou no mesmo ano desta morte um trabalho profundo e audacioso ( Além do principio do prazer) onde tentou entender a natureza da repetição no acontecer psíquico. É neste trabalho que ele fala desta brincadeira do carretel. O que ele não fala, e hoje podemos pensar, é que na medida em que escreve também brinca, como seu neto, sentindo falta de sua amada Sophie.

Ele , no decorrer do seu texto, termina por desenvolver idéias sobre a destrutividade que nos ataca por dentro- a qual chamou de instinto de morte. Ainda hoje, recorremos a este texto, lemos , relemos, na busca de entender essa onda de morte que nos assola. Este presidente que, sem máscara, nos assusta. Este vírus que parece mais ligeiro do que a gente, do que a nossa inteligência, nossa capacidade de fazer ligações.

E vamos tentando fazer ligações.

Ligar, desligar, brincar, simbolizar, escrever, compor. A história que começa com um avô perdido, chega na Bahia, encontra outro avô, coloca o Winnicott na caravela, volta cem anos do tempo, mais um avô, mais um neto, mais uma perda, outra pandemia. Conseguem me acompanhar nesta viagem?

(o que posso fazer eu supliquei

meu coração disse

escreva o livro )

No ano em que perdeu sua filha o avô Freud não fez uma canção – ele mesmo dizia não ser um cara muito musical- e sim escreveu um trabalho que nos encanta até hoje. Este trabalho com certeza fez parte do processo de Winnicott na formação da idéia do objeto transicional. Pensemos o bebê representando o processo de continuidade-descontinuidade da presença materna por meio do jogo do carretel. Pensemos Benjamin, ninando a si mesmo, cem anos depois. E entre Caetano e Freud, Winnicott- que não foi avô mas mesmo assim foi grande em descrever muitos alumbramentos no desenvolvimento das inúmeras crianças que observou ao longo dos anos da sua clínica.

Sim, coisa de avô e neto: um acalanto leva ao outro, e Freud aprende com seu neto! Sua escrita de “Além do principio do prazer” , iniciada antes, mas publicada no ano da morte da filha, também é uma elaboração da perda que sofre.

O que é esta combinação de amor tão poderosa ? Um dos terrenos mais férteis para estes acalantos e composições todas que nos ajudam, enfim, a compreender o humano . Para mim a psicanálise é isso.

E aqui estou euzinha- brincando de escrever no blog e reunir dentro de mim estes mestres que admiro.

Talvez o mesmo motivo que fez vovô Freud escrever, vovô Caetano cantarolar, e seus netinhos brincarem seja o que me move agora a postar, neste blog, uma certa costura de todos estes retalhos que me ajudam a pensar , resistir, lidar com este momento difícil da pandemia e as perdas que ela vem nos trazendo.

É também um autoacalanto…

retirado de : http://ocantinhodadiversao.blogspot.com/2011/09/brincadeiras-folcloricas.html

( dedico este post à Elisa Cintra, que vem trabalhando conosco , em seu curso, o brincar. )

Benzinho- a Nossa Pietá brasileira


Benzinho-  A nossa pietá brasileira

Sobre a relação do homem com sua mãe, a nossa blogueira  do Gesto Espontaneo , Cecilia Hirchzon escreve *:

“O homem, para ser “si mesmo” e para constituir a sua identidade masculina, terá de se separar desta Mulher,  de quem dependeu totalmente. Já a mulher, para se constituir como tal, não precisa estabelecer necessariamente a separação – pode manter-se identificada com essa Mulher. Observamos, portanto, duas direções distintas: enquanto a mulher lida com a Mulher dentro de si através da identificação, o homem tem que se separar, tornar-se único, o que se constitui em uma urgência no desenvolvimento da sua identidade. A especificidade da identidade feminina caracteriza-se por ser geracional e infinita, isto é, podendo manter dentro de si três mulheres: o bebê menina, a mãe e a mãe da mãe. Essa condição possibilita à mulher o desempenho de diferentes funções sem violar a sua natureza. Pode ocupar posições diversas nas brincadeiras, onde ora é mãe, ora é filha, alternando papéis. Ou, ainda, na idade adulta, exercendo a sua feminilidade, ocupando o lugar de mãe e/ou mulher sedutora. Enquanto isso, o homem não se funde nessa linhagem – sua condição básica é a de ser um”.

No belíssimo Benzinho, de Gustavo Pizzi,  o primogênito de Irene, mulher brasileira , mãe de quatro filhos, vai embora para a Alemanha. Foi  convidado por uma universidade  interessada no seu talento esportivo. O adolescente vibra enquanto a mãe se quebra, assustada com a partida súbita, fora de hora, do filho. A história de Benzinho é o processo que se desencadeia com a chegada deste convite que tanto abala a Irene  . O principal foco do filme é o  ponto de vista da mãe que tenta aceitar a situação. De sua alegria e de sua tristeza por ver o filho partir .  Irene é “Pietá” : numa das cenas mais lindas que já vi no cinema, a mãe embala seu filho numa bóia , aproveitando este momento de grande intimidade entre eles, já elaborando sua partida…

O amor materno , no filme Benzinho, se desdobra em suas mais variadas possibilidades  ( como diz a Adelia Prado, mulher é desdobrável) . A mãe suficiente boa, por sua saúde e sua capacidade de lidar com a perda e a separação, aparece na interpretação de Irene. Mãe suficientemente boa que se atrapalha, fica brava, dá chilique, chora, pira, respira, mas, enfim, ama. A gente fica apaixonada pela Irene. Embora abatida, apoia o seu filho e o desejo dele, reconhecendo sua alteridade, lidando de forma muito humana e amorosa com a separação.

O longa foi escolhido como o filme brasileiro que vai disputar uma vaga entre os quatro finalistas ao Prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-americano, considerado o Oscar espanhol.

E, para refletir…uma música e um poema.

O gato andaluz*

(Rosa Alice Branco)

O meu filho caminha por aí. Já não sei

se é o Douro ou o Darro que lhe embala o sono.

Nem onde guardei as datas e o nome das ruas

ou se vou te encontrar logo à tardinha.

Deixei-me de saber e de pensar que sei.

Um gato arranha à minha porta a miar em andaluz.

Eu arranho a porta a dois dias daqui, duas horas

De avião. É proibido miar nos voos europeus.

Engulo a saliva do dia e assim se faz noite.

E não há gaivotas a gritar por mim. Por mim

estou eu à janela do avião. As malas

com que hei de dizer-te: cheguei. O teu abraço

como um rio qualquer onde corra água.

Esquecer o que ficou para trás e a língua que me fala.

Levar o copo à boca onde nasce a boca,

A fonte do quintal, a nascente do mar. O meu filho

Voa como se caminhasse descalço. Cruzamo-nos

no horizonte sobre a linha do rio onde deságua a luz.

E as palavras aquietam-se no seu nada.

( do livro Soletrar o dia, Ed escrituras, 2004)

o filme pode ser visto pelo Now ou Youtube nos links: https://www.nowonline.com.br/filme/benzinho/385245

Meninas e o Álcool

Não há um consumo seguro de álcool na adolescência.

A cura da adolescência é a passagem do tempo. ” nos diz  Winnicott.

Sabemos que eles e elas vão testar nossos limites, mas temos de nos posicionar firmemente : “Onde houver o desafio do rapaz ou da moça em crescimento, que haja um adulto para aceitar o desafio.” 

Ritmo: um organizador do psiquismo

                           

 

                         “Eu quero a revolução

                    mas antes quero um  ritmo”

                                                        Adelia Prado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conheci um menino que acaba de ganhar um irmãozinho , ainda antes de desmamar.

