Gustav Klimt- The family

Coelho, corre!

Existem muitas listas de livros importantes , escritos em várias épocas, que por diversas razões resistem ao tempo e mantém-se sempre atuais. “Todo leitor é, quando está lendo, um leitor de si mesmo” diz Proust. Alguns autores conseguem tocar a muitos pela universalidade das questões que colocam em seus personagens, nos enredos, na forma de sua escrita. Tenho trabalhado com a perinatalidade há alguns anos e vinha procurando algum personagem para me guiar e ajudar com a pesquisa que conduzo em psicanálise sobre o que é ser pai. Na clínica, para além da depressão pós parto materna que está sob os holofotes há bastante tempo, sabemos que prestar auxílio aos homens que se tornam pais faz toda a diferença, em muitos casos. Como é a mulher que dá à luz e amamenta, facilmente colocamos na sua conta a infinidade de problemas que podem surgir nas primícias da vida… esquecendo que é preciso de uma tribo para cuidar de uma criança. Na pandemia, com o desmonte das redes de apoio, mães tem adoecido, casamentos e uniões tem se desfeito, crianças estão regredindo em suas habilidades sociais. É importante pensar sobre isso.

Eu já conhecia os livros de Jonh Updike, autor contemporâneo, que seguem a vida de Harry Angstron, o Coelho. Lembrei-me de Coelho quando de tanto ver pais abandonarem o barco diante dos impasses do relacionamento e da paternidade procurei um personagem que pudesse me contar, sem julgamentos morais, das dificuldades que enfrentam. Muitas mulheres chegam transtornadas e muitos filhos seguem a vida com as feridas abertas do abandono paterno, feridas muito difíceis de sarar. O que está acontecendo? Será que foi sempre assim? Coelho abandona sua mulher grávida logo no início do livro de Updike. Ele tem uma dificuldade grande de sequer formular para si mesmo o quanto se sente enredado no casamento e numa vida oprimente, sem criatividade, sem novidade. Vive numa solidão ao lado da frágil esposa a quem ama e odeia na mesma medida. Mas o que nos chama atenção é como Coelho, diante de tantos sentimentos contraditórios e com os quais não consegue lidar, age por impulso : escapando, escapando sempre.

Jonh Updike disseca a mente de Coelho sem falsos moralismos. É um homem sensorial, cheio de qualidades, porém impulsivo e imaturo. Coelho é sedutor e meigo, mas não conseguiu chegar ao estágio do concernimento, o estágio do amor objetal, em que os sentimentos e desejos das outras pessoas são reconhecidos e levados em conta. Mas, paradoxalmente, não é má pessoa. Coelho tenta ser um pai mas está ainda muito fixado à própria adolescência. Na primeira cena do livro, chegando do trabalho encontra uns garotos jogando basquete num terreno perto de sua casa. O homenzarrão tira o paletó e joga com os garotos, sentindo felicidade por perceber que ainda consegue ser bom no esporte que lhe trouxe tanta glória no tempo da high school . Chega em casa e o que encontra o exaspera: a mulher barriguda, com a gestação avançada, a casa em desleixo, o barulho infernal da televisão. Coelho sai para pegar o filho na casa da avó e o vê comendo na mesa com seus pais… sente que o menino ali, sendo cuidado, é muito mais feliz que ele! Então foge, foge, dirige o carro a noite toda pelo estado da Pensilvânia, sem saber para onde ir. O pastor de Coelho, imbuído do desejo de ajudar a refazer a família, traz o homem de volta no dia do parto da esposa. Coelho se sente culpado… mas o desenrolar dos acontecimentos vai tornando as coisas cada vez mais difíceis para ele.

Sua relação com o pastor é muito interessante: uma advertência para nós, terapeutas, sobre os riscos do aconselhamento que não leva em conta a situação psíquica dos sujeitos. Um terrível acidente joga o personagem num luto impossível de realizar, e novamente ele foge, foge… abandonando sua esposa pela segunda vez. Há uma tipo de culpa que impede o sujeito de lidar com a realidade. Seu peso é tamanho, a dor dessa culpa é tão insuportável, que só resta ao homem escapar para fora de si mesmo. O homem está perseguido por dentro e não consegue mais pensar: só lhe resta o movimento e a fuga. Coelho é a bola que some das suas mãos quando se sente marcado no jogo de basketball– acuado, ele engana o adversário num passe muito rápido, se torna puro movimento, pura ação.

A fuga para a ação, para os braços de outra mulher, para o colo da própria mãe ou para as drogas e álcool estão entre os mecanismos de defesa que mais encontramos nos homens que adoecem nas crises da perinatalidade. Coelho corre, não consegue pedir ajuda, e os que tentam ajudá-lo ficam todos para trás.

É um lindo e honesto livro para entender alguns meandros da mente masculina. Hoje, 15 de julho, é o dia do homem.

Catedral de Guaxupé- MG
Uma das musicas mais lindas sobre a paternidade: Jose Miguel Wisnik