Gestos Alongados

Eu queria levar banana-maçã pro meu pai. Não que ele tivesse me pedido. Estava na lista dele, mas no mercado não tinha. Sei disso porque faço as compras para ele desde março. Ele tem mais de noventa anos e neste 2021 está recluso há catorze meses. Hoje levo.

Conduzo o carro através do seis quilômetros que nos separam. Não é longe, mas nessa pandemia, as coisas se encompridam. Os gestos se alongam em etapas. Antes de sair, coloco máscara de proteção (duas), troco os sapatos, pego o elevador, torço para não encontrar com muita gente.

Uma vontade grande de estar na rua, com ganas de sair dela logo.

No caminho, claro de sol, abro as janelas quando pego velocidade. Sensação de liberdade provisória. É sábado à tarde e vejo poucas pessoas nos pontos de ônibus. Estão com máscaras no rosto, no queixo, nas mãos. Conversam e riem.

Os fins de semana são tempos de ônibus alegres, pessoas em grupo, o tempo mais largo, folgado. Como suas roupas, soltas, sem cintos, fivelas, compromissos. Perto do parque do Ipiranga, ciclistas e pessoas correndo. Um cachorro escapa da guia e vai ao encontro de dois labradores. Uma pequena confusão de latidos e correrias. Na Vila Mariana, passo em frente a restaurantes com mesas ao ar livre, nas calçadas. Famílias em fim de almoço, crianças gritando. Gente querendo viver, difícil pensar na morte.

Chego na rua onde ele mora, estaciono logo. Volto ao ritual. Máscaras, elevador, tirar sapatos. Meu pai abre a porta e se afasta. Agora já se acostumou a não vir me abraçar. Estar com ele também requer gestos alongados. Lavar as mãos, sentar longe, vontade de estar próxima, medo de ficar muito perto. Apartar-se do pleno viver, preservar a vida.

Sinto o piso frio da cozinha sob meus pés. Vejo a quietude da sala, os móveis escuros, um violino mudo em cima de uma poltrona, o teclado encapado em plástico. O sol filtrado pelas cortinas atenua os contornos.

Coloco as bananas na fruteira. Ele sorri. Obrigado, filha. Ele sabe que não precisa delas. Eu também sei. Mas ele gosta e não tinha vindo nas compras.

Venha se sentar.

O apartamento, com seus sofás, quadros, porta-retratos, respira todo à minha mãe. Meu pai vive sozinho em meio às suas lembranças há vinte e cinco meses.

Estar com ele também requer estirar sentimentos. Para que caibam a ausência e a presença dela, dele, dos dois.

Estar com ele requer visitar a falta dela. Na sala, no quarto, nos olhos dele. Por isso tudo é tão comprido. Alongam-se os silêncios, as pausas. Meu pensamento, dilatado, comprime o passado e o futuro.  Revejo a mesa, almoços, risadas e antevejo a sala vazia. Sentimentos condensados.

No quarto, dentro do armário, as roupas soltas de seus hábitos, aguardam um destino.

As caixas de remédio empilhadas perto dos copos me alertam para verificar se estão acabando. Conto os comprimidos de cada uma. Três, seis, nove, treze.

Precisamos pedir pra farmácia, pai. Ele faz que sim com a cabeça e, como se lembrasse de alguma coisa, se levanta, pega a chave e de forma ritmada dá corda no relógio antigo de parede. Os sabiás cantam lá fora, meio da primavera. Os ponteiros seguem se movendo. Vamos comer as bananas. 

“Winnicott  afirma que a criatividade é a base do viver saudável, e que é esta condição que faz com que a vida valha a pena. A possibilidade de viver criativamente é relacionada à qualidade da provisão ambiental recebida no início da vida. Com base na teoria de Winnicott sobre a criatividade, é possível pensar o trabalho do luto como estando vinculado à possibilidade de realizar um ato criativo, com o objetivo de reinstalar a idéia de que a vida vale a pena.” Barone,K.C. O trabalho de luto à luz dos fenômenos transicionais. Caderno Ser e Fazer, 8 outubro 2004

Imagem: Pilar Rodriguez

Aspectos da experiência do Self

Brincava a criança 
Com um carro de bois. 
Sentiu-se brincado 
E disse, eu sou dois ! 

Há um brincar  
E há outro a saber, 
Um vê-me a brincar 
E outro vê-me a ver. 

No livro “Sendo um Personagem” ( Being a character- de Cristopher Bollas-1992) encontramos a definição do Self como um idioma pessoal, que busca os objetos do mundo para se expressar. Assim, os objetos e as escolhas de uma pessoa falam muito sobre ela. De certa forma, pessoas e coisas, atividades e entretenimentos com os quais nos ocupamos são receptáculos de partes de nós mesmos na busca por ressonância para a expressão de nosso Self mais profundo.

Os objetos do mundo nos modificam, também, ao evocar sentido para nós, principalmente no caso dos encontros com as pessoas que nos cercam. No encontro das subjetividades, em sua maravilhosa diferença, modificamo-nos mutuamente. A diferença é maravilhosa e é uma parte notável da nossa vida: na problemática do encontros e desencontros é que o des-envolvimento ocorre.

Saint Exupéry diz, em ” Terra dos Homens” que a verdade da laranjeira é o solo onde ela frutifica e lança sólidas raízes. Se neste solo, e não em outro, a laranjeira floresce, este solo é a sua Verdade. A busca pelo desenvolvimento , presente em todo ser vivo, está em nós e nos direciona para o mundo no sentido da busca dos objetos, que são como as teclas de um piano a tocar nossas cordas internas. A alegria do encontro é uma bem aventurança se libera o nosso idioma e produz frases musicais que nos ajudam a ouvir a nós mesmos.

Além disso, é da condição humana o refletir sobre si mesmo, poder pensar-se. Em processos psicoterápicos, muitas vezes, ao ouvir a própria voz narrando fatos, ou percepções, o eu se surpreende com uma descoberta sobre si mesmo. Mas o interessante é que o falar para alguém tem uma qualidade diferente do falar sozinho. Quando alguém nos escuta, desta maneira especial, novos caminhos se abrem para o auto-conhecimento.

Brincava a criança 
Com um carro de bois. 
Sentiu-se brincado 
E disse, eu sou dois ! 

Há um brincar  
E há outro a saber, 
Um vê-me a brincar 
E outro vê-me a ver. 

Estou atrás de mim 
Mas se volto a cabeça 
Não era o que eu qu’ria 
A volta só é essa…

É próprio do ser humano pensante e falante o reflexionar-se sobre si mesmo. Quando estamos mergulhados numa experiência, ou mesmo num sonho, por vezes deixamos de funcionar nesta irônica cisão que nos constitui, e sentimos , no aqui e no agora , estar totalmente presentes. Mas logo este outro EU observador é percebido como que nos vendo de fora, a narrar o que se passa.

Brincava a criança 
Com um carro de bois. 
Sentiu-se brincado 
E disse, eu sou dois ! 

Há um brincar  
E há outro a saber, 
Um vê-me a brincar 
E outro vê-me a ver. 

Estou atrás de mim 
Mas se volto a cabeça 
Não era o que eu qu’ria 
A volta só é essa…

O outro menino 
Não tem pés nem mãos 
Nem é pequenino 
Não tem mãe ou irmãos.  

E havia comigo 
Por trás de onde eu estou, 
Mas se volto a cabeça 
Já não sei o que sou. 

E se os deuses são deuses porque não se pensam, somos humanos porque nos narramos continuamente. No atendimento aos adolescentes, que estão passando pelo momento da busca e confirmação da identidade, é comum notar o júbilo com que apresentam para nós as histórias, séries e jogos preferidos, ávidos por falar de si desta maneira especial, revelando-se sem romper a privacidade do Self. Contam-nos detalhes das histórias e desta maneira nos deixam entrever quem são, o que fantasiam, o que temem, o que desejam. Perguntamos sobre os amigos, como são, e que fazem, e assim passamos a saber um pouco mais sobre o nosso adolescente em questão.

O relacionamento com os objetos do mundo também é sujeito a um tanto de acaso… A capacidade de ser poroso à experiência tem a ver com conceito winnicottiano de terceira área. No interjogo entre o eu e o outro, seja este outro um alguém ou um objeto material, busco a mim mesmo mas ao mesmo tempo me deparo com a alteridade do outro, com a natureza da coisa ou objeto. Em dado momento eu leio o objeto com as lentes do meu pensamento, em dado momento sou influenciado por ele, e enfim em algum nível nos encontramos numa rede de significações que é ao mesmo tempo dele, e nossa: a terceira área. A conquista deste espaço potencial não é sempre garantida. Na melancolia, na ansiedade extrema , o eu não pode se permitir estar neste espaço que representa, de certa forma, uma perda de controle. Ao atravessar a ponte que liga o eu e os objetos do mundo, posso aventurar perder-me, para depois voltar, enriquecido pela experiência.

E o tal que eu cá tenho 
E sente comigo, 
Nem pai, nem padrinho, 
Nem corpo ou amigo, 

Tem alma cá dentro 
‘Stá a ver-me sem ver, 
E o carro de bois 
Começa a parecer. 

Fernando Pessoa

Os deuses são deuses porque não se pensam…porque não se pensam

Abaixo o link de spotfy de vários poemas musicados de Pessoa… é necessário estar logado no Spotfy.

Os elementos masculinos e femininos no amadurecimento : suas expressões no viver criativo


          Winnicott coloca-se como um psicanalista preocupado especialmente com a compreensão do ser humano e seu processo de desenvolvimento. “Desenvolvimento é a minha especialidade”, diz ele na palestra “Este feminismo”, de 1964, e é desta maneira que se propõe compreender o caminho percorrido por homens e mulheres desde a
concepção até a morte.


          O eixo central de sua teoria é o processo de amadurecimento, a continuidade do ser. O seu foco é no aspecto sadio do desenvolvimento, em que considera até a morte natural “como a derradeira marca da saúde” (Winnicott, 1990, p. 30). Saúde para ele significa não apenas ausência de doença, como algumas vezes é conceituada. O desenvolvimento inclui a compreensão das falhas e ausências que tanto podem impedir como propiciar que este seja pleno.