Perto de fazer 2 anos , mama antes de dormir, já come bem e vai a escola, brinca e fala. Mas, com essa novidade tremenda na sua casa, agora reluta em dormir. A mãe, cansada, que amamenta o dia todo o menorzinho, precisa que ele compreenda esse novo limite. Conta que agora ele não quer deixar de sugar, fica por muito tempo “grudado” no peito. Conheci também uma mocinha que só  consegue dormir com o celular do lado, vendo sua série favorita. Acorda cedo para a escola e sente sono nas duas primeiras aulas. Os pais  pensaram em alguma maneira de desconectar a internet dela depois das 22h. Mas ela , esperta, usa a rede da vizinha. E tem o jovem que combina de jogar video game on line com os amigos e passa da meia noite facilmente- inclusive descobriu um jeito de fingir dormir para depois levantar na calada da noite para voltar ao jogo. Numa noite o pai acordou indisposto e foi aquele Deus-nos-Acuda. Quanto mais limites ao jogo os pais colocam, mais aumenta seu desejo de jogar… Por outro lado, a mãe de um mocinho muito parecido com este outro dorme somente com o seu “Stilnox”. Como ela, outros tantos vem desaprendendo a dormir e se descuidando dos rituais saudáveis que o dormir pede ao corpo: não precisa diminuir o ritmo, se tem um indutor de sono a disposição. Voce  pode estar “à mil” e daí BUM : basta tomar o remedinho, para dormir em cinco minutos.

Conheço também um cara muito bacana, pai de dois filhos, que não almoça nem toma café  da manha. Até as duas, três da tarde, passa com café e cigarro, não sente fome. De noite faz uma lauta refeição. Ele é magrinho, mas um outro senhor que conheci teve de fazer cirurgia bariátrica, aquela da redução de estômago. Tinha os hábitos semelhantes,estava muito obeso e comia somente de manha e muito tarde a noite; pois passava o dia na sua loja dentro da estação do trem  sem nenhuma pausa para lanchar ou descansar. Tudo que é  simples ( ou deveria ser) no corpo, depende de um certo ritmo. Dormir e acordar. Comer, trabalhar, descansar. Ir ao banheiro todos os dias. Uma amiga começa sua segunda graduação. Sente que perdeu muito tempo, por isso estuda todos os dias, inclusive sábado, domingo. Muitas horas seguidas. Não percebe que sua capacidade de concentração flutua, e sem fazer as devidas pausas acaba por gastar parte do seu tempo de forma contraproducente. Se sente muito cansada, ansiosa.

Ritmos. Pausas. Cadências. Cada pessoa tem a sua necessidade de sono, de sexo, sua fome, sua capacidade de concentração. Alguns se sentem muito mais espertos de noite, outros se irritam muito quando passa a hora de comer, ou tem enxaquecas. No filme ” O Novíssimo Testamento” a menina divina escuta o coração de cada pessoa e diz a musica que ouve em cada um. Cada um de nós teria um ritmo , uma melodia particular. Mesmo no jeito de falar diferem as pessoas. Nas pausas para respirar. No fluxo do pensamento. E os bebês ja tem seus ritmos dentro do ventre materno. Bebês e mães podem ter os seus ritmos semelhantes, sincronizando facilmente, ou nem tanto. Existem bebês que adoram barulho, passear. Outros tem um temperamento mais arredio. As sensibilidades também variam, muitíssimo. ao som, ao calor, aos estímulos do ambiente. Mas a descontinuidade e as mudanças de estado sempre incomodam os bebês. Quando são trocados, quando são despidos, quando são despertados. Um pouco como nós…quem nunca sentiu um desprazer quando o despertador toca, quando o feriado  acaba, quando esfria de repente.

Quanto mais imatura a pessoa, mais difícil para ela  lidar com as mudanças, as imposições do meio e dos outros, as mil interrupções da vida . Um bebê precisa de outro alguém a lhe garantir um ambiente reassegurador, tranquilo, e esta tranquilidade advém de muitos fatores: um deles o ritmo.

Cedo a mente humana aprende a perceber os padrões ritmicos do ambiente; e dentro do corpo somos também ritmo: respiração e coração. Mas o que é o ritmo? Ritmo é o contraste entre presença e ausência, continuidade e descontinuidade, na presença de certo padrão, no tempo. O que marca um ritmo é a repetição. A compreensão de padrões, mesmo que de forma intuitiva- ou principalmente desta forma-torna possível suportar a ausência e a falta, preencher as lacunas e as esperas; e é por isso que no cuidado com os bebês pequenos a rotina é algo tão importante. O balançar acalma, o ninar é ritmico, a fala humana ao se dirigir a um bebê adquire uma tonalidade especial. Ao longo dos dias e do seu desenvolvimento , a criança, apoiada na previsibilidade dos ritmos maternos e do ambiente, aprende em pouco e pouco a tolerar e a esperar.

” No inicio o ritmo é um recurso para superar a violência da descontinuidade acalmando o bebe por meio da pluralidade de atividades ritmicas ( balanço, sucção, canto de ninar,etc). As experiências do bebê fazem-no confrontar-se com rupturas, descontinuidades, momentos de presença dos objetos que se alternam com ausências. Para evitar que isto  se revele traumático, é a ritmicidade da alternância presença/ausência  que vai  sustentar o crescimento mental”.  Para Vitor Guerra, autor da citação acima, a ritmicidade promove uma ilusão de permanência e continuidade verdadeiramente estruturantes para o psiquismo inicial.

Aquele menino se apega ao seio pois não está suportando agora, com a chegada do irmão, uma dose extra de descontinuidade em sua vida. Adolescentes tem dificuldade em deslogar, desligar, e se desorganizam facilmente. Adultos, também. Estamos demasiado acostumados com as máquinas. Comer, dormir, defecar, descansar: o corpo nos exige essas pausas que o ambiente moderno, que não pára de funcionar, nos nega. O Unibanco já era de 30 horas, antes de ser comprado pelo Itaú, imagina agora. E ninguém escuta mais o Adoniran que não quer perder o trem das onze. O trem das onze é o trem do sono: passou, perdeu, perdeu o sono. Não são apenas  os bebezinhos que precisam do ritmo e da rotina para se organizarem. Num nível profundo e  possivelmente  relacionado ao próprio desenvolvimento da mente, o ritmo aparece com elemento estruturante e organizador. Na vida adulta, ainda precisamos do ritmo e o buscamos para atingir estados mentais mais tranquilos, respirando, aprendendo a esperar e acolhendo os limites do nosso corpo , das nossas necessidades mais profundas , da finitude e da falta que nos constitui , humanos.

Para saber mais sobre o pensamento de Victor Guerra:

https://scholar.google.com.br/scholar?hl=pt-BR&as_sdt=0%2C5&q=el+ritmo+en+la+dimension+victor+guerra&btnG       

 

E aqui uma cena do filme ” o Novissimo Testamento”, filme belga de 2016. Recomendamos muito!

https://youtu.be/7LC0pTOQA4I?list=PLObaNLA3v3VwAnJxQlhbud-1-P5CsxX7B

Cuidar dos pais

Em minha casa de quatro filhas, três de nós estamos longe dos nossos pais. Embora tentemos visitá-lo frequentemente, somente Aline está, de fato, sempre perto. Ela está próxima no dia a dia para as grandes e pequenas coisas. Por causa dela podemos estar tranquilas mesmo na distância. Essa gratidão eu dificilmente conseguiria colocar em palavras.

Sobre o envelhecimento:

A integração psicossomática é conquistada no início da vida e sempre posta à prova, principalmente em fases como a adolescência, a gravidez ou a velhice. Quando o corpo muda ou falha o idoso faz um trabalho psíquico a mais para acomodar-se a este limite que agora vem de dentro. Sempre ouço me contarem que na cabeça somos mais jovens do que o nosso corpo nos diz. Como numa adolescência ao contrário. Na adolescência nos sentimos crianças tendo de nos haver com um corpo adulto. Na envelhescência estamos cheios de vontade e vigor mas o corpo já não nos responde da mesma maneira.

