Coelho, corre!

Existem muitas listas de livros importantes , escritos em várias épocas, que por diversas razões resistem ao tempo e mantém-se sempre atuais. “Todo leitor é, quando está lendo, um leitor de si mesmo” diz Proust. Alguns autores conseguem tocar a muitos pela universalidade das questões que colocam em seus personagens, nos enredos, na forma de sua escrita. Tenho trabalhado com a perinatalidade há alguns anos e vinha procurando algum personagem para me guiar e ajudar com a pesquisa que conduzo em psicanálise sobre o que é ser pai. Na clínica, para além da depressão pós parto materna que está sob os holofotes há bastante tempo, sabemos que prestar auxílio aos homens que se tornam pais faz toda a diferença, em muitos casos. Como é a mulher que dá à luz e amamenta, facilmente colocamos na sua conta a infinidade de problemas que podem surgir nas primícias da vida… esquecendo que é preciso de uma tribo para cuidar de uma criança. Na pandemia, com o desmonte das redes de apoio, mães tem adoecido, casamentos e uniões tem se desfeito, crianças estão regredindo em suas habilidades sociais. É importante pensar sobre isso.

Eu já conhecia os livros de Jonh Updike, autor contemporâneo, que seguem a vida de Harry Angstron, o Coelho. Lembrei-me de Coelho quando de tanto ver pais abandonarem o barco diante dos impasses do relacionamento e da paternidade procurei um personagem que pudesse me contar, sem julgamentos morais, das dificuldades que enfrentam. Muitas mulheres chegam transtornadas e muitos filhos seguem a vida com as feridas abertas do abandono paterno, feridas muito difíceis de sarar. O que está acontecendo? Será que foi sempre assim? Coelho abandona sua mulher grávida logo no início do livro de Updike. Ele tem uma dificuldade grande de sequer formular para si mesmo o quanto se sente enredado no casamento e numa vida oprimente, sem criatividade, sem novidade. Vive numa solidão ao lado da frágil esposa a quem ama e odeia na mesma medida. Mas o que nos chama atenção é como Coelho, diante de tantos sentimentos contraditórios e com os quais não consegue lidar, age por impulso : escapando, escapando sempre.

Jonh Updike disseca a mente de Coelho sem falsos moralismos. É um homem sensorial, cheio de qualidades, porém impulsivo e imaturo. Coelho é sedutor e meigo, mas não conseguiu chegar ao estágio do concernimento, o estágio do amor objetal, em que os sentimentos e desejos das outras pessoas são reconhecidos e levados em conta. Mas, paradoxalmente, não é má pessoa. Coelho tenta ser um pai mas está ainda muito fixado à própria adolescência. Na primeira cena do livro, chegando do trabalho encontra uns garotos jogando basquete num terreno perto de sua casa. O homenzarrão tira o paletó e joga com os garotos, sentindo felicidade por perceber que ainda consegue ser bom no esporte que lhe trouxe tanta glória no tempo da high school . Chega em casa e o que encontra o exaspera: a mulher barriguda, com a gestação avançada, a casa em desleixo, o barulho infernal da televisão. Coelho sai para pegar o filho na casa da avó e o vê comendo na mesa com seus pais… sente que o menino ali, sendo cuidado, é muito mais feliz que ele! Então foge, foge, dirige o carro a noite toda pelo estado da Pensilvânia, sem saber para onde ir. O pastor de Coelho, imbuído do desejo de ajudar a refazer a família, traz o homem de volta no dia do parto da esposa. Coelho se sente culpado… mas o desenrolar dos acontecimentos vai tornando as coisas cada vez mais difíceis para ele.