          Dentro deste processo de amadurecimento escolhemos nos deter nos elementos masculinos e femininos, que consideramos uma abordagem de grande originalidade na obra de Winnicott. A constatação da existência desses elementos surgiu numa sessão, em que se viu falando a uma menina dentro de seu paciente- um homem adulto. Essa percepção foi acompanhada da concordância aliviada deste, trazendo novo rumo na condução de sua análise. Viu-se Winnicott diante da tarefa de procurar entender e elaborar a vivência al instalada, já que havia se deparado com algo novo, que não tinha pensado até então e que não tinha nenhuma referência em outros autores. A partir daí começa a formular suas ideias sobre o que seriam tais elementos.

Afirma que não é um conceito novo na psicanálise a ideia da predisposição para a bissexualidade: existem elementos masculinos e elementos femininos em todo o ser humano.

A originalidade de seu pensamento está na concepção de elemento feminino puro e elemento masculino puro como modalidades de relação de objeto, definindo-as como
independentes da pulsão, tal como esta é entendida nos textos freudianos.

           É importante ressaltar que a teoria de desenvolvimento de Winnicott
não se apoia na teoria da libido, no que difere de Freud. Apoia-se, sim, no
amadurecimento pessoal, onde contempla como aspectos fundamentais as tarefas de constituição do “si mesmo” (self) e de sua interação com o ambiente.
           Há uma tendência inata denominada continuidade do ser, espécie de mola propulsora que permite ao ser humano percorrer um caminho que o impele de uma dependência absoluta à busca da independência.
Winnicott parte da concepção de que no início da vida há uma solidão essencial acompanhada de uma dependência absoluta, em que o bebê não se diferencia do seio: ele é o seio. Embora do ponto de vista do observador externo haja a mãe e seu bebê, do ponto de vista do bebê o que existe é uma unidade existencial: o bebê é o seio que o alimenta, o colo que o sustenta, as mãos que o acariciam…

           Neste momento, a mãe, que está à disposição de seu bebê permitindo que ele seja, estaria vivendo esse tipo de relação de objeto chamada elemento feminino puro: ambos estão sendo. A partir do ser (identificação primária com a mãe) o bebê pode experimentar o eu sou (identidade pessoal).

           Nas primeiras mamadas não há diferença entre o eu e o não-eu- é um estado de indiferenciação, há uma mutualidade mãe-bebê. É o que Winnicott denomina “SER e o elemento feminino: a mãe e o bebê simultaneamente separados e unidos” (Abram, 2000, p. 153).

           Para que o bebê prossiga o seu caminho em direção à independência é necessário que a mãe apresente repetidamente o seio de uma forma que Winnicott se refere como “monótona”, ou seja, repetitiva, mas com prazer (não insípida). Essa situação propicia ao bebê a possibilidade de criar esperança, de ter confiança, de poder acreditar no mundo, o que permite a crescente separação e a vivência da sua dependência.           

Só a partir deste momento, que é a base do ser, o bebê pode ir fluindo no seu continuar a existir, dando sequência às tarefas do processo maturacional. Há o emergir de um “si mesmo” (self) e de um sentido de identidade primária. O bebê começa a perceber a distinção entre o eu e o não- eu; o ego mais organizado, que se diferencia e se separa pode agora pôr em ação o elemento masculino puro que é ligado ao fazer. É o momento de poder viver criativamente: o fazer emergindo do ser primordial. Como diz Winnicolt: “Após ser – fazer e deixar-se fazer. Mas ser, antes de tudo” (Winnicott, 1975, p. 120). Estamos falando de criatividade como Winnicott a considerou: uma proposição universal ligada à saúde, significando uma atitude em relação à realidade externa, que implica estar vivo, ou seja, um sentimento de que a vida vale a pena ser vivida.


          Em “Vivendo de modo criativo” (Winnicott, 1975, p. 31), uma das suas últimas conferências (1970), ao definir criatividade, esse autor afirma: Para ser criativa, uma pessoa tem que existir e ter um sentimento de existência, não da forma de uma percepção consciente, mas como uma posição básica a partir da qual operar. Em conseqüência, a criatividade é o fazer que emerge do ser, que indica que aquele que é, está vivo.”

          Diferencia essa criatividade da criação de obras de arte, sendo esta uma forma mais elaborada, diferenciada. Este ato criativo, próprio do artista, tem uma especificidade que foge ao nosso tema neste momento.

          Para existir a criatividade, o elemento feminino puro seria o primordial, próprio da fase de fusão com a mãe. Nestas primeiras relações, caracterizadas pela mutualidade, o bebê vive a ilusão de onipotência e a mãe suficientemente boa coloca o que o bebê cria no lugar e no tempo em que necessita. Fornece assim as condições fundamentais para essa ilusão ser mantida. O bebê sente-se um deus criando o mundo. Os fatos do mundo vão adquirindo sentido para ele, preparando para gradativamente ir suportando a desilusão, a frustração de que o mundo existe antes dele tê-lo “criado”. Essa atitude da mãe permite que a experiência primária de criação vá sendo internalizada, constituindo-se numa fonte interna do viver criativo.


          Esta abordagem da criatividade é diferente de outras teorias psicanalíticas, em que a origem da capacidade criativa se situaria em estágios e mecanismos mais avançados de desenvolvimento mental. Para Freud a capacidade criativa seria uma sublimação de pulsões instintivas que não podem se realizar como tais. Para Melanie Klein, seriam reparações de aspectos agressivos ligados à culpa na posição depressiva. Em Winnicott, a criatividade tem a característica de ser primária, constitutiva, determinante
de saúde e amadurecimento.

          O conceito de onipotência para Winnicott tem também uma definição própria. É uma experiência com caráter criativo e não só de controle mágico do objeto. Nesse sentido não seria concebida como uma defesa, mas como uma vivência necessária, própria do processo de desenvolvimento. O bebê precisa ser confirmado nessa experiência para, em seguida, ir se apercebendo do ambiente. Para isso necessita de uma mãe-ambiente confiável. Se há um abalo nessa confiabilidade, deixa de poder vivenciar a ilusão de onipotência, que pode então se transformar e ser usada como uma defesa – o sentimento de onipotência.


            Retomando a questão do fazer, temos que falar dos instintos, pois o elemento masculino puro não só se apoia, mas pede ação mobilizada pelo instinto. Assim se vê o ser humano diante de uma nova tarefa. A partir do momento em que começa a experienciar os instintos tem de lidar e integrar ao “si mesmo” (self) a sua vida instintiva.  Esta  vivência  no  próprio  corpo,  assim  como  as  diferenças  biológicas  dos  sexos, têm papel fundamental. As diferenças anatômicas, hormonais, entre os sexos são obviamente determinantes de como será o contato tanto com a sexualidade om si, como com o mundo. Ao seguir o seu curso começam a aparecer as diferenças relativas ao gênero: características mais marcadamente masculinas ou mais marcadamente femininas. É um tema importante para futuras reflexões.

Nos primórdios do desenvolvimento o bebê não precisa atender as suas necessidades, pois a mãe é quem vai atendê-las. À medida que vai amadurecendo, o “si mesmo” (self), agora mais definido, o ego já com a função que diferencia o eu do não-eu, vai sendo capaz de sentir as necessidades como próprias, buscando atendê-las. Quando há falhas nesse processo surgem dissociações entre o ser e o fazer. Uma das consequências é a perda do viver criativo, o “si mesmo” (self) passando a ser aquele que está sempre respondendo e se adaptando à realidade externa, em detrimento do “si mesmo” (self) verdadeiro.
           Nesse processo de amadurecimento e separação, Winnicott chama a atenção para um outro aspecto que nos parece de grande utilidade na clínica. Afirma que, apesar da dessemelhança entre os sexos, há uma semelhança básica em relação à questão primordial da dependência absoluta, que o leva a propor um fenômeno separado que denominamos MULHER… que é a mãe não reconhecida dos primeiros estágios de vida de todo homem e de toda mulher” (Winnicott, 1996, p. 150).

Podemos agora refletir sobre a questão da diferença entre os sexos, partindo de como cada um deles vai elaborar esta dependência absoluta de uma mulher. Isso é de fundamental importância para o desenvolvimento da identidade de cada sexo. O homem, para ser “si mesmo” e para constituir a sua identidade masculina, terá que se separar desta MULHER de quem dependeu totalmente. Já a mulher, para se constituir como tal, não precisa estabelecer necessariamente a separação – pode manter-se identificada com esta MULHER.

Observamos, portanto, duas direções distintas: enquanto a mulher lida com a MULHER dentro de si através da identificação, o homem tem que se separar, tomar-se único, o que se constitui em uma urgência no desenvolvimento da sua identidade. A especificidade da identidade feminina caracteriza-se por ser geracional e infinita, isto é, podendo manter dentro de si três mulheres: o bebê menina, a mãe e a mãe da mãe. Esta condição possibilita a mulher o desempenho de diferentes funções sem violar a sua natureza. Pode ocupar posições diversas nas brincadeiras, onde ora é mãe, ora, filha, alternando papéis. Ou ainda na idade adulta, exercendo a sua feminilidade, ocupando o lugar de mãe e/ou de mulher sedutora.


           Enquanto isso, o homem não se funde nessa linhagem-sua condição
básica é a de ser um: o provedor, aquele que faz. É uma função que ocupa
tanto no âmbito familiar, quanto social e profissional: tudo se agrupa em torno desse fazer/prover.

As brincadeiras do menino são mais ligadas ao lutar, brigar, competir- atividades ligadas à ação, enquanto nas meninas elas se expressam nos diferentes papéis associados ao ser: ser mãe, ser filha, ser mulher. A título de ilustração, poderíamos usar como metáforas: para a mulher, um caleidoscópio, com constantes rearranjos; e para o homem, a figura
geométrica de um poliedro, que mesmo mostrando os diferentes lados, mantém a mesma configuração.


           Apesar dessas diferenças, o elemento feminino puro e o elemento masculino puro têm que estar presentes e integrados em todo ser humano, homens e mulheres que, como já dissemos, é a condição primordial do viver criativo.