A autonomia, que demoramos tanto a conquistar na vida, não é facilmente abandonada. Vejo idosos aguerridamente brigarem com a família que os dimininui ou infantiliza com o intuito de proteção, deixando de perceber o quanto depender dos outros fere o seu senso de autonomia. Muitos idosos me dizem não temer a morte, e sim a dependência absoluta do outro. A lentificação das habilidades motoras e cognitivas é percebida pelo idoso não sem uma certa relutância! Reconhecer alguns limites da idade é um processo que cada pessoa faz de uma maneira muito própria.

Por isso, o filho que cuida de seus pais está numa posição difícil. Muitas vezes tem que descobrir como oferecer ajuda sem que seus pais se ressintam com isso. É preciso muita delicadeza, doçura , paciência e uma verdadeira capacidade de empatia.

Este belo texto de Valter Hugo Mãe fala de um modo poético sobre cuidar dos pais. 

“A minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.

Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas. Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde. Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. Eu daria todos os melhores presentes à minha mãe.

Rabujo igual aos que amam. Quando amamos, temos urgência em proteger, por isso somos mais do que sinaleiros, apontando, assobiando, mais do que árbitros, fiscalizando para que tudo seja certo, seguro. E rabujamos porque as pessoas amadas erram, têm caprichos, gostam de si com desconfiança, como creio que é normal gostarmos todos de nós mesmos. Aos pais e aos filhos tendemos a amar incondicionalmente mas com medo. Um amigo dizia que entendeu o pânico depois de nascer o seu primeiro filho. Temia pelo azedo do leite, pelas correntes de ar, pelo carreiro das formigas, temia muito que houvesse um órgão interno, discreto, que disfuncionasse e fizesse o seu filho apagar. Quem ama pensa em todos os perigos e desconta o tempo com martelo pesado. Os que amam sem esta factura não amam ainda. Passeiam nos afectos. É outra coisa.

Ficar para tio parece obrigar-nos a uma inversão destes papéis a dada altura. Quase ouço as minhas irmãs dizerem: não casaste, agora tomas conta da mãe e mais destas coisas. Se a luz está paga, a água, refilar porque está tudo caro, há uma porta que fecha mal, estiveram uns homens esquisitos à porta, a senhora da mercearia não deu o troco certo, o cão ladra mais do que devia, era preciso irmos à aldeia ver assuntos e as pessoas. Quem não casa deixa de ter irmãos. Só tem patrões. Viramos uma central de atendimento ao público. Porque nos ligam para saber se está tudo bem, que é o mesmo que perguntar acerca da nossa competência e responsabilizar-nos mais ainda. Como se o amor tivesse agentes. Cupidos que, ao invés de flechas, usam telefones. E, depois, espantam-se: ah, eu pensei que isso já tinha passado, pensei que estava arranjado, naquele dia achei que a doutora já anunciara a cura, eu até fiz uma sopa, no mês passado até fomos de carro ao Porto, jantámos em modo fino e tudo.

Quando passamos a ser pais das nossas mães, tornamo-nos exigentes e cansamo-nos por tudo. Ao contrário de quem é pai de filhas, nós corremos absolutamente contra o tempo, o corpo, os preconceitos, as cores adequadas para a idade. Somos centrais telefónicas aflitas.

Queremos sempre que chegue a Primavera, o Verão, que haja sol e aqueçam os dias, para descermos à marginal a ver as pessoas que também se arrastam por cães pequenos. Só gostamos de quem tem cães pequenos. Odiamos bicharocos grotescos tratados como seres delicados. O nosso Crisóstomo, que é lingrinhas, corre sempre perigo com cães musculados que as pessoas insistem em garantir que não fazem mal a uma mosca. Deitam-nos as patas ao peito e atiram-nos ao chão, as filhas que são mães podem cair e partir os ossos da bacia. Porque temos bacias dentro do corpo. Somos todos estranhos. Passeamos estranhos com os cães na marginal e o que nos aproveita mesmo é o sol. A minha mãe adora sol. Melhora de tudo. Com os seus lenços como coisas líquidas e cristalinas ao pescoço, ela fica lindíssima. E isso compensa. Recompensa.

Comemos o sol. Somos, sem grande segredo, seres que comem o sol. Por isso, entre as angústias, sorrimos.”

(Via Público– retirado de Cuidar dos pais | Casa de papel | PÚBLICO (publico.pt)

https://www.publico.pt/2015/03/29/sociedade/opiniao/cuidar-dos-pais-1690432

Na primeira febre, a minha febre
E quem é quem pedindo proteção?
Ponho a mão na testa do meu neto
E é meu avô que está estendendo a mão

Nessa comunhão dos três
Eu sou avô do meu avô
Ele é o menino ali
E ri das confusões
Que o grande amor pode fazer
É um milagre essa multiplicação
De mãos e febres por buscar ternura
E então com medo de morrer
A fragilíssima trindade jura
Ficaremos sempre assim por perto
E quando meu neto tiver neto
Uma febre unindo o que passou
Dirá pro tempo: oi, meu avô

É por aí: um piano em debussy
O morcego e o sapoti na praia dos coqueiros
O avô sou eu numa bicicleta
De canelas finas, mexe com as meninas

Explode a trovoada, a chuva canta
E a enxurrada leva todos nós
Fracionados sim, mas fusionados
Rumo ao delta, à queda, ao fim, à foz

E uma vez que voltaremos
Numa febre que menino-avô terei
Até o filósofo sorri

“é o mesmo rio. eu me enganei”

( Adir Blanc- Cristóvão Bastos : Acalanto para netos).

A mãe suficientemente má

“Esse problema…se torna gradativamente um problema óbvio, devido ao fato que a principal tarefa da mãe ( além de fornecer a oportunidade da ilusão) é a desilusão. Isso antecede a tarefa do desmame e também continua a ser uma das tarefas dos pais e educadores.”

Winnicott ( em “o brincar e a realidade”)

Pensando por aqui… uma pergunta às mães… você é uma mãe suficientemente má? O que Winnicott quer dizer quando diz que a principal tarefa da mãe, além de permitir ao bebê a ilusão de que ele cria o mundo, nos estágios iniciais, é justamente desiludi-lo em seguida?

Aqui faço uma brincadeira, porque pensando por este prisma a mãe suficientemente má… é boa. E a mãe boa-demais-da-conta: é má !!! Isso pode parecer um jogo bobo de palavras mas na dialética do processo de ilusão- desilusão a dança entre a mãe e o bebê muda de ritmo conforme ele pode acompanhar, cada vez mais veloz , cada vez mais capaz, as variações do mundo. A desilusão é parte do crescimento . A diferenciação entre o Si mesmo e o outro, tão dolorosa, mas tão vital para o convívio em sociedade, deriva do amor parental . Em algum momento você dirá para seu filho: Alto lá!!! Tem mais alguém aqui! E a criança cairá do seu pedestal. Ser uma mãe suficientemente má é deixar o bebê dormir sozinho, ter outros interesses, permitir que ele desmame, trazer e facilitar a entrada de outras pessoas na vida dele… e curtir aquele gostinho amargo de descobrir que ele já não precisa tanto de você, porque cresceu. Doce amargo gosto de permitir-se ser desnecessária.

Quando a mamãe sai de cena coisas boas podem acontecer.

O mundo em pequenas doses… assim o bebê vai sendo apresentado à vida até que seja capaz de reagir ao mundo, negociar com ele, deixar-se enlaçar pela realidade. Em um dado momento sabemo-nos separados e únicos. Não é fácil. Embora dentro de cada um de nós haja ainda uma criança que busca meios de controlar, negar ou modificar a realidade, a desilusão inicial que nos fez enxergar mamãe como uma pessoa inteira e fora da área de nosso controle onipotente nos tornou mais humanos.

” presumimos que a aceitação da realidade é uma tarefa que nunca é completada, pois nenhum ser humano está livre da tensão causada pela relação entre as realidades interna e externa.!”

Pois sim. Nascer é muito comprido?