Sua relação com o pastor é muito interessante: uma advertência para nós, terapeutas, sobre os riscos do aconselhamento que não leva em conta a situação psíquica dos sujeitos. Um terrível acidente joga o personagem num luto impossível de realizar, e novamente ele foge, foge… abandonando sua esposa pela segunda vez. Há uma tipo de culpa que impede o sujeito de lidar com a realidade. Seu peso é tamanho, a dor dessa culpa é tão insuportável, que só resta ao homem escapar para fora de si mesmo. O homem está perseguido por dentro e não consegue mais pensar: só lhe resta o movimento e a fuga. Coelho é a bola que some das suas mãos quando se sente marcado no jogo de basketball– acuado, ele engana o adversário num passe muito rápido, se torna puro movimento, pura ação.

A fuga para a ação, para os braços de outra mulher, para o colo da própria mãe ou para as drogas e álcool estão entre os mecanismos de defesa que mais encontramos nos homens que adoecem nas crises da perinatalidade. Coelho corre, não consegue pedir ajuda, e os que tentam ajudá-lo ficam todos para trás.

É um lindo e honesto livro para entender alguns meandros da mente masculina. Hoje, 15 de julho, é o dia do homem.

Catedral de Guaxupé- MG
Uma das musicas mais lindas sobre a paternidade: Jose Miguel Wisnik

Amamentação e sexualidade: falando sobre isso

O processo de amamentação é de grande riqueza quando pensamos na sintonia que com ele se estabelece entre a mãe e o bebê. Para mais além das vantagens nutricionais e imunológicas, na amamentação há aspectos emocionais que contribuem para o desenvolvimento, no bebê, da experiência de continuidade de ser. A idéia da continuidade de ser é formulada por Winnicott considerando que o bebezinho tem uma pequena capacidade de tolerar os estresses ambientais: barulhos fortes, alterações de temperatura, e até a própria fome que ele não tem condições de perceber que vem de dentro dele mesmo ! Sensações ruins desorganizam o bebê, e cabe à mãe ou aos que dele cuidam garantir a ele um ambiente acolhedor, quentinho, transições suaves , e o atendimento às suas necessidades : que no início são muito grandes. Quem já cuidou de um bebê pequeno sabe que há um grau de exigência alto do ambiente para que tudo corra bem. A tarefa que pode parecer simples é de fato muito complexa, demandando dedicação e amor. Na amamentação que corre bem, o bebê experimenta a sensação de que o seio está lá exatamente quando ele precisa, e essa sensação aumenta a sua experiência de continuidade de ser. Obviamente para que isso ocorra a mãe estará muito atenta e sintonizada com ele. Essa é a grande riqueza da experiência de amamentação de que nos fala Winnicott.

Pode parecer estranho falar de amamentação e sexualidade se pensamos na sexualidade genital, associada à procriação e ao erotismo adulto. Mas do ponto de vista psicanalítico a sexualidade é muito mais ampla, diz de todos os prazeres que vem do corpo e faz parte da vida , nos ligando aos objetos do mundo. Para o bebê o prazer oral de mamar e sugar está conectado ao seu modo de alimentação . Por isso a gratificação de suas necessidades neste âmbito torna-se uma experiência emocional , afetiva. Para a mãe, amamentar também se torna prazeroso ( embora possa haver muitas dificuldades iniciais), e no processo de alimentar o bebê a mãe se conecta ainda mais a ele.

É natural que no puerpério a sexualidade se desloque,do ponto de vista da mãe , para o bebê – e o seio que foi uma zona erógena de prazer para o casal esteja agora ligado ao processo da amamentação, em outro registro libidinal. É importante falar do pai ( ou parceiro- parceira) que em alguns momentos pode se sentir excluído da relação mãe- bebê. Mas o tempo passa e chega o momento em que a adaptabilidade quase perfeita deixa de acontecer: o bebê já pode esperar, e a mãe já deseja retomar aspectos da sua vida que foram deixados de lado no processo. O casal parental deseja retomar sua vida erótica genital, voltar a namorar. Sobre isto falaram Cleyton e Denise, pediatra e psicanalista, na live abaixo. Vale conferir.

( texto de Arianne Angelelli)

Live realizada em 20/08/20 com o pediatra Cleyton Angelelli e Denise Feliciano

O abraço partido

De repente, neste dia dos pais, penso naqueles que não tem o seu pai consigo. Na falta que faz um pai.