Referências


ABRAM, J. (2000). A linguagem de Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter.
ELLMAN, S.J. (1998). Enactment. Transference and analitical trust. In: ELLMAN and
MOSKOVITZ. Enactment. London: Jason Aronson.
KOHON, G.; GREEN, A. (1999). The greening of psychoanalisis. In: KOHON, G. (ed.)
The Dead Mother: The Work of Andre Green. London: Routledge.
WINNICOTT, D. W.(1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.
______ (1983). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes
Médicas.
______ (1990). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago.
______ (1996). Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes.

Cecilia Luiza Montag Hirchzon (https://www.gestoespontaneo.com.br/cecilia-l-montag-hirchzon/)
Maria Cecilia Schiller Sampaio Fonseca ( Membro associado da SBPSP, membro efetivo da SBPR).
Maria Lúcia de Toledo Moraes Amiralian. (Docente do Instituto de Psicologia da USP. Doutora em Psicologia Clínica do IPUSP)

extraido da revista -Panorama – SBPSP (2003)

Porque você não chora?

Assisti o longa-metragem brasiliense que concorre ao prêmio Kikito no Festival de Cinema de Gramado, 2020 : ” Porque você não chora? “(2020), de Cibele do Amaral. O filme trata, principalmente, da questão do suicídio e da formação do psicólogo.

A trama do filme se passa entre a personagem Bárbara, uma mulher explosiva, com Transtorno de Personalidade Borderline, e a estagiária de psicologia Jéssica, sua Acompanhante Terapêutica, uma mulher introspectiva que tenta driblar calada seu sentimento de solidão e abandono.

O fime relata a relação que se estabelece entre as personagens e os questionamentos que esta relação produz em cada uma delas.

A fragilidade e o sofrimento psíquico, diante das perdas e frustrações, são intrínsecos à nossa condição humana. Porém, se somos acolhidos e sustentados pelo ambiente na nossa dor, isso fará muita diferença no nosso viver criativo.

Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, separa a noção de criação e de obras de arte. Criações são uma pintura, uma música, uma refeição preparada em casa, o cuidado com o jardim entre outras. Mas ele se refere à criação que é universal e faz parte do estar vivo. É o modo como o indivíduo aborda a realidade externa e como ele se torna protagonista de sua vida. Crescer como ser humano que se sente vivendo realmente a sua própria vida, com o caminhar autêntico.

No filme, as duas mulheres sofreram dificuldades no cuidado materno desde a mais tenra idade.Segundo Winnicott, o holding é uma das funções da “mãe suficientemente boa”- ela contém, aguenta , resiste e apoia o bebê frente às ansiedades que ele vive. São os cuidados essenciais para o desenvolvimento saudável da criança. Bárbara foi abandonada pela mãe e Jéssica apresenta uma mãe pouco responsiva, que tem a comunicação com palavras ou gestos entre elas totalmente truncada. Como diz Winnicott, ocorreu um fracasso no estabelecimento da capacidade pessoal para a vida criativa.

Bárbara tem um filho e luta para estar viva e manter seu vínculo com ele.

Jéssica, por outro lado, encontra-se no extremo da submissão, onde sente a vida como insatisfatória – não pode se enriquecer por meio das experiências que vivencia.

Assim, nada tem de relevante no viver de Jéssica. Suas forças vitais, sua criatividade e até a própria agressividade estão ocultas dela mesma, não dão sinais de existência- o que dificulta seu próprio sentimento de autencidade, de estar viva. Apenas, ela se sente impotente diante da realidade, porque seu mundo interno é povoado por sombras de medo e desamparo, vividas desde a mais tenra infância.

Chama a atenção no filme a pouca fala de Jéssica, seu desamparo frente à vida, sua solidão, sua falta de relações afetivas e o seu desconhecimento do outro. Ela cuida de uma irmã que estima, mas não sabe o que sente em relação a ela mesma e também em relação à irmã.

O relacionamento de Bárbara com Jéssica traz à tona o sofrimento psíquico que ela ignorava e, assim, mantinha calado. Agora, esses sentimentos permeiam seus sonhos e a assustam.

Jéssica, apesar de ter sido orientada por sua supervisora para fazer psicoterapia, decide não fazer e, assim, se deixa dominar por esse sofrimento reeditado e potencializado pelo seu relacionamento com Bárbara.

Olhando o filme por outro vértice, ele dá ênfase à importância para a formação do psicólogo, o estudo teórico, a supervisão clínica e a psicoterapia, que é um recurso não só para a elaboração das próprias limitações e potencialidades mas também para a internalização da teoria e da prática clínica.

É um bom filme que trata do sentimento de não pertencimento, da solidão, do desamparo e da importância do olhar para que o indivíduo possa ter um viver criativo.

A crueza e a beleza de viver o possível

Sobre o filme: Hanami – Cerejeiras em flor
Direção: Doris Dörrie; Produção Alemanha/França, 2008

Observação: o texto revela o roteiro do filme [ALERTA DE SPOILER]

Em “Hanami”, na primeira cena, a morte é logo anunciada. Trudi (Hannelore Elsner) fica sabendo que Rudi (Elmar Wepper) tem pouco tempo de vida. Os médicos contam apenas para ela e sugerem que os dois façam uma viagem, enquanto é possível. “Meu marido não gosta de aventuras” responde e resolve guardar sua angústia e o segredo. No entanto, pede ao homem para irem visitar o filho mais novo em Tóquio. Ela ama a dança japonesa do Butoh e tem o sonho de conhecer o Monte Fuji, mas ele acha muito caro, “talvez depois da aposentadoria”. Então, o casal visita os outros dois filhos em Berlim e, diante do desencontro de gerações, decidem ir passar uns dias na praia. Mas, o inesperado acontece. Trudi morre dormindo. Morre com seu segredo, com seus sonhos. A realidade toma outro curso.

A falsa sensação de permanência do estar vivo, com suas rotinas e certezas, traz uma perspectiva de que sempre se terá tempo para o futuro, como se a negação da perspectiva de um fim acabasse mortificando o viver em repetições previsíveis.

O que lembra a efemeridade assusta: a doença, o envelhecimento, a possibilidade do morrer. As moscas, lembradas no poema recitado em família, aparecem como importunos insetos que precisam ser afastados ou esmagados para que não atrapalhem a sensação de continuidade, com sua existência efêmera. Por outro lado, a perda iminente ou concretizada de um ser querido quebra esse arranjo confortável e chama, à cena, a fragilidade humana.

Ele, agora viúvo, vai à Tóquio, levando as roupas da mulher na mala, desejando que de alguma forma ela esteja presente. É primavera e depois de alguns dias, o filho o leva para o Hanami Festival.

Contemplar as flores das cerejeiras é uma tradição milenar no Japão. É uma forma de apreciar a beleza e brevidade da floração, que dura cerca de 14 dias, ao sentar embaixo das árvores, com a família e amigos, comendo e celebrando a vida, enquanto é possível. Observar as flores, a sua natureza cíclica, coloca, no tempo, a percepção da finitude, que coabita a existência.

Voltando ao jardim, Rudi conhece Yu (Aya Irizuki), uma jovem órfã, que dança o Butoh no parque. Com ela, consegue conversar sobre sua perda, entender o significado da dança com as sombras e os sentimentos.

O Butoh, por ser uma dança sem coreografia própria, mostra um corpo em transformação, que constrói e desconstrói sua identidade em ritmos particulares, transitórios. Através da fluidez da forma, busca expressar e alcançar a essência do dançarino. O marido enlutado, anteriormente preso à suas tarefas e costumes, nesta nova convivência, veste outra roupagem, inusitada.

A menina passa a ser sua intérprete, uma ponte à língua japonesa e ao mundo sensível da sua esposa. Eles fazem uma viagem para ver o Monte Fuji, mas a montanha diariamente se esconde na neblina. Quando, numa madrugada, finalmente a montanha fica visível, o homem, sentindo-se cada vez mais doente, dança o Butoh, vestido com as roupas de Trudi, e encontra a morte.

Quando Winnicott anota em suas memórias: “Oh, Deus! Possa eu estar vivo quando morrer” sublinha a valorização da experiência, o exercício constante de sentir-se real mesmo diante da terminalidade. A vivacidade de estar presente em seus gestos, na expressão de si mesmo é interagir e observar a realidade sem estar submisso a ela.

Muitas vezes para lidar com a inevitabilidade da perda, viver passa a ser uma repetição de atos rotineiros, metódicos, que afasta a espontaneidade, a criatividade. O próprio futuro surge como uma fuga para o eterno. Desvestir-se das ilusões, sentir a falta do outro que segue suas próprias leis e caminhos e reinventar-se são tarefas diárias, mas que por vezes somem no cotidiano, como nas manhãs que se repetem na cidadezinha do interior em que os personagens moram.

O entorpecimento, trazido pela negação da vulnerabilidade humana, borra os limites entre o que é subjetiva e objetivamente percebido, inibindo a ação criativa. Quando diariamente Rudi chegava para jantar, no tempo em que vivia com sua mulher, e encontrava os charutos de repolho prontos para comer, pelo costume, turvava-se a realidade de que ali existia alguém que os fizera. Após sua perda, quando chega na casa vazia, a falta, objetivamente, explicita o engano. Mais tarde, no Japão, a partir da receita da esposa, pode brincar, inventar, recriar a partir da visibilidade da separação e cozinhar os charutos para o filho.

D.W.Winnicott afirma: “É com base no brincar que se constrói a totalidade da existência experiencial do homem. Não somos mais introvertidos ou extrovertidos. Experimentamos a vida na área dos fenômenos transicionais, no excitante entrelaçamento da subjetividade e da observação objetiva, e numa área intermediária entre a realidade interna do indivíduo e a realidade compartilhada do mundo externo aos indivíduos”.

Experimentar a impermanência das coisas e das pessoas, abre portas para a angústia, mas também para um convite a desfrutar a realidade provisória em que se vive. As cerejeiras em flor carregam dentro da sua beleza o sentido da transitoriedade e a urgência do presente.