Essa frase do poeta me inspira a pensar no contínuo processo de constituir um Si mesmo, dependente e solitário ao mesmo tempo, à medida que as desilusões da vida vão se acumulando como pedras no caminho. Com a imagem de um caminho pavimentado por essas pedras , podemos pensar a jornada da criança que teve a sorte de ter uma mãe imperfeita.

Outro dia numa live com os pais falávamos da diferença entre traumatizar a criança e frustrá-la. Há hoje em dia um certo medo de traumatizar o filho que deixa muito pai e mãe perdidos e confusos, esquecendo que a tarefa de desiludir é tão importante quanto a de gratificar a criança.

E o pulo do gato é conseguir, como na dança, pegar o ritmo, mudar de ritmo, conforme pode a criança suportar as frustrações . Quando se está na área da NECESSIDADE, quando se ainda é frágil para lidar com o mundo sem o anteparo materno, não podemos falar de frustração, e sim de privação. No início a adaptação da mãe ao bebê é quase total. Adivinha se ele tem frio, fome, cuida dele e o alimenta. Mas se tudo corre bem, o bebê cresce. A mãe ou o pai bons demais da conta subestimam a capacidade de seu filho de se firmar sobre as próprias pedras. Sobre as próprias pernas.

Se te parece que o amor é só bondade e ternura, solicitude e gratificação sem limites…isso não existe nem mais nos filmes da Disney! Toda mãe pode enjoar um pouco do seu bebê, desejar seu espaço, dizer não a ele e “dividi-lo” com as outras pessoas amorosas que os cercam; papai, vovôs, a escola…

E você? Considera-se uma mãe suficientemente má?

Sia – Courage To Change | Malévola (Tradução / Legendado) – YouTube

Em “Malévola” a fada das trevas acaba por se revelar não tão malvada assim… Uma história bonita para assistir e pensar.

A Função materna

” Entender os outros não é uma tarefa que comece nos outros. O início somos sempre nós próprios, a pessoa em que acordámos nesse dia. Entender os outros é uma tarefa que nunca nos dispensa. Ser os outros é uma ilusão. Quando estamos lá, a ver aquilo que os outros veem, a sentir na própria pele a aragem que outros sentem, somos sempre nós próprios, são os nossos olhos, é a nossa pele. Não somos nós a sermos os outros, somos nós a sermos nós. Nós nunca somos os outros. Podemos entendê-los, que é o mesmo que dizer: podemos acreditar que os entendemos. Os outros até podem garantir que estamos a entendê-los. Mas essa será sempre uma fé. Aquilo que entendemos está fechado em nós. Aquilo que procuramos entender está fechado nos outros.”

José luis Peixoto; “Em teu ventre”

Falando de fé.

Existe uma coisa que é a fé: um sentimento e uma certeza que não se pode explicar. Falamos para nos comunicar, acreditamos. O que você ouve? Acredito que você me ouve. Acredito que sabe que sentido estas palavras tem para mim. Acredito que, na nossa linguagem comum, compartilhamos palavras e sentidos. Você me escuta? O que você escuta? Tento te contar alguma coisa, compartilhar algo. Um pensamento, uma história, um pedido.

Mas às vezes sua cabeça funciona como o corretor automático do whatsap. Vai completando as palavras, terminando a minha frase antes que ela acabe. Não me espera terminar. Também não te espero. Exaspero. De onde vem esta fé de ser compreendido?

Não perco a fé, recomeço.

Gostaria de não precisar das palavras. Você brinca comigo, você diz : será que vou ter que desenhar? Quem sabe.

Quem dera a gente pudesse e soubesse desenhar assim. Se tivesse uma penseira, que nem aquela da história do Harry Potter. A penseira uma bacia grande em que os pensamentos refletidos em imagens e cenas pudessem ser observados de fora. A penseira é o sonho? E se eu te contar o meu sonho?

Mas não me lembro mais. Ao pensar no sonho, ele já se escorrega para o fundo da penseira. Conto uma história do meu sonho, uma narrativa do sonho. Mas o sonho já me escapuliu. Nem eu sei do meu sonho.

E não sei se era bem isso… não sei… Não era bem isso que eu queria dizer. Se tudo é mal-entendido… existe bem-entendido? Será que a gente poderia vir ao mundo com uma tecla SAP? Uma legenda … veja bem… uma tabuleta luminosa com explicações . Que idioma, que léxico, compartilhamos – ou não?

Longe, muito longe, era uma vez. Quando eu não podia falar já falavam comigo. Alguém falou por mim meu sono, minha fome. Alguém me disse que eu estava assustado de noite, era escuro. Alguém soube da minha dor de barriga e me colocou de bruços, foi bom. Quem é você, que fala comigo antes que eu me fale? Quem é você, meu cobertor, minha geladeira e meu microondas, meu carro, meu patinete, meu balanço ? Quem é este cheiro familiar, este barulhinho de água esquentando, quem é esta água em que me mergulham para eu brincar? Quem é esta voz que se aproxima e se afasta, nesta certa tonalidade, que me faz dormir? Quem me veste estes panos macios, coloca meias nos meus pés, que eu tiro sem perceber.

Fé. Eu não me esqueço destas memórias das quais não me lembro bem… hoje são fé. Falo com você porque acredito. Espero, porque acredito, que possamos nos bem entender. À parte os mal entendidos … Um dia me adivinharam , hoje quero te falar.

Um dia me pensaram, me sonharam.

Hoje sou.

A função materna resta em fé.

Acima: Uma mãe adotiva dando ao pequeno Leitão assustado a experiência de um banho!

Amamentação e sexualidade: falando sobre isso

O processo de amamentação é de grande riqueza quando pensamos na sintonia que com ele se estabelece entre a mãe e o bebê. Para mais além das vantagens nutricionais e imunológicas, na amamentação há aspectos emocionais que contribuem para o desenvolvimento, no bebê, da experiência de continuidade de ser. A idéia da continuidade de ser é formulada por Winnicott considerando que o bebezinho tem uma pequena capacidade de tolerar os estresses ambientais: barulhos fortes, alterações de temperatura, e até a própria fome que ele não tem condições de perceber que vem de dentro dele mesmo ! Sensações ruins desorganizam o bebê, e cabe à mãe ou aos que dele cuidam garantir a ele um ambiente acolhedor, quentinho, transições suaves , e o atendimento às suas necessidades : que no início são muito grandes. Quem já cuidou de um bebê pequeno sabe que há um grau de exigência alto do ambiente para que tudo corra bem. A tarefa que pode parecer simples é de fato muito complexa, demandando dedicação e amor. Na amamentação que corre bem, o bebê experimenta a sensação de que o seio está lá exatamente quando ele precisa, e essa sensação aumenta a sua experiência de continuidade de ser. Obviamente para que isso ocorra a mãe estará muito atenta e sintonizada com ele. Essa é a grande riqueza da experiência de amamentação de que nos fala Winnicott.

Pode parecer estranho falar de amamentação e sexualidade se pensamos na sexualidade genital, associada à procriação e ao erotismo adulto. Mas do ponto de vista psicanalítico a sexualidade é muito mais ampla, diz de todos os prazeres que vem do corpo e faz parte da vida , nos ligando aos objetos do mundo. Para o bebê o prazer oral de mamar e sugar está conectado ao seu modo de alimentação . Por isso a gratificação de suas necessidades neste âmbito torna-se uma experiência emocional , afetiva. Para a mãe, amamentar também se torna prazeroso ( embora possa haver muitas dificuldades iniciais), e no processo de alimentar o bebê a mãe se conecta ainda mais a ele.

