Birras!!!!

Alerta de spoiler: este não é mais um post que vai lhe dar dicas sobre como lidar com as birras dos seus filhos.

Terrible two

Dizem que esta é a fase dos terríveis dois anos. Se tudo correu bem, chegamos até aqui! Mas o que é tão terrível nestas birras e teimosias? Que grande desafio é esse? Como estes seres tão pequenininhos passam a ter tanto poder sobre nós? Na fase da birra, os pais são desafiados mais uma vez. Quando o bebê nasceu, o desafio foi aprender a cuidar de alguém tão dependente. Foi difícil. Foi maravilhoso. Mas agora… agora os sentimentos são outros.

Impotência, irritação, raiva. Tudo vira disputa e confusão. Os pais é que entram numa fase terrível. Serão testados em sua consistência, paciência, firmeza e convicção. E será necessário aos pais ter jogo de cintura e maleabilidade. Será necessário que repensem sobre o que é importante, em relação às regras e aos limites. Que pensem no que desejam transmitir para seu filho em sua trajetória dentro da sociedade humana. Divergências que eram antes desconhecidas entre o casal podem vir à tona no momento em que o filho chega à fase do “terrible two“. Como fazer? Como lidar? Vale ser severo, rígido? O que fazer quando o menino ou a menina se jogam no chão, aos berros? Vale ser paciencioso, condescendente? Dá para negociar com a criança? Ou é melhor ignorar a birra? Os pais se acusam mutuamente. A família vem para julgar. Cenas e “shows” acontecem diante da plateia familiar.

Primeiro os pais se sentiam julgados se o filho não mamava, não dormia ou não falava bem. Agora, são julgados pela impertinência e pelas “malcriações” do filho. Chovem palpites, recriminações. A criança que está se desenvolvendo bem aprende rapidamente quais são os pontos fracos dos seus pais. Por que ela faz isso? Só para chatear, para irritar, para testar?

"Mãe com crianças e laranjas”, Picasso, 1951
Mãe com crianças e laranjas”, Picasso, 1951

Na verdade, a criança que faz birras está construindo suas capacidades emocionais e para tal está recrutando seus pais. Ela os quer firmes e amorosos ao mesmo tempo, presentes , maleáveis e resistentes. A criança vai atacar os pais para que eles possam sobreviver aos seus ataques. Assim, poderá construir a ideia de ser separada deles, com uma mente própria. A raiva, o ciúme, a inveja, a disputa: todos estes afetos difíceis começam a aparecer no palco do drama familiar. A criança tenta adquirir um controle sobre sua vida e sobre as emoções dos seus pais. Se a criança ganhar este jogo, ficará desesperada! Pois os limites é que darão segurança à criança.

Como ajudar nosso filho a lidar com o NÃO?

Para isso, precisamos rever aspectos profundos de nós mesmos . Como você lida com os limites? Você se resigna, se revolta, ou você sabe negociar com as dificuldades da vida? Como você faz para viver em sociedade, seguir as regras da boa convivência, do respeito ao outro, sem que por isso se sinta submetido, ressentido e amargo? Como abrir mão da onipotência infantil e achar gosto na vida real, onde sempre falta algo ou alguém para nossa felicidade ser completa?
Adultos também fazem birras. Alguns se mantém vivos por meio dos embates que travam com a vida. Esses embates podem estar encobrindo uma real dificuldade de se adaptar, pensar, abdicar da condição de estar no controle, ter poder sobre o outro.

Entendamos então, a importância da fase das birras, que vai dos 2 aos 3 anos de idade mais ou menos. Para Winnicott ” é no entremeio que talvez resida a coisa mais difícil no desenvolvimento humano, ou talvez a mais penosa de reparar, de todas as falhas iniciais que ocorrem. O que existe no meio…é o fato de o sujeito colocar o objeto fora da sua área de controle onipotente; isto é, o sujeito perceber que o objeto é um fenômeno externo, não uma entidade projetiva, na verdade, o reconhecimento de que o objeto é uma entidade autônoma.” É a fase importante da birra que traz para a criança, por meio dos embates com o adulto, a noção firme de aonde ela começa e termina, de aonde o pai começa e termina, de onde a mãe começa e termina. Há um triângulo, e em seus vértices estão o bebê, a mamãe e o papai. Ao perceber que os pais tem uma vida própria, e se amam, e vivem sua vidas independentemente do desejo da criança, ela perde e ganha. Perde a ilusão da onipotência, sofre o ciúme, a inveja e o limite! Mas ganha a possibilidade de estar só, ganha a possibilidade de perceber que também ela pode se ligar a outras pessoas: os primos, a vovó, os amiguinhos da escola. O NÃO é uma estrada com duas direções: ajuda a criança a se definir, se reconhecer, se direcionar . O pai que diz não à criança está também dizendo a ela que é bom crescer, e que ela também poderá dizer não ao outros, aprendendo a reconhecer seus desejos verdadeiros.

É verdade que Winnicott também fala do amor primitivo, referindo-se aos estados excitados do bebê, carregados de tensão instintual, mas este “amor” é feito de necessidade, e nada sabe sobre a existência externa de um outro. O amor do objeto que sobrevive à destruição é toda uma outra coisa; trata-se agora do sentimento de um eu – que, embora incipiente é inteiro e separadodirigido para um outro, como pessoa inteira e separada. O pré-requisito para este amor é o mesmo que para o exercício da genitalidade que se quer madura, e que não é apenas um exercício solitário; também nesta é preciso que o objeto seja percebido como externo e separado do indivíduo. Ou seja, o amor é constituído no interior do processo de amadurecimento.” *

É a face mais dura do amor. Onde eu termino, você começa.