Tem os pais que já morreram, mas também tem os pais que foram embora, tem os pais que nunca estiveram aqui. Quando um pai vai embora, em seu lugar ficam muitas perguntas. Outros podem exercer o seu papel, mas o abandono de um filho por seu pai é difícil de entender, do ponto de vista do filho. Os laços que ligam um pai ao seu filho não são somente biológicos. Divórcios difíceis, relações fugazes, situações externas…e os pais muitas vezes vão embora. No nosso trabalho de analistas encontramos muitas destas feridas . Pais que se sentem estranhos em relação aos seus filhos, filhos que mal conhecem, ou não conhecem seus pais. É bem dolorido pensar que o pai faltou em sua vida- qual a razão para este abandono…. Falo aqui , mesmo, desta pessoa, deste homem, que veio e partiu. A função paterna, esta, pode ser exercida por outras pessoas. Pode-se crescer, pode-se amar, trabalhar, sem a presença do pai. Mas fica uma dor quando ele parte, pois em nosso íntimo sabemos que este homem se furta a uma responsabilidade, e sua partida é abandono. Para a criança é difícil enxergar quando a ponte entre si e seu pai está obstruída pela própria mãe, ou pela força de alguma circunstância. O abandono é intransitivo.

Muitas vezes, o tempo passa e as circunstâncias mudam. Quando se reencontram pai e filho, pode haver reparação e a criação de outras pontes, sobre as ruínas daquela que foi destruída. O tempo que passou, não volta. Mas as memórias podem ser relidas com as lentes da compreensão. Pode-se enfim dizer, em muitos casos, que entre um pai biológico e um filho nada existe- e passar do rancor à gratidão por aqueles que garantiram sua vida e a sustentaram com seus laços amorosos. Porém, negar a dor não faz com que desapareça. Se pranteada, o luto necessário pode acontecer…a dor toma um destino e pode parar de doer.

Como se constroem as pontes que ligam o pai e seu filho? A lei garante a pensão, mas a ponte, não. É difícil aprender a amar alguém a quem não se viu crescer. Os momentos repartidos valem mais que mil presentes.

A história de Ariel , no filme “O Abraço Partido” ( Daniel Burman, 2004) é a história de muitos que se sentem abandonados pelo pai. No decorrer do filme, percebemos as dores da família, de origem judaica, que permanecem encriptadas por conta das violências e rupturas sofridas. Em uma conversa com sua avó, Ariel descobre que ela era cantora, e não cantou mais depois que deixaram a Polonia:

Ainda nao sei… quando escapamos do gueto com seu avô, viemos à Argentina. Não tinhamos nada. Eu, em Varsovia, cantava em um clube, com as meninas.

-você cantava?

-Sim , mas quando nos instalamos na Argentina, o avô não quis que eu cantasse mais.

-Por que?

-Dizia que lhe recordava o horror, sua família, amigos que já não estavam… e eu para não fazê-lo sofrer…cantava para dentro…o que eu amava cantar, cantava em minha mente.

Ariel quer fazer o caminho inverso, sair do país em crise e tornar-se cidadão europeu. O pai, que partiu para a guerra de Yom Kipur, ele não conhece. O pai perdeu seu braço na guerra. Quando tenta se reaproximar, depois de anos, encontra uma resistência por parte de Ariel. Assim, a ruptura e a perda vão se reeditando; a avó que não canta, o pai que perdeu o seu braço, o moço que não conheceu o seu pai. O reencontro entre Ariel e seu pai Elias é o ponto alto do filme, uma cena muito bonita, que nos toca pela sua dramaticidade e verdade. Percebemos no olhar do pai que o filho sempre esteve presente em seu coração.

Muitas vezes na tentativa de ouvir as feridas dos abandonados, encontramos histórias de abandonos transgeracionais e suscessivos. Um pai que deixa seu filho à própria sorte carrega consigo também esta marca:

“    Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo. Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas”. Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía.