É natural que no puerpério a sexualidade se desloque,do ponto de vista da mãe , para o bebê – e o seio que foi uma zona erógena de prazer para o casal esteja agora ligado ao processo da amamentação, em outro registro libidinal. É importante falar do pai ( ou parceiro- parceira) que em alguns momentos pode se sentir excluído da relação mãe- bebê. Mas o tempo passa e chega o momento em que a adaptabilidade quase perfeita deixa de acontecer: o bebê já pode esperar, e a mãe já deseja retomar aspectos da sua vida que foram deixados de lado no processo. O casal parental deseja retomar sua vida erótica genital, voltar a namorar. Sobre isto falaram Cleyton e Denise, pediatra e psicanalista, na live abaixo. Vale conferir.

( texto de Arianne Angelelli)

Live realizada em 20/08/20 com o pediatra Cleyton Angelelli e Denise Feliciano

Rapunzel e sua torre:considerações a respeito da psicose puerperal

Entre a psicose e a normalidade existem mais conexões do que  gostaríamos de acreditar- e a familiaridade do estranho da psicose nos assusta justamente por sua ressonância em nós mesmos. Diz Nino Ferro “Naturalmente, é com os pacientes graves (e com as partes psicóticas de cada paciente) que continuamente nos expomos às maiores dificuldades… à espera de poder transitar por zonas ainda escuras e cegas da nossa mente”.
Como então distanciar-se do terror da psicose puerperal e dos  transtornos mais graves que podem ocorrer no período perinatal- se um dia já fomos também bebês em estado de dependência absoluta, se a rejeição ao bebê não nos provoca empatia? Se o próprio feminino em nossa cultura não nos fornece referência suficiente? Vivemos numa cultura do matricídio, em que as coisas inanimadas prevalecem sobre o humano, e a relação mais primeira, da mãe com seu bebê, é idealizada ou reificada mas não encontra proteção ambiental necessária ao seu sustento. “É preciso uma tribo para cuidar de um
bebê”, diz o ditado. Esta verdade parece estar sendo esquecida nos nossos dias.
Sucumbem os indivíduos mais frágeis diante das pressões e da instabilidade característica da fase perinatal. Instabilidade esta que é orgânica,pelas intensas flutuações hormonais, pela privação do sono, pelas vicissitudes do corpo e seu Real , tão presentes no momento. Mas também psíquica ,também social, também familiar.
Para a psiquiatria, a conexão entre psicose puerperal e transtorno bipolar faz-se evidente, delimitando um fator de risco dos mais importantes.
Porém, para o analista, a desconstrução do rótulo e a busca de um sentido para o sujeito importam mais. No contato com a paciente o terapeuta tenta prosseguir na construção de um “historiar” e um acolhimento para o delírio -composição e remendo criado pela pessoa para dar significado às suas  vivências. A aliança terapêutica é um holding que vai possibilitar o outro holding, o holding do bebê, impossível nos estágios iniciais de desorganização em que a paciente se encontra. Aqui importa menos o reencontro da mãe e do bebê do que a a possibilidade de a mãe re-significar a si mesma, aprisionada
que está dentro da torre da psicose.
Delírios envolvendo o roubo ou a troca do bebê são muito comuns na psicose puerperal. Podem estar muito estruturados (como vimos no filme “O bebê de Rosemary” de Polanski) ou, no mais das vezes, conectados a um estado paranóide difuso, ligado a grandes flutuações do humor. O que  na psicose aparece como delírio surge como fantasia no período do blues puerperal.
Nesta ocasião de transparência psíquica os ciúmes e conflitos surgem como uma forma camuflada do temor de não ser suficiente, de ter seu bebê “sequestrado” pela sogra, pela enfermeira super competente, ou pela própria mãe. Ansiedades estas que são mitigadas pelo ambiente continente, pela passagem do tempo e pelo descanso. O próprio contato com o bebê faz diluir paulatinamente a flutuação do humor de base neurótica do blues puerperal.
Mas na psicose, o terror é vivenciado – não é bonita a psicose, nem fácil de suportar. Os casos puerperais costumam ser muito graves. Mas, pertencendo ao sitio do estranho, não deixam de ressoar profundamente em nós. Quando eclode o surto, muitas vezes ainda no período da internação, intensas angústias mobilizam toda a equipe do hospital- em geral despreparada para isso. Às vezes a visão médica domina a cena, o que pode roubar à mulher a oportunidade de encontrar, a partir da crise, um caminho para a subjetivação. Sem cuidado, a família se desorganiza, impossibilitada de dar e receber escuta. É quando iatrogenias ocorrem, porque o sujeito psicótico deixa de ser considerado um sujeito, mesmo que a desorganização ocorra de forma autolimitada, mesmo nos casos de resolução mais rápida da crise. A equipe hospitalar raramente tem condições de manejar casos de tanta complexidade.
Apesar de não ser infecciosa, a loucura “pega”, e pega de um jeito que muitas vezes não se percebe. Porém, somente uma atitude cuidadosa e não julgadora tem chance de atingir paciente e família neste momento. Há que se encontrar dialética no cuidado : enquanto, de um lado, o psiquiatra busca e ajusta as medicações, o manejo da enfermagem é de particular importância, pois as famílias se desestruturam e a paciente está muito regredida. Enquanto o antipsicótico age para reduzir as manifestações
delirantes e a desorganização, no contato com a paciente o terapeuta prossegue fornecendo uma escuta única, uma escuta para o delírio, para o ser quebrado desta mãe que ainda não pode constituir-se como tal. Sem contar a particularidade da vinda do bebê: quem vai se ocupar dele? Tamanha é a complexidade do manejo nos casos de psicose puerperal.

No conto de fadas que narra a história da Rapunzel, a apropriação pela mulher de algo que pertence à bruxa faz com a mesma reivindique o bebê desta mulher, assim que ele nasce: como pagamento pelo roubo. Sua primeira filha.

Ou seja: a Rapunzel nasce de uma mulher que, na gravidez, comeu rabanetes roubados da horta da bruxa. Mulher que, ao parir, paga uma dívida .
Para quem não se lembra da história, a menina Rapunzel cresce encerrada em uma torre até poder ser resgatada por um príncipe. No conto, é a mediação do príncipe que desfaz o encanto do seu aprisionamento.
Pensando no período pos-parto, podemos imaginar  a psicose como um aprisionamento em que a mãe, que deve à bruxa, não pode apropriar-se do lugar materno. Outrossim, tem seu bebê roubado. Que bruxa é esta? Sua própria mãe? Algo de sua história?
Como saber… Cada mulher e cada Rapunzel terão sua história particular. Mas sabemos que mulheres psicotizam mais no pós parto do que em qualquer outra época da vida… Pois algo arriscado acontece à mulher que pare e é convocada a tornar-se Mãe. Agora ela é chamada a responder a uma pergunta e ocupar um novo papel. Este bebê é meu? Tenho permissão para ocupar este lugar?
Penso que a estória de Rapunzel é cena e enredo vivido no pós parto de muita mãe que passa a delirar sobre a troca, a morte, o sequestro de seu bebê.
De certa forma, é a mãe que está então confinada na torre da sua própria psicose. A mulher, roubada de si mesma, estará à espera de um terceiro, um mediador, que quebre o encanto da indiferenciação entre ela e a bruxa. Estará à espera do “príncipe” sem o qual jamais poderá se separar, se organizar, tocar o chão. Quem poderá enfim ajudá-la a tecer, no vão que surge entre as suas tranças cortadas- cortadas como um cordão umbilical- um pouco de sentido, um tanto de coragem, para poder se apartar da bruxa? Eis uma aproximação poética do trabalho a ser feito no caso da psicose. Dizem que o príncipe também, ao tentar chegar perto da Rapunzel, levou um tombo danado. E aí,
quem se habilita? Será que esta história ainda pode ter um final feliz?
Arianne Angelelli
Julho- 2020

O sono dos bebês

por Gilca Zlochevsky

  Os bebês acordam muitas vezes ao longo da noite, sobretudo, no primeiro ano de vida. Os conceitos de Donald Winnicott de integração e não-integração me pareceram interessantes para nos aproximar desse fenômeno. A integração surge gradualmente a partir de um estado primário não integrado. O repouso representa um retorno ao estado não integrado. Esta volta não é necessariamente assustadora para o bebê se a mãe lhe assegura um sentimento de segurança principalmente na maneira que o bebê é acolhido. A integração parece relacionada às experiências emocionais ou afetivas mais definidas tais como a raiva ou excitação ligada à amamentação. Muitos bebês acordam, precisam do colo e também do seio para se sentirem novamente integrados, voltarem a dormir e retornar ao estado não-integrado. Os pais ficam aflitos uma vez que são crianças espertas, estão se desenvolvendo muito bem mas  evidenciam nestes movimentos que são bebês e necessitam serem vistos como tal. Estas oscilações variam muito de um bebê para outro. A posssibilidade da mãe poder reconhecer esses estados, tolerá-los e atender ao bebê, apesar do cansaço que isso representa, ajuda a criança aos poucos ir se reassegurando que ela não vai cair num abismo, nem mesmo se desintegrar. 