Nessa época em que a pandemia atual marca a fugacidade da vida, colocando as pessoas como moscas presas numa garrafa do tempo presente, resta a crueza e a beleza de viver o possível, que limita e liberta.


de tantos instantes
para mim lembrança
as flores de cerejeira

🌸
Matsuo Bashô


Cena final do filme “Hanami – Cerejeiras em flor”

O mínimo para viver

O mínimo para viver To the bone, filme de Marti Noxon (2017)

“Você parece um fantasma” diz a mãe de Ellen, assustada, quando a vê durante a internação.

Ellen, uma jovem com anorexia grave, inicia um tratamento em uma clínica alternativa. Lá, conhece outros pacientes que enfrentam distúrbios alimentares e, através dessa convivência em grupo e com o terapeuta, entra em contato consigo mesma, com seu transtorno e história.

Um fantasma é um espírito sem corpo, etéreo. Anoréxica, Ellen some até os ossos. Quase um sopro do que poderia ser. Tem repulsa aos alimentos, sente-se gorda, faz exercícios para eliminar qualquer possibilidade de caloria acumulada.

Na reunião com a família na clínica, Ellen desaparece no turbilhão das relações familiares. Um pai ausente, três mães e nenhum colo, um abraço da irmã.

No decorrer do seu tratamento, Ellen parece ganhar forma ao assumir um outro nome: “Eli” – escolhido como seu, e não mais o de sua avó. Gradativamente, começa a interagir com as outras pessoas. Quando se decepciona, Eli ganha corpo, expressa sua raiva ao psicólogo e deixa a clínica. Vai em busca da mãe.

Nesse encontro, embalado pelas lembranças e culpas maternas (“estava em depressão após o parto, creio que não te segurei e alimentei como poderia”), vai se formando uma permissão. Eli pode não comer, pode morrer, se quiser, se esse for o seu desejo. É como se a mãe dissesse: pode viver a sua angústia, estou mais forte agora.

Nesse momento, com cuidado, a mãe a aconchega ao colo e Eli aceita uma mamadeira.

“Deveríamos poder deixar essas crianças irem até o fim” diz o psicólogo depois que ela vai embora. Eli vai até o fim, até os ossos. Poderia se dizer até a medula, para descobrir, após se deixar alimentar pela mãe, que quer viver, que pode perder o controle da sua alimentação para “o outro”, que pode se deixar envolver pelo colo de outrem.

Esse filme nos faz lembrar dos conceitos de Winnicott:

“Quando uma mãe, através da identificação com seu bebê (isto é, por saber o que o bebê está sentindo), é capaz de sustentá-lo de maneira natural, o bebê não tem de saber que é constituído de uma coleção de partes separadas. O bebê é uma barriga unida a um dorso, tem membros soltos e, particularmente, uma cabeça solta: todas estas partes são reunidas pela mãe que segura a criança e, em suas mãos, elas se tornam uma só”. (Winnicott, Explorações psicanalíticas, 1969g/1994, p. 432)

 “A mãe sabe por empatia que quando se pega um bebê é preciso levar um certo tempo nesse processo. O bebê deve receber um aviso, as várias partes devem ser seguradas em conjunto; finalmente, no momento certo, a criança é levantada; além disso, o gesto da mãe começa, continua e termina, pois o bebê está sendo levantado de um lugar para outro, talvez do berço para o ombro da mãe”. (Winnicott, Natureza humana, 1988, p. 137)

A mãe de Eli, deprimida, sem o suporte do pai, sempre ausente, conta que não pode segurar direito o seu bebê.

“No início há o soma [o corpo], e então a psique, que na saúde vai gradualmente ancorando-se ao soma. Cedo ou tarde aparece um terceiro fenômeno, chamado intelecto ou mente”. (Winnicott, Natureza humana, 1988, p. 161)

“A integração também é estimulada pelo cuidado ambiental. Em psicologia, é preciso dizer que o bebê se desmancha em pedaços a não ser que alguém o mantenha inteiro. Nestes estágios o cuidado físico é um cuidado psicológico” (Natureza humana, 1988, p. 137)

Conforme as ideias de Winnicott, podemos entender que, na saúde, a mente tem sua origem num momento específico do percurso de amadurecimento. Ela surge como um ramo da psique na sua integração com o soma. Isso se inicia na fase de desilusão – quando, por qualquer aspecto da realidade, as necessidades do bebê não são atendidas – e segue como uma linha presente ao longo de toda a existência do indivíduo.

“Se tomarmos agora o caso de um bebê cujo fracasso da mãe em adaptar-se é rápido demais, podemos descobrir que ele sobrevive por meio da mente. A mãe explora o poder que o bebê tem de refletir, de comparar e de entender…. Este pensar transforma-se num substituto para o cuidado e adaptação maternas. O bebê “serve de mãe” para si mesmo através da compreensão, compreendendo demais”. (Winnicott, Explorações psicanalíticas, 1965/1994, p.122)

A desconexão entre o corpo e sua imagem e necessidades, aspecto da anorexia, pode se entender como vestígio de alguma não integração psique-soma. A sobrevivência através da atividade mental poderia explicar a recusa ao alimento como uma teoria primitiva para controlar a fome, a vida, a morte, a necessidade e a ausência do outro. No entanto, os sintomas psicossomáticos seriam ainda, de alguma forma, expressão da busca de interação psique-soma, através da tendência inata à integração.

O convívio a que Eli se permite na clínica e a possibilidade experimentada no encontro com o terapeuta e com sua mãe proporcionam a renovação da expressão de suas necessidades, no embate da sua satisfação/frustração com a realidade possível.

Nesse sentido, Eli precisa ir “até os ossos” para encontrar o seu corpo, as suas emoções, a integração perdida e para poder se deixar permear pelo alimento, pelo sol, pela vida.

O comportamento preconceituoso

Para além de uma questão racial, a gente está sofrendo uma questão de aniquilamento do humano.Você retira a humanidade das pessoas. Você retira do indivíduo a possibilidade de sentir, de pensar e de lidar com as adversidades. A vida- eu vou desapontar algumas pessoas agora- por si só é complexa e difícil ,ela não é facil, e ela não é simples. E nós precisamos entender que ela é difícil para todos nós, e precisamos um do outro para poder viver…porque… você pega lá um chicungunha, um zica virus, gripe asiática …que extermina a humanidade… acabou… a gente não tem o poder que a gente imagina que tem!

Por isso que a música é maravilhosa, a precisa sonhar mais, poder sonhar mais, a lua que eu imagino, pode ser a mesma lua que você vê e imagina diferente… a gente não pode ter medo de viver!

Claudinei Affonso

Este é um trecho da entrevista postada no link abaixo, do nosso querido psicanalista e professor Claudinei Affonso, um dos fundadores do blog Gesto Espontâneo.

O tema é racismo, mas vai além. A interdependência que temos uns dos outros e a dificuldade em aceitar o diferente, a questão da violência, aqui falada contra o negro e a mulher negra.

Interessante que no programa que aconteceu na radio há três anos, ele fala de algo que está acontecendo conosco agora, com a pandemia de COVID 19.

Gostaríamos de falar aqui sobre o estado de mente fascista: que assim como racismo e o preconceito, faz parte de todos nós. Um autor que estudou muito a obra de Winnicott, Christopher Bollas, tem um artigo intitulado ” O estado de mente fascista” em seu livro “Sendo Um Personagem”*. Ele é comentado pela professora doutora do Departamento de Antropologia da Unicamp, e também psicanalista, Amnéris Maroni:

A mente fascista não é parlamentar(com vários pontos de vista em confronto, em diálogo),

mas imperial: com um
único ponto de vista fixo.

Torna-se inumana. Para chegar a isso os fascistas
desencadeiam uma guerra permanente primeiro contra si – por meio de múltiplos assassinatos contra as partes de seu self amoroso, reparador, compassivo

– e depois contra os outros, eleitos para esse fim. Para eliminar toda a oposição interna, a mente fascista conta com a ideologia, crença, convicção – antídotos da dúvida, da hesitação –, convergindo para um campo de certezas.

Não existe espaço para a dúvida, para a alteridade, o diálogo.

Como é a mente fascista para a psicanálise? Quais defesas a constituem e,
particularmente, como se dá, nessa mente, o processo que a torna desumana? O Estado Fascista foi um movimento especial na história do mundo, com aspectos singulares e datado. Mas, como diz Bollas, fascista é agora uma metáfora no nosso mundo para tipos especiais de pessoas, e é possível reconhecer nelas um
determinado perfil psíquico.

Podemos observar uma polarização, uma simplificação do pensamento e o ódio ao outro aumentando no nosso país, carente de lideranças sensatas onde o vírus da incompreensão corre solto. Nada pode justificar a retomada de um governo autoritário, embora o medo possa gerar o desejo de uma ordem suprema que venha submeter a todos e todas , eliminando a possibilidade de contradição.

Para saber mais vale a pena ler o ótimo artigo de Amnéris Maroni:

http://pepsic.bvsalud.org/pdf/jp/v52n96/v52n96a07.pdf

*BOLLAS. Christopher. ¨O Estado da Mente Fascista¨. In: Sendo um Personagem. R.J. Ed. Revinter, 1998.

Gesto espontâneo e interpretação criativa

https://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/MUD/article/view/831/846

Professora Doutora Ivonise Fernandes da Mota

O gesto espontâneo e a interpretação criativa

Ivonise Fernandes da Motta*

PARA SER GRANDE, sê inteiro: nada

 Teu exagera ou exclui

Sê todo em cada coisa.

 Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Pessoa, F. (1995/1993). Ficções do Interlúdio / Odes de Ricardo Reis, 414, 14- 2-1933. In Fernando Pessoa, Obra poética. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar S.A., p. 289.

 Resumo

O presente artigo tece considerações sobre possíveis manifestações do “Verdadeiro Self” que podem ter ocorrência no processo psicanalítico. “Expressões”, “gestos” ou “atitudes” inesperados ou surpreendentes tanto por parte do terapeuta quanto por parte do paciente podem facilitar revivências do passado, da história psíquica do analisando, que podem ser extremamente valiosas para o trabalho psicoterápico em andamento. O termo “interpretação criativa” estaria incluído nessa categoria ou classificação. Descritores: psicoterapia; psicanálise; Donald W. Winnicott; gesto espontâneo; criatividade.