Este é um trecho do livro “O filho de Mil homens” de Valter Hugo Mãe. O pai de Ariel, Elias, também lhe falta um pedaço: o pedaço dos abraços que não pôde dar em seu filho enquanto ele crescia.

Este dia dos pais, dedico aos pais e aos filhos que não puderam se abraçar.

Nesta cena, Ariel vê seu pai, reconhece a falta do braço que ele perdeu na guerra. Sua reação nos dá a ideia da dimensão da sua angústia.

Jornada da Saúde Mental da Mulher

https://www.ceip.org.br/cursos-e-eventos/jornada-de-saude-mental-da-mulher/

uma jornada sobre a saúde mental da mulher

o pai no pós parto

A elaboração psíquica do processo gravídico puerperal e do fenômeno da parentalidade ocorre em homens e mulheres e o processo ocorrido com o pai tem sido menos documentado. A paternidade é um momento de crise para o homem, que, quando adoece, tende a apresentar mais sintomas externalizantes e ter sua depressão não reconhecida pelos profissionais de saúde.

As Aventuras do Avião Vermelho: Um Sonho de Potência e Reparação

Foto da copa do livro  de Erico Verissimo editada pela Companhia das letrinhas- Ilustrações de Eva Furnari

Artigo publicado e apresentado no II Colóquio de Psicanálise com Crianças  realizado no instituto Sedes Sapientiae em  10 e 11 outubro de 2014
Onde está o pai? Desafios da atualidade na clínica com Crianças
As Aventuras do Avião Vermelho: Um Sonho de Potência e Reparação 
Por Arianne Monteiro Melo Angelelli

Resumo – Por meio de uma análise do texto de Erico Veríssimo, mergulhamos nas fantasias inconscientes de uma criança cujo comportamento é agitado e desafiador. O pai deste menino o presenteia com um livro na tentativa de auxilia-lo em suas dificuldades, e através da vivência de um sonho com os elementos da história, a persecutoriedade e voracidade desta criança encontram um canal para a simbolização. A hiperatividade nas crianças é um sintoma pouco específico e somente a observação aprofundada pode auxiliar na compreensão das raízes do comportamento; sendo possível que a agitação configure defesa contra ansiedades depressivas decorrentes de dificuldades iniciais da vida. O pai, mais do que aquele que introduz a “lei” e insere a criança na triangulação edípica, também pode ser aquele que fornece o holding necessário para o desenvolvimento. Palavras-chave: hiperatividade, voracidade, holding, pai