Quando estamos na área da necessidade, não se tem tempo de esperar a hora

Um bate-bola com os adolescentes

Vozes em Debate: Adolescência

Gabriela Viana conversa com a especialista em psiquiatria da infância e adolescência pelo Hospital das Clínicas da USP, Arianne Angelelli, e os adolescentes Gustavo Polo, de 14 anos, e Beatriz Videira, de 17 anos.

Publicado em 17/07/2019•Duração: 52min

https://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/267570/vozes-em-debate-adolescencia.htm

o pai no pós parto

A elaboração psíquica do processo gravídico puerperal e do fenômeno da parentalidade ocorre em homens e mulheres e o processo ocorrido com o pai tem sido menos documentado. A paternidade é um momento de crise para o homem, que, quando adoece, tende a apresentar mais sintomas externalizantes e ter sua depressão não reconhecida pelos profissionais de saúde.

Que jogo é esse?

“Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: “Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?”. Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.” Rubem Braga

Está difícil essa quarentena. Para quem está em casa, para quem está doente, para os idosos com medo, para as crianças sem escola. Para quem não está doente, para os que se alienam numa casa na praia da Baleia com três babás- sim, alienar-se traz um custo também. O mundo não vai parar de bater na nossa porta mesmo que ela não seja ela um barracão de zinco sem janela e sem trinco. Uma gaiola de ouro ainda é gaiola, e todo ensimesmamento cobra um preço, empobrece a alma, endurece o coração. Os otimistas esperam e os desesperados tem seus temores confirmados; para eles o mundo não será como antes, agora o medo tem nome .

Mas este recado aqui vai para os casais. Àqueles que estão se fazendo companhia neste momento particular, fora do combinado, não estando de férias, nem em recesso, não sabendo quando vai terminar. Aos que se encontram sob a luz fria da solidão à dois.

Gostaríamos de dizer algumas coisas. O amor é coisa difícil. Amor começa tarde e felicidade não é obrigação. E, como dizia o meu dentista Carlão lá de Guaxupé, casamento é coisa de profissional, não é para amador, não. Para Winnicott, ter concernimento, cuidar de um outro, reconhecer mesmo o outro, é processo de amadurecimento e nunca termina de acontecer na nossa vida. A vida toda, nos relacionamos com o outro e com a idéia que fazemos dele, negamos e aceitamos a sua alteridade, focando e desfocando a sua imagem conforme a nossa cegueira particular. É possível enxergar o outro, ou mesmo a nós mesmos? Quanto dói perder a ilusão… pode-se viver sem ilusões?

Talvez essas perguntas não tenham mesmo resposta ou morem na filosofia. Amor rima com dor – diz o poeta. Mas sempre podemos conversar. A arte de conversar, que pode ser aprendida, que a psicanálise preza, é metaforizada por Rubem Braga como um jogo de frescobol. Rubem Braga, capixaba, grande cronista, sensível artista. Vejamos o que ele diz:

“Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa. Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo…”. Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada”. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro. O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá…”

Esta metáfora do jogo de frescobol é útil para pensar também a psicanálise, na sua vertente intersubjetiva. Muita gente boa na psicanálise vem falando sobre este frescobol que acontece numa sessão, a possibilidade de brincar de verdade com os sentidos que envolvem as palavras que dizemos. Reconhecer que entre dois existe sempre um terceiro : o entre-dois, aquele que criamos juntos, na relação. Somos nós e os nós que se formam nesse laço que tecemos a dois.

A experiência do frescobol, numa análise ou numa conversa boa, é proveitosa e inesquecível. Pode ser rara no casamento, que (penso diferente do Rubem Braga) tende a ter seus momentos de frescobol entremeados entre as ferozes cortadas do tênis jogado a dois, em diferentes medidas conforme o momento e a constituição de cada casal. Criar e destruir o outro faz parte da experiência.

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…

Parece que na quarentena precisamos mais do que alcool gel e máscaras, precisamos do cuidado com as nossas relações, e jogar frescobol com o sol na cara, na areia quente. Paciência. Tolerância. Se a bola vier meio torta, pense um segundo: que jogo é esse?

O bolo de caneca

Por Odeliz Basile

A memória  guarda o seu passado. O olhar, o sabor, o cheiro, o toque, a cor a alegria e o dissabor vivido na infância de cada um de nós.

Toda criança é criança em qualquer tempo ou lugar do mundo. Cada um a seu jeito tráz na memória suas brincadeiras e brinquedos prediletos.

Quem não se lembra das cantigas de criança como: “Alecrim”, “Ciranda Cirandinha”, “Se essa rua fosse minha”,  “O Cravo brigou com a Rosa”, “ O sapo não lava o pé”, ou então, “ A barata diz que tem”, entre tantas outras canções.

Brincadeiras e brinquedos como boneca, carrinho de rolimãs, luta de espadas, bola, cabelereira, bicicleta, cabra cega , bater figurinha, esconde-esconde e futebol. Ou então, os brinquedos como  escorregador, gira-gira, gangorra, balança , bicicleta e patinete.

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Quem foi Victor Guerra

 

Por Carla Braz Metzner

 

O psicanalista Uruguaio Victor Guerra dedicou a sua vida ao estudo, pesquisa e atendimentos clínicos da relação mãe/ bebê, da primeira infância, adolescentes e adultos.

Ele realizou por mais de vinte anos consultas terapêuticas em um jardim da infância inspirado nas contribuições tão importantes de D. Winnicott .
Estava trabalhando na sua tese de doutorado em Paris, sobre o ritmo e os indicadores de intersubjetividade no processo de subjetivação do bebê. Mas seu falecimento precoce interrompeu seu percurso, o seu trabalho e suas contribuições continuam reverberando entre nós.
Sua tese de doutorado será publicada em Paris com um evento em sua homenagem no dia 12/1/2019. Seu trabalho trouxe grande contribuição ao pensamento psicanalítico.
No dia 22 e 23 de junho de 2018 ocorreu uma homenagem para Victor Guerra em Montevidéu. O tema era : o que  nos ensinam os bebês? – Prof psicanalista Victor Guerra.
Neste evento o mais marcante era a transmissão de uma forma, de uma ética psicanalítica  presente no respeito ao outro, aos profissionais  e pacientes.
Na sua disposição de mente para fazer dialogar os autores e as teorias, que como ele dizia ,trazia movimento, ritmo e abertura para ir em busca do sofrimento humano e poder através da arte, da literatura e da poesia encontrar o assombro,  e a capacidade negativa como elucida o escritor john Keats. A Capacidade para viver a incerteza, o não saber, para poder lidar com o lamentável  e o sublime da condição humana, como assinala o escritor Octavio Paz tão apreciado por ele.
Victor foi coordenador da Fepal da área de crianças e adolescentes e foi um dos idealizadores da carta de Cartagena. Nos  trazendo a contribuição de varias associações e sociedades de psicanálise, se posicionando favoráveis ao tratamento psicanalítico do transtorno do espectro autista, reconhecendo toda experiência dos profissionais e produção de conhecimento construído pela psicanálise.
Victor encontrava na poesia sua inspiração para a clínica e para a vida, sua lista de escritores e poetas preferidos é muito grande, mas o escritor Uruguaio Felizberto Hernandez que aparece no fundo desta fotografia do Victor exerceu grande influência. Sua descrição dos personagens humanos, do seu mundo interno e seus dilemas despertaram seu interesse pela psicologia e psicanálise na adolescência, assim como sua experiência de vida com os imigrantes que frequentavam o boliche de seu pai e contavam suas histórias e seus dramas.
Os escritores brasileiros Ferreira Gullar e Manoel de Barros também foram sempre muito citados em seus trabalhos e em sua tese. E para também homenagear Victor neste texto cito um poema de Ferreira Gullar que ele gostava muito.