Introdução

               Gesto espontâneo foi um termo utilizado por D. W. Winnicott para designar uma das inúmeras maneiras pelas quais o verdadeiro self pode se expressar. Estaria relacionado ao cerne, ao centro do ser, representando o que há de mais autêntico, mais genuíno para aquela pessoa em especial. Nesse contexto, gostaria de empregar o termo “interpretação criativa” para algo semelhante que pode ter ocorrência no trabalho analítico. A partir do contato com o paciente, nós, psicoterapeutas, podemos nos surpreender com “expressões”, “gestos” ou “atitudes” que poderíamos denominar “inesperados” ou “surpreendentes”. Após muitos anos de trabalho com pacientes com as mais variadas dificuldades, queixas ou sintomas, por vezes algo que se poderia dizer dessa natureza, ocorria: uma palavra, uma atitude inesperada do terapeuta surpreendem o “par analítico” ao trazer à tona algo novo, algo novo para revelação. Por exemplo, dizer a um paciente a frase: “não admito isso em um homem”, após ouvir várias de suas associações, despertaria no mínimo “estranheza”, ou eu diria “surpresa”. À primeira vista, tal expressão poderia ser entendida como autoritária, disruptiva, invasora. Com a evolução ou experiência nos vários e diferentes setores do campo psicanalítico desde sua criação, vários aspectos, teóricos e técnicos, tiveram de ser gradativamente revistos e mudados. O trabalho com crianças e pais trouxe inúmeras contribuições e conhecimento tanto no que se refere ao desenvolvimento psíquico quanto à constituição e construção das bases fundamentais do psiquismo. De maneira semelhante, o trabalho com pacientes psicóticos ou com perturbações mais severas trouxe inúmeras contribuições sobre a importância do que se denomina “manejo de setting”. O “setting” clássico ou tradicional estabelecido por Freud tem suas bases na experiência principalmente com pacientes neuróticos. O trabalho com pacientes regredidos ou em regressão mostrou a necessidade de várias modificações: tempo das sessões, pertinência ou não de interpretações, tipos de interpretação condizentes com o material vivenciado, orientações ao ambiente do paciente (pais, parentes, instituições). Com esse tipo de pacientes, o que denominamos usualmente “neutralidade” do analista cede lugar ao que poderíamos chamar o surgimento da pessoa real do terapeuta. Ou seja, aparece a marca da falha do ambiente. Algo no desenvolvimento daquele indivíduo revela a presença de um aspecto do ambiente que dificultou o desenvolvimento psíquico ou mesmo “traumatizou” ou irrompeu ou interrompeu com invasões disruptivas. O conhecimento advindo do tratamento com pacientes regredidos ou em regressão (como gravidez, crises, por exemplo) nos aproxima da emergência de conhecimentos semelhantes com pacientes neuróticos. O acompanhamento de pacientes diagnosticados neuróticos irá, por vezes, de encontro a revivências primitivas, ao aparecimento de falhas ambientais significativas para o paciente, para sua constituição e desenvolvimento. Frases que à primeira vista parecem “destoantes” ou “estranhas”, como uma terapeuta dizer a um paciente “não admito isso em um homem”, podem ser um sinal da necessidade do encontro com algo do passado, uma falha ambiental do passado do paciente que emerge pelas palavras do terapeuta. Ao sublinhar a importância do ambiente no desenvolvimento psíquico, Winnicott vem ferir mais uma vez o narcisismo do ser humano: não podemos ter controle sobre muitos dos acontecimentos que ocorrem conosco. As pessoas que nos circundam invariavelmente irão limitar, influenciar e até definir situações que podemos até desconhecer, o que nos remete ao observado por Freud em relação à instintividade no ser humano: o homem mais uma vez não é senhor em sua própria morada. Os terapeutas de crianças e adolescentes costumam conhecer bem essas limitações. As dificuldades invariavelmente surgidas na psicoterapia quando do atendimento desse tipo de pacientes expõem os limites de nossa onipotência, de nosso trabalho, limites e alcance que sofrem repercussões de várias ordens envolvendo familiares. O papel materno no desenvolvimento humano é conhecido por vários e diferentes vértices, por pesquisas nas mais diversas áreas do conhecimento. Com os avanços nas pesquisas, o papel paterno tem se mostrado de igual importância para as possibilidades de desenvolvimento psíquico. Winnicott ressalta a importância da figura do pai tanto no que concerne em fornecer apoio para a mãe desempenhar suas funções maternas, quanto em favorecer as várias e sucessivas passagens desde o estágio de dependência absoluta (mãe-bebê) até o de dependência relativa. Para esse autor, o pai tem o lugar do indestrutível, o limite que não pode ser ultrapassado. Por isso mesmo, sua presença liberta o menino, o homem, para a instintividade. A possibilidade de “matar” o pai simbolicamente e não ter a concretização da “morte”, na medida que o pai mantém sua presença e lugar constantes, libera o menino para seus desejos instintivos. Desejar é distinto de concretizar, portanto não oferece ameaças reais ao menino, ao homem e à figura paterna. A rivalidade e a competição edípicas podem ser vivenciadas em tons e matizes ricos e presentes possibilitando o caminhar por esses conflitos sem a necessidade de defesas patológicas ou excessivas. No desenrolar do trabalho analítico, muitos aspectos do terapeuta são trazidos à revelação, além dos emergentes do próprio paciente. Levando-se em consideração que o terapeuta tem seus conflitos neuróticos devidamente analisados, além do conhecimento de vários ângulos de seu funcionamento mental mais primitivo, o surgimento de momentos do que se poderia denominar “expressão do verdadeiro self” pode trazer revelações significativas para o par analítico. A análise cuidadosa dessas expressões faz-se necessária para compreensão e possibilidades de sua utilização a favor do tratamento psicoterápico em andamento. É importante frisar que a presença desses momentos, ou o que eu chamaria “interpretação criativa”, ocupa um lugar diferenciado do que poderia ser facilmente confundido com “acting out” do terapeuta, ou seja, invasão no setting analítico de aspectos do self do terapeuta, que, de maneira intrusiva, pressionam o tratamento. Ao escrever sobre mudanças do setting, D. W. Winnicott delimitou as especificidades, limites e perigos de tais situações. Uma de suas recomendações era a de que o tratamento com pacientes regredidos ou em regressão deveria ser conduzido apenas e tão somente após dez anos de experiência analítica. A complexidade de tais ocorrências demandariam muito do psicoterapeuta tanto em termos psíquicos quanto em termos de conhecimento psicanalítico, daí a necessidade de, no mínimo, dez anos de trabalho com pacientes. Outeiral (2001), ao escrever sobre o tema ressalta: “A contribuição de D. W. Winnicott para ser compreendida requer um profundo aprendizado psicanalítico prévio (e neste ponto concordo plenamente com os padrões de formação da International PsychoAnalysis Association, baseados no “tripé” criado por Eitington: análise pessoal, supervisão e seminários teóricos) que nada tem a ver com superficialidade, ‘intuição pura’, empirismo ou ‘espontaneidade sem sentido’… A clínica que nos é permitida acompanhar é plena de sentido e intencionalidade” (p. 103). Outro aspecto relevante a ser considerado é a impossibilidade de comunicação. É trazido à revelação algo que estava bloqueado ou impedido de ser conhecido ou revelado. O contato cada vez maior e mais profundo com vários aspectos psíquicos do paciente e conseqüentemente do próprio terapeuta tem expressão por meio do surgimento do que denomino neste artigo “interpretação criativa”. Algo do ambiente constitutivo do paciente torna-se presente, possivelmente uma falha. Algo falhou e é revelado por algo que é dito pelo terapeuta e que pode surpreender o próprio terapeuta. Quando falhas foram significativas no desenvolvimento do paciente; a revivência do ocorrido no passado é invariavelmente acompanhada por sentimentos hostis, por sentimentos raivosos. Para Winnicott, o encontro do paciente com as limitações ambientais traz à tona a hostilidade pelos prejuízos, entraves e conseqüências. Esse seria um aspecto relevante ao traduzir a diferenciação entre o mundo psíquico do paciente e o ambiente do qual fez ou faz parte: discriminação cada vez maior advinda do trabalho psicoterápico quanto a quem sou eu e quem é o outro; quem são ou quem foram os participantes do entorno do paciente e geradores das falhas por vezes disruptivas ou invasoras. Trazer à consciência os danos sofridos, suas repercussões e presença na vida do paciente é de vital importância para o reconhecimento do que foi vivido em épocas pretéritas e a possibilidade de, ao revê-las, estabelecer outras bases para o desenvolvimento psíquico. Ao escrever sobre o tema, Margaret Little (1992), psicanalista e paciente de D. W. Winnicott que pôde vivenciar um tratamento com bases na regressão, diz: “A regressão para a dependência é um ‘processo de cura’ (Winnicott 1954b) originado não no analista, mas naquela parte do analisando, seu “verdadeiro self” (Winnicott 1949a, 1960b), que ainda pode esperar uma reversão do fracasso original, encontrando no analista uma adaptação suficiente para as suas necessidades. É preciso haver um ‘tratamento’ em vez de uma ‘técnica’; e um comportamento intuitivo, não interpretação verbal. Mas isso não é fácil, porque envolve o analisando em uma volta assustadora ao primeiro estágio não integrado. Há o risco de aniquilação repetida pelos estímulos aos quais ele tem de reagir fisicamente (reflexo de choque), e com uma integração forçada, contra os quais ele não tem defesas e não pode compreender; de deixarem-no cair quando ele está indefeso, não havendo limites ou controle. O analista tem de ser capaz de renunciar às suas defesas contra a mesma ansiedade, o medo de aniquilação, da perda de identidade, tanto por si mesmo como pelo paciente. Ao mesmo tempo, sua própria identidade deve permanecer distinta, e seu sentido de realidade inalterado, mantendo a consciência em dois níveis extremos, o da realidade e o da ilusão. Ele está na posição de uma mãe vis-à-vis o filho, mas onde nem ele nem o paciente estão de fato nessa situação. Isso exige as mesmas qualidades de uma “mãe suficientemente boa” (Winnicott 1952b), empatia com a criança (Winnicott 1960 a) e capacidade de considerá-la uma pessoa separada. Não contar com a “atitude profissional” para aceitar um “relacionamento direto” com o paciente como distinto da imagem do espelho, e lembrar-se de que a sexualidade não tem qualquer sentido aqui; unir-se fisicamente a ele aceitando a ilusão de unidade; tolerar o ódio do paciente sem revidar quando os traumas originais são revividos (Winnicott 1947, 1960c) e suportar as suas próprias emoções quando elas são despertadas” (Little, 1992, p. 88). Muitos anos de trabalho com pacientes dão ao terapeuta maior segurança e confiança adquiridas gradativamente e que o possibilitam renunciar pouco a pouco a uma “técnica” para a emergência de vários aspectos de seu próprio self ou, dizendo melhor, de seu “verdadeiro self”, o que contribuiria para revelação de aspectos essenciais do self do paciente, tanto aspectos dissociados quanto aspectos não integrados. O surgimento dessas facetas do self no presente com tons e matizes vivos e atuais tornaria possível todo um trabalho de revivências e integração. Winnicott, ao escrever sobre “A interpretação na psicanálise” (1968), afirma: “O princípio que estou enunciando neste momento é que o analista reflete de volta o que o paciente comunicou. Este enunciado muito simples a respeito da interpretação pode ser importante pelo próprio fato de ser simples e evitar as tremendas complicações que surgem quando se pensa em todas as possibilidades que podem ser classificadas na premência interpretativa. Se este princípio muito simples é enunciado, ele imediatamente precisa de elaboração, e sugiro que necessita de elaboração do seguinte tipo: área limitada da transferência