Como dizia Freud, “é muito difícil formar uma opinião sobre se, e em que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes»(1), e isso é verdadeiro quando pensamos sobre as crianças de hoje. Fala-se muito sobre o declínio do poder paterno (2), e o afrouxamento nos laços humanos, nestes nossos tempos líquidos (3) : a família em crise. Mas quando recebemos um certo tipo de crianças, aquelas agitadas, hiperativas, sem limites, as dicotomias que separam o paterno e materno, a mente e o cérebro, não parecem trazer ajuda. O que está mesmo acontecendo com as crianças da pós-modernidade? Estão sem Pai, são porta vozes de doença social e familiar, da falta de limites generalizada, do furo do pacto edípico (4)? Ou estão sem Mãe, na medida em que seu comportamento disfuncional expressa deprivações, perdas precoces? Seriam estas crianças: neurologicamente deficitárias, incapazes da atenção sem ajuda de medicamentos ou ansiosas e deprimidas, encontrando na agitação equivalentes maníacos de defesa? Na aparente desorganização familiar atual, em que antigos papéis se intercambiam, há muita instabilidade, mas a chance de trazer o pai para mais perto, com suas valências femininas e masculinas, pode ser um dos ganhos dos novos tempos. A proposta deste trabalho é uma leitura reflexiva sobre um conto de Érico Veríssimo, “ As Aventuras do Avião Vermelho”(5). Uma criança com problemas de comportamento ganha do pai um livro e um brinquedo que a ajudam a elaborar uma rica fantasia onde ansiedades são elaboradas. O conto pode ser dividido em três partes. Na primeira, o pai interage com o filho e apresenta a ele os objetos de que fará uso na sua fantasia, ou sonho; um livro de histórias, um avião de brinquedo e uma lupa de diminuir, usada para que o menino possa encolher, entrar dentro do avião e partir em viagem. Na segunda parte, ocorre a aventura: o menino e dois companheiros, voando no avião de brinquedo, pousam na lua feita de gelo, e a seguir iniciam uma série de viagens, perseguições e fugas: permeadas pela ameaça constante de serem devorados: pela cobra, pelo porco e pelos canibais que encontram pelo caminho. Na terceira parte, dois acidentes: o avião cai no mar e logo depois cai de novo por causa de uma ventania, sofrendo um tombo “horrível” (o nascimento?) quando passa pela chaminé e desperta no escritório do pai, onde precisa crescer novamente. Vejamos o que nos diz a história: “ Chamava-se Fernando. Era um menino muito gordo. Gordo e travesso. Travesso e brigão. Um dia papai viu Fernando sentado num canto da varanda e perguntou: “ Meu filho, por que é que tu és tão travesso, brigão, malcriado? “ – Porque sou valente!” – rosnou como um leão que está começando a ficar zangado.” Compreendendo quanto de tormenta e medo existe na valentia de Fernando, o pai escolhe o livro certo, a história do “Capitão Tormenta” , e presenteia o menino, expressando seu desejo de que haja uma mudança no filho. O herói, com quem Fernando se identifica imediatamente, é aviador e viaja pelo mundo enfrentando todo o tipo de perigos. Então o menino pede ao pai também um avião, e ganha o aviãozinho de brinquedo. Ao trazer para o filho a escuta, a compreensão, livro e brinquedo, o pai exerce uma função dupla. Ele é aquele que traz a palavra, o limite. Mas também fornece holding e apresenta ao menino o objeto que será de uso transicional, senão vejamos: Fernando, com o avião, “ foi para o quarto e começou a brincar. brincou muito tempo”. O pai também nomeia a “Tormenta” que é o filho: tormenta em casa, a fazer estripulias, tormenta que agita o ambiente, como uma tempestade, e mais além, criança atormentada, amedrontada, que se diz valente (6). E a interação entre pai e filho continua. Fernando conta ao pai que quer viajar como o capitão Tormenta. “– Papai – disse Fernandinho com voz tremida eu também tenho vontade de viajar de avião. – Pois sim, meu querido, quando ficares grande poderás entrar num avião. – Não, papai, eu acho que só posso entrar num avião quando ficar pequeno.” Enquanto o pai entende que o desejo do filho é ser grande, para poder penetrar no avião (sexualidade adulta ?), Fernando pensa em como ficar pequeno para pode entrar no avião de brinquedo , e ficar pequeno de novo é regredir, para