Despedida
Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.
De fato,
neste momento estarão de mim arrebentando raízes tão fundas.
Quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei, rostos amigos
tardes e verões vividos
Estarão gritando ao meu ouvido
para que eu fique , para que eu fique.
Não chorarei
Não soluço maior do que despedir-se da vida.
Ferreira Gullar

Abrir a possibilidade para novas narrativas: um desafio. por Angela Hiluey.

http://pepsic.bvsalud.org/pdf/vinculo/v15n1/v15n1a02.pdf

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Abrir a possibilidade para novas narrativas: um desafio. Hiluey, A.

ABRIR A POSSIBILIDADE PARA NOVAS NARRATIVAS: UM DESAFIO

Angela Hiluey

RESUMO

Uma diversidade de narrativas pode enriquecer a vida humana, dada a possibilidade de atribuir significado à experiência relacional desde a vida intrauterina até a morte, postula Linares (2003; 2014). Por outro lado, conta-se com a resistência do ser humano a rever suas visões. Dada tal resistência, neste trabalho tem-se como objetivo mostrar uma ferramenta para auxiliar na construção de novas narrativas: a atividade artística-lúdica no atendimento a casais e famílias sob a ótica da abordagem sistêmico-integrativa. Tal ferramenta tanto permite que o ser humano, sem se dar conta, expresse sua angústia, quanto permite ser uma intervenção terapêutica propriamente dita. Através de um caso clínico, será ilustrado o planejamento da atividade lúdica; o uso da atividade proposta; e seus resultados. Constatou-se que novas percepções puderam ser referidas, e as mesmas permitiram a construção de novas narrativas familiares.

Palavras-chave: narrativas familiares; atividade lúdica; atendimento a casais e famílias; abordagem sistêmico-integrativa.

OPEN THE POSSIBILITY FOR NEW NARRATIVES: A CHALLENGE ABSTRACTS

A variety of narratives can enrich human life, given the possibility of assigning meaning to the relational experience from intrauterine life until the death, postulates Linares (2003, 2014). On the other hand, there is the resistance of the human being to revise its visions. Given this resistance, this work aims to present a tool to assist in the construction of new narratives: the artistic-ludic activity to care for couples and families from the perspective of the systemic-integrative approach. Such a tool allows the human being, without realizing it, to expresses his anguish, as it allows to be a therapeutic intervention properly said. Through a clinical case, will be illustrated the planning of the ludic activity; the use of the proposed activity; and their results. It was observed that new perceptions could be referred to, and they allowed the construction of new family narratives.

Keywords: family narratives; ludic activity; care for couples and families; systemic- integrative approach.

ABRIR LA POSIBILIDAD PARA NUEVAS NARRATIVAS: UN DESAFIO RESÚMEN

Una diversidad de narrativas puede enriquecer la vida humana, dada la posibilidad de atribuir significado a la experiencia relacional desde la vida intrauterina hasta la muerte, postula Linares (2003; 2015). Por otro lado, se cuenta con la resistencia del ser humano a revisar sus visiones. Dada tal resistencia, en este trabajo se tiene como objetivo mostrar una herramienta para auxiliar en la construcción de nuevas narrativas: la actividad artística-lúdica en la atención a parejas y familias bajo la óptica del abordaje sistémico-integrativa. Tal herramienta permite tanto que el ser humano, sin darse cuenta, expresa su angustia, como permite ser una intervencion terapeutica propiamente dicha. A través de un caso clínico, se ilustra la planificación de la actividad lúdica; el uso de la actividad propuesta; y sus resultados. Se constató que nuevas percepciones pudieron ser referidas, y las mismas permitieron la construcción de nuevas narrativas familiares.

Palabras clave: narrativas familiares; actividad lúdica; atención a parejas y familias; enfoque sistémico-integrativo.

“O mundo não é o que penso, mas o que vivo, estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inesgotável.”

(Merleau-Ponty, 1971, p.14)

Esta epígrafe nos oferece a oportunidade de nos apercebermos que enquanto tivermos vida teremos a possibilidade de aprender e assim poderemos tecer diferentes narrativas individuais e familiares.

Tais possibilidades podem nos estimular a enfrentar os desafios com os quais nos defrontamos na prática clínica. Temos uma vasta bibliografia na terapia familiar e em outros campos do conhecimento que são o nosso alicerce para seguirmos em frente. Tais pressupostos poderão auxiliar a autora a apresentar o objetivo desse trabalho.

Linares (2014) nos abre uma primeira porta para enfrentarmos tal desafio quando se refere ao sentido de sua expressão: Terapia Familiar Ultramoderna. O autor explicita que tem com essa terminologia o objetivo de estimular a abertura das janelas do território sistêmico para ares novos para que se alimente com aquilo que há de muito bom já presente na tradição psicoterapêutica.

No entanto estar aberto ao mundo, conforme a epígrafe permite vislumbrar, não é necessariamente uma possibilidade tão natural, e as palavras de Bion (1992, p.9-10) nos confirmam tal vislumbre:

(…) Mas todos nós odiamos a tempestade que implica o ato de rever nossas visões; é muito perturbador pensar que poderíamos chegar a mudar de parceiro, ou profissão, ou país, ou sociedade; assim, a pressão para dizer “daqui não passo” estabelece uma resistência ao aprendizado (…). (BION, 1992, p 9-10).

A presença da abordagem sistêmico integrativa por outro lado materializa o incentivo de Linares (2014) propiciando a integração das múltiplas escolas sistêmicas às contribuições de outras abordagens, dentre elas a psicanalítica, bem como de abordagens advindas de outros campos do conhecimento. Tal integração é fruto de uma postura aberta que favorece o nosso enriquecimento para nos ocuparmos das situações as quais a prática clínica nos apresenta, onde se constata que a mudança não é algo tão simples de ser conseguido.

Selvini, Sorrentino, Cirillo (2016) utilizam o termo pensamento sistêmico, complexo e integrado e, assim, revelam estarem intervindo, segundo uma postura integrativa.

Linares (2003; 2015) por sua vez ao escrever que narrativa é a atribuição de significado à experiência relacional, que ocorrerá desde a vida intrauterina até a morte, nos

mostra quão rica pode ser nossa vida com uma diversidade de narrativas. Essa narrativa, segundo Linares, é o ato de descrever a si mesmo e ao que lhe acontece, dando a isso uma coerência, o que por sua vez é cultural e pessoal.

Laso (2017) pode auxiliar a especificar o que favorece as mudanças. Laso (2017) discorre sobre como vem levando em conta e intervindo sobre o aspecto emocional na terapia familiar e de casal. Esse autor destaca dois princípios fundamentais para viabilizar a mudança emocional: (1) compreender o lugar onde se está e (2) ver ou ao menos vislumbrar o lugar para onde se dirigir. Compreensão e visualização são conquistas advindas da experiência emocional desses grupos, segundo o autor.

As considerações dos autores citados permitem evidenciar que o objetivo desse trabalho é mostrar uma ferramenta para auxiliar a construir novas narrativas dadas as dificuldades implicadas nesse processo. Tal ferramenta é constituída pelas expressões artísticas e o brincar, atividades descritas em outros campos do conhecimento e/ou modelos teóricos que podem ser integradas ao atendimento de casais e famílias.