de hoje, o paciente tem um conhecimento exato de um detalhe ou de um conjunto de detalhes. É como se houvesse uma dissociação pertencente ao lugar a que a análise chegou hoje. É útil lembrar que, desta maneira limitada ou desta posição limitada, o paciente pode estar dando ao analista uma amostra da verdade, isto é, de algo que é absolutamente verdadeiro para o paciente, e que, quando o analista o devolve, a interpretação é recebida pelo paciente que já emergiu, até certo ponto, desta área limitada ou condição dissociada. Em outras palavras, a interpretação pode ser mesmo dada à pessoa total, enquanto que o material para interpretação derivou apenas de uma parte da pessoa total. Como pessoa total, o paciente não teria sido capaz de ter fornecido o material para a interpretação” (1994, p. 164). A possibilidade de acesso às falhas ambientais vividas pelo paciente tornam possível não apenas o conhecimento dessas vivências e seus efeitos, mas também a emergência de possibilidades do que denominaríamos reparação. A sobrevivência do analista, a sobrevivência do paciente, significando a manutenção da constância do tratamento, e a não retaliação por vivências do tipo aqui descritas – “Não admito isso em um homem” – podem significar um marco de mudança. Nessa situação clínica aqui utilizada para exemplificar o que denomino “interpretação criativa”, o marco presente foi a interdição paterna realizada pelas palavras da terapeuta “não admito isso em um homem”. Evidenciou falhas vividas pelo paciente quanto à função paterna e que, ao serem trabalhadas na psicoterapia, puderam ser conhecidas e re-significadas. Em seu trabalho “O ódio na contratransferência” (1947), Winnicott ressalta a importância de, em certo tipo de pacientes ou em certas situações clínicas, o paciente encontrar o ódio do terapeuta que possibilitaria o surgimento do ódio do paciente, aspecto dissociado e que necessitaria de integração. O ódio do terapeuta traria essa dissociação à revelação e expressaria a permissão do surgimento de aspectos hostis do paciente para o trabalho integrativo. A expressão “não admito isso em um homem” inclui uma carga inegável de sentimentos hostis. Inclui também a firmeza e a força por vezes necessárias para marcar o limite, o limite intransponível, marcar o lugar e a presença do pai, o indestrutível. Margaret Little (1992), no relato de sua análise com Winnicott, assinala a importância do reconhecimento do ambiente para a integração de aspectos dissociados de sua personalidade. Winnicott definia a mãe de Little da seguinte maneira: “Sua mãe é imprevisível, caótica, e estabelece o caos ao seu redor” (p. 50). A esse respeito, Little escreve: “É preciso fazer uma observação sobre a minha família; caso contrário, seria difícil acreditar em muitas coisas que digo, ou mesmo entendê-las. Fico surpresa ao constatar que apesar de na verdade ter dito muito pouco sobre isso verbalmente ao D. W., seu comentário sobre minha mãe foi como uma revelação (não uma interpretação analítica). Ele tornou possível e lícito para mim compreender muitas coisas que eu já sabia, havia observado ou que me disseram” (1992, p. 51). O reconhecimento da importância do ambiente no desenvolvimento psíquico levaria a situações nas quais “o manejo de setting” se faz imprescindível e também ao reconhecimento de momentos nos quais expressões do verdadeiro self tanto do paciente quanto do analista são vitais para a superação de impasses no processo analítico ou para o surgimento de novas facetas valiosas para a continuidade do trabalho desenvolvido. Ao escrever sobre a conceituação de elementos masculinos e femininos expelidos (split-off) encontrados em homens e mulheres, Winnicott relata passagem instigante vivida com um paciente. O paciente já havia realizado uma longa análise, mas apresentava dificuldades em terminá-la. Em determinada sessão, Winnicott relata a presença significativa do que usualmente denominamos “inveja do pênis”, algo incomum ao se pensar que o paciente em questão era um homem. A interpretação fornecida ao paciente foi: – “Estou ouvindo uma moça. Sei perfeitamente bem que você é homem, mas estou ouvindo e falando com uma moça. Estou dizendo a ela: você está falando sobre inveja do pênis”. Os efeitos da interpretação confirmaram sua pertinência. O paciente responde: “Se eu falasse a alguém sobre essa moça, seria chamado de louco”. Winnicott prosseguiu: “Não é que você tenha contado isso a alguém; sou eu que vejo a moça e ouço uma moça falar, quando na realidade, em meu divã achase um homem. O louco sou eu”. E em seguida afirma: “Não tive de elaborar esse ponto, porque a chave era aquela. O paciente disse que agora se sentia são, num ambiente louco. Em outras palavras, achava-se agora liberto de um dilema” (1975, pp. 105-106). Winnicott conclui: “Esse complexo estado de coisas apresentava uma realidade especial para esse homem, porque ele e eu fomos impulsionados à conclusão (embora incapazes de prová-la) de que sua mãe (que já não está viva) viu uma menina quando o viu como bebê, antes de passar a aceitá-lo como menino. Em outras palavras, esse homem teve de ajustar-se àquela idéia da mãe de que seu bebê, seria e era uma menina… mas a loucura da mãe, que viu uma menina onde existia um menino, fora trazida diretamente ao presente através de minha afirmativa: ‘Sou eu que estou louco’. (1975, p. 106). O trabalho psicoterápico teve continuidade nas sessões seguintes, e outra das conclusões de Winnicott foi: “Quando me concedi tempo para refletir sobre o que acontecera, fiquei intrigado. Não havia aqui qualquer conceito teórico novo, nenhum novo princípio de técnica. Na realidade, eu e meu paciente já havíamos percorrido antes esse campo. Entretanto, tivéramos, aqui algo de novo, novo em minha própria atitude e novo em sua capacidade de fazer uso de meu trabalho interpretativo” (1975, p. 108). À medida que o trabalho psicoterápico prossegue e ganha profundidade, surgem possibilidades de acontecimentos dessa ordem, semelhantes ao descrito por Winnicott em “O brincar e a realidade” (1975). Algo bastante diferente, inesperado surge para o par analítico trazendo à luz aspectos importantíssimos do passado do paciente e que, até então, não foram revelados. Em “Holding e interpretação” (1991), Winnicott relata a análise com um paciente homem, por meio da qual podemos acompanhar suas interpretações de angústias e conflitos edípicos. Em “Relato do tratamento psicanalítico de uma menina ‘Piggle’” (1979), Winnicott narra o trabalho realizado em 16 consultas terapêuticas – trabalho que ele denomina tratamento segundo a demanda. Ou seja, a menina comunicava a necessidade da realização de uma consulta, a qual era aceita por Winnicott. Angústias e conflitos edípicos foram profundamente trabalhados. Mais uma vez, ao lermos esses tratamentos conduzidos por Winnicott, torna-se presente a importância do ambiente e das figuras materna e paterna para a constituição e desenvolvimento psíquicos. O tratamento realizado por Winnicott com Gabrielle (Piggle) teve início quando a paciente contava com a idade de dois anos e cinco meses e finalizou quando tinha cinco anos e dois meses de idade. O posfácio do livro que relata a evolução de Gabrielle, após a conclusão do tratamento, dá-nos a confirmação de que as consultas realizadas possibilitaram trabalho integrativo imprescindível ao favorável desenvolvimento psíquico da menina. Esse tipo de tratamento, segundo a demanda, foi possível pelas boas condições ambientais presentes no caso de Gabrielle. Os pais e mesmo a menina tinham condições psíquicas favoráveis ao trabalho psicanalítico necessário para a superação dos sintomas e o movimento integrativo e evolutivo que foi realizado. Uma das conclusões sobre esse tipo de tratamento trazidas no posfácio do livro é: “O fato de os pais poderem participar de um processo de crescimento e reparação foi-lhes de grande valor. Tal participação evitou o que se pode freqüentemente observar: os pais sentem que foram ignorados e, dessa forma, talvez se predisponham a sentimentos de rivalidade e competição com o terapeuta; talvez tenham inveja do terapeuta e da criança, ou, alternadamente, para evitar tais sentimentos penosos, assim como para evitar a conduta obstrutiva insidiosa que pode deles resultar, os pais se retraem, saindo do campo de influências de um relacionamento vivo com a criança, simplesmente entregando-a a um profissional com mais conhecimento e prática” (1979, p. 173). Mais uma vez fica evidenciada a importância em se considerar a participação do ambiente em qualquer tratamento psicanalítico, tanto por seus fatores benéficos quanto pelos impeditivos. A inclusão da participação das falhas ambientais que foram significativas para o paciente nos remete ao surgimento de acontecimentos reveladores dessas falhas e que podem surgir por meio de expressões do verdadeiro self tanto do terapeuta quanto do paciente. Nesse âmbito, incluiria o que denominamos segundo uma visão winnicottiana “o gesto espontâneo” e a denominação que estou utilizando nesse artigo de “interpretação criativa”. Ao usar a expressão “não admito isso em um homem”, aspectos fundamentais do desenvolvimento psíquico do paciente puderam ser trazidos à revelação incluindo falhas de seu próprio ambiente. Ao dizer ao seu paciente “sou eu que estou louco”, Winnicott pôde trazer à tona aspectos essenciais do ambiente do paciente, decisivos para os processos integrativos necessários à finalização de sua análise. Rodman, na introdução do livro “O gesto espontâneo” (1990), compilação de inúmeras cartas escritas por D. W. Winnicott, ao abordar o tema aqui proposto, escreve: “Os que dizem que Winnicott colocou o valor terapêutico da relação com o analista acima do processo interpretativo compreendem mal e trivializam seu parecer, bem mais complexo. Seu trabalho sobrevive e continua sendo fecundamente citado em trabalhos sobre técnica precisamente porque seus textos, de aplicação ampla, não se conformam a tal classificação. Ele permaneceu firme como leitor do inconsciente e acreditando nas interpretações precisas, feitas no momento certo, como sendo o principal instrumento de mudança. Foi apenas no tratamento de pacientes profundamente perturbados que julgou ser indispensável uma fase de manejo (management). Tais pacientes, ao regressar ao ponto em que haviam falhado na primeira infância, exigiam um ambiente de apoio como um corretivo de onde poderia ser retomado o desenvolvimento. Uma versão da psicanálise como bondade profissionalizada, a psicanálise reduzida à empatia, ou a um longo processo cujo desfecho é a confirmação de que a vida do paciente foi realmente arruinada pelos pais, era algo inteiramente estranho a Winnicott. Ele disse que a “psicose é uma doença de carência”, mas sabia que chegar ao ponto de carência exigia um longo período de interpretação psicanalítica” (Rodman, 1990, pp. XXIX e XXX). E ao final da introdução de “O gesto espontâneo” (1990) Rodman conclui: “Ele procurava proteger ações delicadas, transitórias, do peso esmagador da classificação formal. Ele queria engendrar em outros o gosto pela ação experimental, a qual era, a seu ver, pensamento inspirado manifesto na segurança de uma relação. Ele trabalha, portanto, pela criação de condições que encorajariam a disposição de pacientes, analistas e cidadãos comuns a produzir contribuições únicas, a arriscar o gesto espontâneo. Ele celebrou o emergir do mundo interno em formas que outros pudessem contemplar. Ao dar ao conceito de associação livre de Freud uma definição ampla e harmonizada, ele promoveu o espírito psicanalítico a novas estruturas de relevância” (Rodman, 1990, pp. XXX e XXXI). Gostaria de concluir este artigo referendando a importância dos vários e diferentes “gestos espontâneos” e “interpretações criativas” invariavelmente presentes no dia-a-dia de nosso trabalho clínico. O aprendizado resultante, quer dos nossos acertos, quer dos nossos erros, poderá trazer contribuições valiosas nesse complexo caminho do gradativo aumento do conhecimento da natureza humana.