retomar o desenvolvimento. Senão vejamos: “O pai … era engenheiro. tinha um escritório cheio de máquinas, réguas, compassos… – Como é o nome daquilo, pai? – Aquilo se chama lente. – Para que serve? – Para aumentar as coisas. – E aquela? – Aquela, ao invés de aumentar as coisas, diminui. “quando a gente bota esse vidro em cima duma coisa, essa coisa fica pequena, não fica? pois então vou botar esse vidro em cima de mim e vou ficando pequeno, pequeno, até poder entrar no avião.” Como a Alice de Lewis Carroll, Fernando ora é grande, ora pequeno, menino medroso que aterroriza os demais, mas a descoberta da lente do pai permite a formulação de uma ideia de relatividade, além da possibilidade, da oportunidade de regredir (colocar-se sob a lente de diminuir). Ele observa as coisas ficarem grandes ou pequenas sob as lentes, entende que não é adulto ainda. Mas para o menino, importa menos ser grande e ter um pênis como o do pai, já que o que ele precisa é voltar a ser o bebê que entra, ou é contido, pelo pai avião, para elaborar uma fantasia de cura. (7). Na segunda parte da história, já Capitão Tormenta, depois de ser reduzido ao tamanho do seu avião, Fernando viaja à Lua, e “lá tudo era de gelo”. O aspecto inóspito da lua é negado. O herói usa uma “casacão de pelo” e não sente o frio. (Uma referência à obesidade?). Descobre que na lua tudo acontece “ao contrário” mas não sente perplexidade, aproveita para tomar sorvete de graça, comendo estrelas ainda vivas: “O empregado tirou sorvetes de uma lata; depois espichou o braço, furou o teto da casa e apanhou lá no alto três estrelinhas, que soltaram gritos de susto.” Temos aí a infeliz combinação da mãe deprimida (Lua fria) com a criança voraz, que encontramos na clínica com frequência . Ainda incapaz de concernimento, o menino e o avião quase atropelam uma estrela ao partirem “A estrela, muito delicada, pediu desculpas…o avião voltou a cabeça para ela e botou a língua para fora. Que mal-educado!” Começa agora a segunda parte da viagem, passando por uma cidade esquisita, pela China e pela África, pelo encontro com um zepelim e o mergulho no mar. Nessa jornada, repetidas vezes a fantasia de devorar e ser devorado se corporifica: “De repente viram um monstro. Era uma cobra enorme. Preta e amarela. A cobra abriu a boca…e segurou com os dentes o rabo do aparelho, que soltou um grito: – Ai! vou morrer envenenado!” Ou ainda: “de repente apareceu um porco gordo, abriu a boca e os engoliu.” E na África: “Desceram na África, mas foram muito sem sorte. Caíram bem no meio de uma aldeia de selvagens. Ficaram prisioneiros dentro de um porongo. O porongo era muito escuro. Os exploradores compreenderam que iam ser queimados.” Sempre salvos pelo avião vermelho, o menino e seus amigos são quase devorados por três vezes. Por fim passam a ser os devoradores: encontram um zepelim, feito de marmelada, chocolate… e começam a comê-lo. Então: “o comandante do dirigível estava naquele momento examinando a barriga do seu navio aéreo, que se queixava de dores muito fortes. Viu os aventureiros: – Piratas” Comeram um pedaço do meu zepelim!” Outra perseguição acontece, ocasionando a queda do avião no mar , quando se transforma num submarino. O surgimento de um clima depressivo introduz a passagem para a terceira parte do conto. “a água estava fria. ficaram muito assustados.” “e agora, o que vamos comer?” Mesmo depois da tempestade, de novo no céu, não demora muito para o avião cair outra vez: “e o avião vermelho foi arrastado para a terra.” “o tombo foi horrível”. E a catastrofe continua: caem dentro de uma chaminé, e dentro dela, se machucam: “o avião ficou com um olho preto. O ursinho perdeu muitos pelos…Fernandinho ficou com um galo na cabeça” Os machucados dos amigos na passagem pela chaminé podem ser interpretadas como reminiscências do trauma do nascimento, mas também como a falência das defesas maníacas, simbolizada pela queda, o frio, os machucados, o medo. Seria um momento depressivo que ocorre após o ataque sádico ao corpo da mãe, quando comem o zepelim? O medo do colapso já vivido? Pois aqui elementos semelhantes em sua forma e função, quais sejam: zepelim e porco, em cujas “barrigas” Fernando se aloja, primeiro engolido, e depois ativo