Amor é o que se aprende no limite, como dizia Drummond : amor começa tarde. O amor está ligado à maturidade. Sem passar pelo “terrible two” a criança estará paralisada no seu desenvolvimento. Terrível , mesmo, é descobrir que mais que dois existem mais. Mas sem esta constatação estaremos presos num mundo de onipotência, desespero e solidão.

  • Elsa Oliveira Dias- A teoria do amadurecimento de D.W.Winnicott, 4 ed, 2017, pag 224.

Ciranda, do Palavra Cantada!!!

Coelho, corre!

Existem muitas listas de livros importantes , escritos em várias épocas, que por diversas razões resistem ao tempo e mantém-se sempre atuais. “Todo leitor é, quando está lendo, um leitor de si mesmo” diz Proust. Alguns autores conseguem tocar a muitos pela universalidade das questões que colocam em seus personagens, nos enredos, na forma de sua escrita. Tenho trabalhado com a perinatalidade há alguns anos e vinha procurando algum personagem para me guiar e ajudar com a pesquisa que conduzo em psicanálise sobre o que é ser pai. Na clínica, para além da depressão pós parto materna que está sob os holofotes há bastante tempo, sabemos que prestar auxílio aos homens que se tornam pais faz toda a diferença, em muitos casos. Como é a mulher que dá à luz e amamenta, facilmente colocamos na sua conta a infinidade de problemas que podem surgir nas primícias da vida… esquecendo que é preciso de uma tribo para cuidar de uma criança. Na pandemia, com o desmonte das redes de apoio, mães tem adoecido, casamentos e uniões tem se desfeito, crianças estão regredindo em suas habilidades sociais. É importante pensar sobre isso.

Eu já conhecia os livros de Jonh Updike, autor contemporâneo, que seguem a vida de Harry Angstron, o Coelho. Lembrei-me de Coelho quando de tanto ver pais abandonarem o barco diante dos impasses do relacionamento e da paternidade procurei um personagem que pudesse me contar, sem julgamentos morais, das dificuldades que enfrentam. Muitas mulheres chegam transtornadas e muitos filhos seguem a vida com as feridas abertas do abandono paterno, feridas muito difíceis de sarar. O que está acontecendo? Será que foi sempre assim? Coelho abandona sua mulher grávida logo no início do livro de Updike. Ele tem uma dificuldade grande de sequer formular para si mesmo o quanto se sente enredado no casamento e numa vida oprimente, sem criatividade, sem novidade. Vive numa solidão ao lado da frágil esposa a quem ama e odeia na mesma medida. Mas o que nos chama atenção é como Coelho, diante de tantos sentimentos contraditórios e com os quais não consegue lidar, age por impulso : escapando, escapando sempre.

Jonh Updike disseca a mente de Coelho sem falsos moralismos. É um homem sensorial, cheio de qualidades, porém impulsivo e imaturo. Coelho é sedutor e meigo, mas não conseguiu chegar ao estágio do concernimento, o estágio do amor objetal, em que os sentimentos e desejos das outras pessoas são reconhecidos e levados em conta. Mas, paradoxalmente, não é má pessoa. Coelho tenta ser um pai mas está ainda muito fixado à própria adolescência. Na primeira cena do livro, chegando do trabalho encontra uns garotos jogando basquete num terreno perto de sua casa. O homenzarrão tira o paletó e joga com os garotos, sentindo felicidade por perceber que ainda consegue ser bom no esporte que lhe trouxe tanta glória no tempo da high school . Chega em casa e o que encontra o exaspera: a mulher barriguda, com a gestação avançada, a casa em desleixo, o barulho infernal da televisão. Coelho sai para pegar o filho na casa da avó e o vê comendo na mesa com seus pais… sente que o menino ali, sendo cuidado, é muito mais feliz que ele! Então foge, foge, dirige o carro a noite toda pelo estado da Pensilvânia, sem saber para onde ir. O pastor de Coelho, imbuído do desejo de ajudar a refazer a família, traz o homem de volta no dia do parto da esposa. Coelho se sente culpado… mas o desenrolar dos acontecimentos vai tornando as coisas cada vez mais difíceis para ele.

Sua relação com o pastor é muito interessante: uma advertência para nós, terapeutas, sobre os riscos do aconselhamento que não leva em conta a situação psíquica dos sujeitos. Um terrível acidente joga o personagem num luto impossível de realizar, e novamente ele foge, foge… abandonando sua esposa pela segunda vez. Há uma tipo de culpa que impede o sujeito de lidar com a realidade. Seu peso é tamanho, a dor dessa culpa é tão insuportável, que só resta ao homem escapar para fora de si mesmo. O homem está perseguido por dentro e não consegue mais pensar: só lhe resta o movimento e a fuga. Coelho é a bola que some das suas mãos quando se sente marcado no jogo de basketball– acuado, ele engana o adversário num passe muito rápido, se torna puro movimento, pura ação.

A fuga para a ação, para os braços de outra mulher, para o colo da própria mãe ou para as drogas e álcool estão entre os mecanismos de defesa que mais encontramos nos homens que adoecem nas crises da perinatalidade. Coelho corre, não consegue pedir ajuda, e os que tentam ajudá-lo ficam todos para trás.

É um lindo e honesto livro para entender alguns meandros da mente masculina. Hoje, 15 de julho, é o dia do homem.

Catedral de Guaxupé- MG
Uma das musicas mais lindas sobre a paternidade: Jose Miguel Wisnik