Referências

Abram, J. (2000) A Linguagem de winnicott. (M. da Silva, trad.) Rio de Janeiro, RJ: Revinter.

 Laplanche, J & Pontalis J.B. (1983) Vocabulário de psicanálise. (P. Tamen, trad.) São Paulo, SP: Martins Fontes.

Little, M. (1992) Ansiedades psicóticas e prevenção. (M. Fernandes, trad.) Rio de Janeiro, RJ: Imago.

Outeiral, J., Hisada, S., Gabriades, R. (Orgs.) (2001) Winnicott seminários paulistas. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.

Rodman, R. (1990) O gesto espontâneo – cartas selecionadas de D. W. Winnicott. (L. Borges, trad.) São Paulo, SP: Martins Fontes.

Winnicott, D. W. (1968) A interpretação na psicanálise. In Winnicott, C., Shepherd, R., Davis, M. (orgs., 1994). Explorações psicanalíticas D. W. Winnicott. (pp.163-166) (J. Aguiar Abreu, trad.) Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

Winnicott, D. W. (1975) O brincar e a realidade. (J. Aguiar Abreu e V. Nobre, trad.) Rio de Janeiro, RJ: Imago.

Winnicott, D. W. (1978) O ódio na contratransferência. In: Da pediatria à psicanálise. (J. Russo, trad.) Rio de Janeiro, RJ: Francisco Alves (Original de 1947).

Winnicott, D. W. (1979) The piggle relato do tratamento psicanalítico de uma menina. (E. Vieira & R. Martins, trads.) Rio de Janeiro, RJ: Imago. Winnicott, D. W. (1991). Holding e interpretação.

O analista no campo analisante: dos impasses às transformações possíveis.

https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/15302/1/Gina%20Tamburrino.pdf

Grupo de estudos: Indicadores de intersubjetividade

Carla Braz Metzner

https://www.entrelacer.com.br/event-details/grupo-de-estudos-indicadores-de-intersubjetividade-com-carla-braz

Indicadores de intersubjetividade: Do encontro de olhares ao prazer de brincar juntos – Victor Guerra | Com a psicóloga e psicanalista pelo Sedes Sapientiae, Membro do Dpto de psicanalise do Sedes Sapientiae. Mestranda da PUC de São Paulo, Carla Braz Metzner.

https://www.entrelacer.com.br/agenda

Captando algo humano

http://revistapercurso.uol.com.br/index.php?apg=artigo_view&ida=1108&ori=edicao&id_edicao=52

LEITURA

Rêverie e interpretação: captando algo humano [Rêverie e Interpretação]

Rêverie and interpretation: capturing something human

Gina Tamburrino
Marina F. R. Ribeiro Ribeiro

Rêverie e interpretação. Captando algo humano é um dos primeiros lançamentos da coleção Kultur da Editora Escuta. A coleção tem como principal objetivo a apresentação de temas que refletem sobre a “natureza e a cultura humana”. Não se trata de uma coleção versada apenas em autores psicanalíticos. Entretanto, é Thomas Ogden, um psicanalista norte-americano, o primeiro autor convidado a apresentar seu pensamento.

Rêverie e interpretação apresenta o conceito de rêverie com a profundidade esperada pelos clínicos da atualidade. É um livro que trata o tema de forma clara, sincera e sensível. É um verdadeiro presente para o clínico da atualidade.

Ogden prima por uma escrita lapidada; se autodenomina um “escritor analítico”, e faz jus a esta designação. O texto é claro, vivo, interessante, bem cuidado. Os capítulos do livro têm como origem artigos publicados na década de 1990. Há um prefácio para a edição portuguesa, de outubro de 2013, do qual destacamos três pontos. O primeiro é a liberdade de pensamento a partir da qual o autor se expressa: “Um tema que trespassa subliminarmente pelo livro é a ideia de que precisamos criar a psicanálise para cada paciente” (p. 15). Uma psicanálise viva é criada a cada sessão, com cada paciente. O setting é a moldura que permite o enquadre para dupla analítica criar. O segundo ponto é o desapego a dogmas: “Ao ler os artigos neste volume, artigos que escrevi há mais de quinze anos, espanta-me que, em sentido relevante, compreendia então um bocado de coisas que hoje luto para compreender”. O terceiro aspecto, importantíssimo, é quando ele escreve: “o papel indispensável dos ‘fracassos’ do analista em se concentrar naquilo que o paciente está dizendo (porque tais ‘fracassos’ constituem o lugar de nascimento da rêverie)”. Ou seja, onde o analista se percebe fracassando, aí está o nascimento da rêverie. Ideia que Ogden desenvolve no capítulo seis que honrosamente leva o nome do livro, rêverie e interpretação, e que constitui o capolavoro do texto.

O primeiro capítulo, Sobre a arte da psicanálise, é uma visão atual de como Ogden pensa o trabalho analítico. Assemelha-se e complementa o capítulo dois (Do que eu não abria mão) de outro livro do autor também publicado no Brasil: Esta arte da psicanálise. Sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos (Artmed, 2010). Ambos os capítulos apresentam uma visão humanista da psicanálise e da vida: “[…] creio que a tarefa analítica envolva mais profundamente o esforço do par analítico para ajudar o analisando a se tornar humano em um sentido mais amplo do que o que ele conseguiu até o momento” (p. 30). E, mais à frente, Ogden também desilude o leitor: “a incapacidade de ser plenamente humano é um aspecto do ‘destino de toda a humanidade'” (p. 32). E loca a análise aí: “é nesse esforço de sermos plenamente humanos que estamos vivos enquanto analista e analisando; é nesse experimento que vive a arte da psicanálise” (p. 34).

O autor abre o primeiro capítulo do livro com uma frase interessantíssima: “A palavras e frase, bem como a pessoas, deve-se facultar certa imprecisão” (p. 21), “pois estão em constante movimento” (p. 23). “A imaginação”, afirma ele, “depende de um jogo de possibilidades” (p. 21). Aquilo que é vivo é fluido e impreciso; a experiência analítica é dessa ordem, um desapego difícil de significados fixos; ao texto psicanalítico criativo também se deve facultar certa imprecisão.

É de grande beleza a aproximação que Ogden faz, também no capítulo um, da experiência humana de encontro entre o escritor analítico e o leitor e o analista e o analisando. O escritor analítico “deve” ser capaz de criar uma linguagem da experiência de vitalidade e/ou desvitalização humanas para si e para o leitor. Falar sobre vitalidade e desvitalização humanas não leva “ao aprender da experiência” (Bion, 1962) humana. É preciso criar sentido para poder transmiti-lo. E isto apenas se torna possível diante de uma fala dramática que comporta intimidade e pessoalidade. Ambos, escritor e leitor, precisam ter uma experiência de estar vivo e presente. “Para estar vivo e presente na própria linguagem, para ter ‘o próprio tom de voz da fala um pouco… emaranhado nas palavras’, a pessoa que fala pede que um aspecto seu seja reconhecido pelo ‘ouvido da imaginação’ (do ouvinte)” (p. 29).