devorador, além de representarem fantasias primitivas relativas ao engravidamento e ao nascer, correlacionam-se com a figura da Lua inicial, todas representativas do feminino e carregadas de ambivalência. Enfim, a figura do pai reaparece quando despertam contentes em seu escritório (mesmo que machucados pelo tombo): “– Agora precisamos crescer de novo!” O desfecho da aventura é a retomada da realidade, incluindo o sermão do pai que encontra o avião “espatifado” na lareira. Mas a criança, agora apaziguada, já de posse de novos recursos, não mais atua a angústia no comportamento; “ Fernandinho compreendeu tudo. Papai não sabia da aventura… quando a gente é pequeno, do tamanho de um dedo mindinho, cada dia dos homens vale cinco dos nossos. Foi uma aventura muito engraçada…Fernadinho até hoje fala nela” Neste conto, a profusão de elementos : lua fria, agua fria, perseguidores devoradores e a dinâmica maníaca da criança podem nos fazer supor alguma falha inicial dificultando a integração das ansiedades primitivas, de modo que apesar de ter havido desenvolvimento, permaneceu uma tendência à agitação, à dissociação , à voracidade e ao comportamento disruptivo, desafiador, expressão última da angústia e temor sentidos. A natureza maníaca da defesa esconde ansiedades depressivas: “arrastado para a terra. o tombo foi horrível”. Aqui vale o comentário de Winnicott “ as fantasias onipotentes não são tanto a realidade interna propriamente dita quanto uma defesa…nos tão frequentes livros de aventuras .. o autor…não tem consciência das ansiedades depressivas das quais fugiu. Sua vida foi cheia de incidentes e aventuras… baseado… na negação da sua realidade interna pessoal ” …(10) Podemos pensar o Capitão Tormenta como um menino a- atormentado pelo próprio sadismo oral projetado nos objetos (8). Gordo, travesso, e brigão, defende-se como pode das ansiedades depressivas e da mãe- morta, Lua “gelada”, que não acolhe(u). Quando o pai oferece livro (com as palavras certas), brinquedo e instrumentos, estes funcionam como um objeto criado-encontrado (9), seio que nutre e falo gerador de potência, elementos que o menino utiliza na construção de uma fantasia de cura (7), que é o re-nascimento. O pai da história apresenta vivacidade, ao lidar com o menino diretamente em suas questões edípicas, sob a lógica fálica, e tem boa capacidade feminina, ao se permitir penetrar por este filho (“papai, eu acho que só posso entrar num avião quando ficar pequeno”). É o holding paterno que propicia a Fernando a possibilidade de relaxar e brincar.
referências bibliográficas
1- Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização [1929/1930]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 2006, v. XXI
2- 2-Neder Bacha, Marcia. Déspotas mirins: o poder nas novas famílias. São Paulo: Zagodoni Editora, 2012
3- 3-Bauman, Zigmunt. Amor liquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
4- 4-Pellegrino, Hélio. Pacto Edípico e Pacto Social (Da Gramática do Desejo à semvergonhice Brasílica). In: Folhetim da Folha de São .Paulo, setembro, 1983.
5- Veríssimo, Erico. As aventuras do Aviao Vermelho. Sao Paulo: Companhia das letrinhas, 2003.
6- Di Loreto , O . Argumentando a favor de posições tardias. In Posições tardias. Contribuições ao estudo do segundo ano de vida. São Paulo. Casa do psicólogo,2007.
7- 7-Aberastury, A. Psicanálise da criança. Teoria e técnica. 8. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992
8- 8-Klein, M (1996) Estágios iniciais do conflito edipiano. In: Amor, culpa e reparacão e outros trabalhos- 1921-1925. Trad. A. Cardoso Rio de janeiro: Imago
9- 9-Winnicott, D. W. (1975) Objetos transicionais e fenômenos transicionais (1951) In Da Pediatria à Psicanalise :obras escolhidas. Trad. Davi Bogomeletz. Rio de Janeiro: Imago, 2000.
10- 10- Winnicott, D.W ( 1975) A defesa maníaca ( 1935) in Da pediatria á psicanalise: obras escolhidas. Trad. Davi Bogomeletz. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

A obra de Erico Verissimo foi transformada em animação em 2104 Frederico Pinto e José Maia

http://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise_crianca/coloquio2014/images/Anais_IIIColoquio_2014.pdf

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