Tornam-se importantes ferramentas uma vez que a possibilidade de escrever novas histórias é inesgotável. Por outro lado, já que sabemos que reavaliar nossas posições é assustador, que precisamos nos dar conta de nosso lugar na relação (o que ainda implica outras gerações) bem como visualizar novos caminhos antes de seguir adiante podemos perceber a complexidade do processo. Sendo assim, ter novas ferramentas que possam abrir possibilidades para novas narrativas pode nos ser útil na prática clínica.

Pereira (2010) ao discorrer sobre o tipo de intervenção para promover a Resiliência Familiar mostra que a mesma deve permitir que se reconheça na narrativa familiar o sofrimento, que dê sentido ao ocorrido e um significado que possa ser aceito por todos os membros da família. Ou seja, nesse contexto continente como recomenda Pereira (2010) uma tempestade emocional como postula Bion está vigente precisando ser nomeada. Esta afirmação permite o reforço da tese sobre a relevância de mecanismos para abrir possibilidades para construção de novas narrativas.

Nesse trabalho o objetivo é apresentar a atividade artística- lúdica como útil ferramenta para a terapia de casal e família ao mesmo tempo em que evidenciar tanto a relevância como o que está implicado no planejamento da mesma pelo terapeuta para se favorecer a possibilidade de conversar sobre as dificuldades vividas.

Fazem-se, então, necessárias algumas considerações sobre as possibilidades desse instrumental.

Kenzler (1995) escreveu que o ser humano se defende das emoções e para tanto utiliza mecanismos de defesa. Sendo assim, segundo Kenzler (1995) o uso de técnicas em que o ser humano expressa sua angústia, sem perceber o que está fazendo pode ser significativo. Aqui temos as artes e o brincar.

Fernandes (2003) por sua vez especifica diferentes linguagens que transmitem a informação tais como: as atitudes, a mímica, a palavra, a escrita, o desenho. A arte, segundo Fernandes (2003) em suas cores e sons, melodias, ritmos, compõe e expressa.

Dentre essas diferentes maneiras de comunicação está o brincar como escreve Winnicott (1971).

Green (2013) completa escrevendo que na realidade externa existe horror demais: guerra, delinquência, catástrofes naturais, epidemias, desemprego e terrorismo nesse nosso mundo.

Grenn (2013) pergunta-se como suportaríamos todos os traumas causados pela realidade sem o brincar onde no caso das crianças todos esses temas se encontram.

Andrade (1995) escreveu que nas diversas expressões artísticas o homem se coloca diante da realidade, ao expressar por meio de uma simbolização (a obra de arte) como estrutura seu mundo interior. A arte, pode, também, segundo ele, ser terapêutica, pois permite acessar a emoção tanto do criador como no público participante. O criador e o produto da criação são o porta-voz de como o homem aliou as sensações e percepções frutos de sua experiência pessoal e relacional. Através da arte forças oponentes podem ser integradas graças a sua qualidade integrativa.

Hiluey (2004; 2007; 2008) no contexto da investigação com alunos-médicos e famílias pode constatar a relevância de tal ferramenta para favorecer tanto o despontar do que angustia como para integrar percepções e informações. Novos caminhos podiam ser vislumbrados.

Para tanto uma ilustração prática parece ser oportuna e aqui se segue.

Pode-se constatar que “enganar” era o termo que melhor exprimia aquilo que vivia a Família Silva com seu filho de 11 anos. Essa vivência de ser enganado, respaldada por situações concretas gerava um sentimento de falta de confiança dos pais para com seu filho. A terapeuta tinha dados que lhe permitiam pensar que para os pais se aperceberem de seu filho não era algo simples. Eles possuíam alguns princípios e formas de educar filhos alinhados com as gerações anteriores e sua própria vivência enquanto filhos para os guiarem. Isso interferia significativamente impedindo que pudesse circular reconhecimento, valorização e carinho entre eles, o que favoreceria a possibilidade de seu filho ter uma vivência de ser amado, como descreveu Linares (2014).

A terapeuta optou por algumas técnicas expressivas as quais permitiram que um espaço fosse aberto para gerar novas narrativas que propiciaram a Família Silva experimentar um clima de confiança. Algumas das técnicas foram:

1) genograma lúdico que favoreceu que conversassem sobre as características das figuras de animais escolhidas para representar alguns membros da família o que gerou novas ideias sobre o relacionamento entre eles. Por exemplo o leopardo como um animal solitário; o hipopótamo como um animal altamente violento apesar de seus olhos doces. O diálogo possibilitou o reconhecimento da dinâmica estabelecida entre eles.

2) cada um escolher miniaturas em madeira de personagens, pessoas, animais, aves, objetos. A seguir se propunha conseguir as miniaturas que quisesse solicitando ao outro. Alguns dos temas conversados nesse jogo foram: que percebiam que através de truques até mímicos se engana para conseguir o que se quer; se aperceberam que tem coisas que não se quer dar; quem é enganado fica triste e com raiva.

3) leitura de conto infantil. Por exemplo: A toupeira que queria ver o cometa, de Rubem Alves. Onde se pode conversar sobre a prisão decorrente das próprias convicções que impedem de ver o que está diante dos olhos.

4) Ouvir a música: “Apenas tenha certeza que nunca está sozinho” (93 Million Miles). Solicitou-se que com recursos não verbais mostrassem como lhes chegou essa música. Pode-se conversar tanto sobre o que cada um esperava dos outros membros da familia como foram constatando o que lhes era possivel.

Pode-se sinalizar que a confiança parecia estar vindo a ser uma experiência possível entre eles.

Em sessões com o casal parental, o casal pode rever suas convicções sobre como

deveriam se portar como pais, versus sobre o que lhes era possível ser. Também puderam se aperceber de novas características do filho, até então não percebidas. Diziam eles: como a toupeira (referindo-se à personagem do livro infantil).

E assim uma nova narrativa despontou. Nessa nova história pais e filho lutavam focando três instâncias: a do querer, poder e dever enquanto iam se transformando, em família. Não estavam sozinhos, percebiam que tinham com quem contar, podiam confiar.

Comentários: a atividade artística lúdica
1) permite que se trate de temas penosos com seriedade, firmeza e humor, sem

necessariamente deixar de chorar e/ou mesmo ficar bravo;
2) o terapeuta deve propor atividades que no seu entender propiciarão que surjam os

temas que segundo sua percepção estão circulando no grupo familiar;
3) deve-se levar em conta as características das pessoas da família para escolher a atividade lúdica que possa lhes ser possível. Nem todas as pessoas se dispõe a

brincar, mas dependendo da brincadeira até podem se dispor;
4) aqueles terapeutas que tenham uma experiência no trabalho com crianças e adolescentes, em especial em ludoterapia, terão um conhecimento relevante para

utilizarem essa ferramenta no atendimento de casais e famílias.
5) o terapeuta deve ser significativamente participativo e utilizar seus conhecimentos teórico-técnicos em terapia familiar para fazer alinhamentos ao longo da sessão a

partir das novas informações e percepções circulantes.

No entanto mesmo estimulados por novas ideias vale lembrarmo-nos da mensagem de Antonio Machado: Caminhante, não há caminho. O caminho se faz ao caminhar.

REFERENCIAS

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Abrir a possibilidade para novas narrativas: um desafio. Hiluey, A.

Angela Hiluey – Psicóloga; Doutora em Educação pela FE/USP; Pós-Doutora em Terapia Familiar pela Universidade Autônoma de Barcelona/Espanha; Diretora e Docente do CEF-Centro de Estudos da Família Itupeva – escola associada a RELATES-Rede Européia e Latino-americana de Escolas Sistêmicas; Member of the EFTA – European Family Therapy Association; membro titular da ABRATEF e da APTF. angelahiluey@yahoo.com.br

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