Ogden, assim como Winnicott (um dos autores que o inspira, além de Bion, entre outros), consegue expressar o complexo com frases aparentemente simples. Não nos enganemos, Ogden escreve sobre a complexidade da interação humana, especificamente a analítica, de forma sofisticadamente simples, o que faz dele um dos destacados autores da psicanálise contemporânea.

Os capítulos dois e três são eminentemente clínicos, nos quais a bússola de Ogden é a análise de formas de vitalidade e desvitalização no processo analítico. A presença do conceito do terceiro analítico norteia o pensamento clínico do autor: “[…] compreendo o terceiro analítico intersubjetivo como um sujeito criado pela interpretação inconsciente analista e analisando” (p. 42). O autor trabalha com a concepção de Winnicott sobre “o lugar em que vivemos” (uma terceira área da experiência entre realidade e fantasia), e com a ideia de Bion de que o analista mantém vivos e traz à vida aspectos do paciente, através de uma continência bem-sucedida. Ogden dá especial relevo à espontaneidade do analista que o salva de uma neutralidade caricaturesca. A contratransferêcia é compreendida dentro da unidade transferência-contratransferência e “refere-se a uma construção inconsciente intersubjetiva” (p. 39). Há uma importante preocupação com as formas de manejo e com a técnica analítica para lidar com os sentimentos de vitalidade e desvitalização que emergem na experiência analítica.

O terceiro capítulo apresenta a análise da perversão através da “análise da transferência-contratransferência perversa tal como se desenrola na relação analítica” (p. 71). É uma visão ímpar o modo como Ogden dá a ver de que maneira “a cena analítica perversa e o sujeito perverso da análise são construídos […] pela dupla analítica com o objetivo de evitar [a dolorosa] experiência de morte psíquica […]” (p. 73). No caso clínico trazido pelo autor, vemos uma interessante discussão clínica sobre um caso de perversão e o uso da técnica: “Um elemento da técnica que se reflete na análise descrita é o uso que o analista faz de seus pensamentos, sentimentos, sensações, fantasias, devaneios, ruminações e outros, mundanos, reservados e cotidianos, no processo de tentar entender a rede de significados intersubjetivamente gerados que constituem a transferência-contratransferência” (p. 95). O que é um grande desafio em um caso de perversão que implica uma erotização defensiva, além de encenações (enactments) sexualizadas.

No capítulo quatro – Privacidade, rêverie e técnica analítica – Ogden retoma o papel do uso do divã enquanto dispositivo do processo analítico; o analista fora do campo visual do analisando possibilita “estados sobrepostos de rêverie”. O divã favorece a privacidade da dupla para entrar em contato com seus estados de rêverie; mas isso não significa que o analista deve “insistir (de forma explícita ou implícita) que todo paciente de análise use sempre o divã”. Discute a relação entre o número de sessões semanais com o uso do divã: deveria o analista usar o divã quando o número de sessões é menor do que a ideal? Nesse capítulo o autor também renuncia à regra fundamental da análise de que o paciente deve dizer tudo o que lhe vier à mente. Aborda o fato de que a “técnica deve facilitar o processo” (p. 114), e que tanto o paciente como o analista devem ter a liberdade de falar e de silenciar. Tanto a comunicação quanto a privacidade devem ser consideradas para preservar a vitalidade do processo analítico. Ogden apoia-se na concepção de Winnicott de que no âmago de todos nós há um elemento sagrado, isolado e não comunicável.

No capítulo cinco, o autor discute as associações de sonhos no contexto da sessão como um evento intersubjetivo, aliás, como tudo na sessão. Considerando sempre a intersubjetividade do terceiro analítico: […] “Visto que as associações do analista com a experiência do sonho são extraídas da experiência do sonho no e do terceiro analítico, elas não são menos importantes, enquanto fonte de significado analítico em relação ao sonho, do que as associações do paciente” (p. 131). Entretanto, reconhecer o terceiro analítico intersubjetivo e tecer elaborações a partir dele não é tarefa fácil, o analista precisa dar tempo para que o paciente “responda ao seu próprio sonho, pois isso pode dar margem a uma forma de encenação transferencial-contratransferencial (enactment) em que o analista se serve dos sonhos do analisando e lhe oferece uma invenção narcisista” (p. 139). A experiência de sonhar é uma “experiência humana que não pode ser traduzida em uma narrativa linear, verbal, simbólica, sem perder a sintonia com o efeito criado pela própria experiência de sonhar…”; essa experiência se opõe ao significado do sonho, e, portanto, à sua compreensão (p. 139). Ao final do capítulo, retoma que a técnica analítica deve “servir ao processo analítico”, e não engessar o analista em dogmas desvitalizantes para o processo, ou seja, a técnica deve favorecer o processo e não emperrá-lo!

Consideramos que o capolavoro do livro é o capítulo seis, pois traz uma lapidada descrição de rêverie: “[…] Trata-se de uma experiência primorosamente privada que envolve os mais constrangedores aspectos cotidianos (e ainda assim tão importantes) de nossas vidas. Os pensamentos e sentimentos que a constituem são raramente discutidos com nossos colegas” (p. 146). E, mais à frente: “Paradoxalmente, apesar de o analista sentir suas rêveries como privadas e pessoais, é enganoso vê-las como ‘suas’ criações próprias, já que são, ao mesmo tempo, construções intersubjetivas inconscientes criadas em conjunto (embora assimetricamente), que chamei de ‘o terceiro analítico intersubjetivo'” (p. 147).

Ogden considera que o analista precisa tolerar “a experiência de estar à deriva” (p. 148), de ser levado pelas correntes inconscientes presentes na sala de análise. Entende que o movimento analítico é mais um estado de “deslizando em direção a” do que “chegando a” (p. 148).

A rêverie gera um desequilíbrio emocional no analista. “Os distúrbios emocionais associados com a rêverie geralmente são sentidos pelo analista como produto da interferência de suas preocupações do momento, de excessiva autoabsorção narcísica, imaturidade, inexperiência, fadiga, treino inadequado, conflitos emocionais não resolvidos, etc. A dificuldade de usar as rêveries no exercício da análise é facilmente compreendida, uma vez que tal experiência é tão próxima, tão imediata, que é difícil de ser vista: ela é, nas palavras de Frost (1942), ‘presente demais para se imaginar'” (p. 150).

A experiência de rêverie é sempre um elemento desorganizador para o analista, que ele tende a descartar, a se envergonhar, a considerar uma inabilidade, uma falha técnica. E, ao mesmo tempo, é a bússola emocional do analista, se ele tiver a condição e a liberdade psíquica de considerá-la; não é uma tarefa fácil. “Não há como ‘pular fora’ dos problemas ao se fazer o esforço de utilizar analiticamente a rêverie” (p. 150).

Após a apresentação de um interessantíssimo caso clínico, o autor concebe “o processo analítico envolvendo a criação de novos eventos intersubjetivos inconscientes que nunca antes existiram na vida afetiva, seja do analista seja do analisando” (p. 174). Ogden evidencia, em sua apresentação clínica, como suas rêveries e os sonhos da paciente “são criados no ‘mesmo espaço onírico analítico intersubjetivo'” (p. 175). A análise é um processo transformador tanto para o analista quanto para o paciente, ou seja, o analista está completamente implicado no processo, sempre considerando a assimetria da dupla. Lembramo-nos da metáfora de Bion sobre o processo analítico: o analista está no campo de batalha; assim como o analisando, pode matar ou morrer, mas tem a responsabilidade de o comando, no caso da análise, manter-se pensante.

Ogden termina o capítulo escrevendo que considera o uso das rêveries no trabalho analítico como um componente fundamental da técnica analítica. As rêveries nascem “da complexidade infinita do interjogo da vida inconsciente do analisando e do analista e das sempre mutantes construções inconscientes geradas pela ‘sobreposição’ dos dois” (p. 180).

No capítulo sete, Ogden discorre sobre o uso da linguagem em psicanálise, tanto a linguagem na sala de análise como a linguagem escrita. “O experimento de escrever, ler e escutar […] tem muito em comun com o experimento de pensar, sentir e comunicar que está no cerne da experiência analítica” (p. 186). A linguagem que comunica a experiência inconsciente precisaria ser insaturada nos termos de Bion, ou seja, quando uma linguagem sempre aberta a novos significados se fixa em um sentido, esse é provisório. Essa é a linguagem viva, sempre aberta a novos sentidos: “é essencial que o analista use linguagem que aspire a uma forma específica de imprecisão evocativa, às vezes enlouquecedora, quase sempre perturbadora” (p. 196). De forma delicada, Ogden aproxima o leitor da riqueza que existe em compreender menos e experimentar mais a/na experiência analítica: como é escutar esse paciente? como é estar com esse paciente? Não se trata de compreensão, mas de um processo de não “saber demais” (Winnicott, 1971). Ou, trata-se da prática da “arte de nãochegar (ao significado exato)” (Poirier, 1992).

O capítulo oito é um interessante exercício analítico literário; Ogden inicia o texto assim: “[…] Acrescentaria que a poesia é um grande disciplinador para a escuta analítica” (p. 211). Analisa três poemas de Frost e, ao final, escreve: “o poema não é sobre uma experiência; a vida do poema é a experiência” (p. 236). Diríamos que a vida, a vitalidade de uma sessão é a experiência transformadora que pode ocorrer através da e para a dupla analítica, mas para que isso ocorra precisamos estar à deriva das emoções inconscientes que circulam na sala de análise.

Ler Ogden é uma experiência transformadora, para aqueles que ousam se destituir da ilusão do conhecimento, e ficar à deriva.

A palavras e frases, bem como a pessoas, deve-se facultar certa imprecisão.

Boa leitura!