Por Odeliz Basile

A memória  guarda o seu passado. O olhar, o sabor, o cheiro, o toque, a cor a alegria e o dissabor vivido na infância de cada um de nós.

Toda criança é criança em qualquer tempo ou lugar do mundo. Cada um a seu jeito tráz na memória suas brincadeiras e brinquedos prediletos.

Quem não se lembra das cantigas de criança como: “Alecrim”, “Ciranda Cirandinha”, “Se essa rua fosse minha”,  “O Cravo brigou com a Rosa”, “ O sapo não lava o pé”, ou então, “ A barata diz que tem”, entre tantas outras canções.

Brincadeiras e brinquedos como boneca, carrinho de rolimãs, luta de espadas, bola, cabelereira, bicicleta, cabra cega , bater figurinha, esconde-esconde e futebol. Ou então, os brinquedos como  escorregador, gira-gira, gangorra, balança , bicicleta e patinete.

 

Ah! Os jogos de tabuleiro, como: Ludo, Dama e Dominó ou, então, o jogo de palitos e quebra-cabeça. Toda essa diversão foi compartilhada com os nossos primos, amigos. vizinhos e, às vezes, nossos pais. Podia acontecer, em qualquer lugar, onde desse, na rua, no quarto de dormir , na cozinha , no meio da sala e até mesmo no quintal.

Mas, uma boa brincadeira era aquela que inventávamos e confeccionávamos com as nossas próprias mãos. Utilizávamos materiais como lápis, papel argila, retalhos de tecido, barbantes, durex e cola de farinha entre tantas outras. Desses materiais inventava-se roupinhas para a boneca, jogadores feitos de tampinhas de garrafa para um futebol de mesa, e  também tinha as brincadeiras inventadas como, por exemplo,  as comidinhas, que eram feitas com  milho, feijão,  arroz  crus ou massinha   de modelar.O leite era feito com  a água do arroz.

Na verdade, inventávamos histórias nesse espaço tempo lúdico, esse lugar da criação, inventado entre as crianças e, ás vezes, adultos como pai, mãe, tia, tio  e quantos mais que eram próximos e queridos das crianças.

Criávamos mundos povoados de situações familiares, como dar de mamar para o bebê, escolinha e campeonatos. Monstros e bruxas terríveis, às vezes, apareciam e tudo naquele momento se tornava  muito assustador. Na nossa imaginação tínhamos de tudo um pouco.

Quanta experiência vivida e aprendida. Instantes imponderáveis, onde tivemos a chance de viver momentos de puro existir. Sem nenhum para quê. Apenas a experiência humana, sem o sentido utilitário dela. A imaginação é livre e sem limites. Nela podemos ser.

Clarice Lispector define no seu livro “Água Viva”:

“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero  uma verdade inventada.”

Sou psicanalista e atendo crianças e  seus pais.Com elas brinco e procuro compreender suas fantasias  e angústias.Juntos, procuramos criar alguma coisa onde habita um saber compartilhado entre nós.

Com eles oriento sobre seus filhos pois, muitas vezes ,os pais não sabem como lidar com algumas questões que seus filhos trazem no cotidiano. Muitas vezes, a pressa, o acúmulo de tarefas e o estresse do dia a dia ofuscam a visão da necessidade de compartilhar e ter momentos especiais com seus filhos.

Os encontros, hoje, são de curta duração, à noite, depois do trabalho, se chega em casa,  logo, tem que fazer a lição, logo, tem que jantar para os 20:30 estar na cama e dormir porque no dia seguinte tem  que levantar da cama às 6:00 porque a aula começa às 7:20. A vida passa a ser completamente cheia de tarefas e obrigações. Não ocorrem encontros que possibilitem  um aprofundamento dos vínculos. Como diz Bauman, “vivemos em tempos líquidos nada foi feito para durar”.

De verdade, o que permanece  em nós é o afeto e desta forma tarefeira e permeada por muito fazer o verdadeiro encontro não acontece.

O afeto se constrói a partir da qualidade dos momentos que compartilhamos com a família e os amigos. Do afeto muitos sentimentos surgem que podem solidificar ou esfriar uma relaçao. Amor, ódio, admiraçao, ternura entre outros e eles são fundantes em nossas vidas.

O encontro entre pessoas baseia-se na presença, na reciprocidade, na  interação,na qual as pessoas se revelam mutuamente.Compreendendo, aceitando estimulando e sendo estimulado, e expressando assim um novo saber,  uma nova força,uma criação conjunta.Portanto, um saber compartilhado.

Certa vez, atendi uma criança chamada Renato. Na época ele tinha cinco anos. Pouco  olhava para as pessoas e geralmente era mais fácil para ele olhar para dentro dele e se entreter com algo bem mais mágico e apaixonante do que a realidade poderia lhe proporcionar.

Sua paciência com tudo e com todos era quase nula e sua mãe não conseguia manter um diálogo com ele. Ele falava muito do que imaginava e o que queria. Falava bem, e era um menino muito inventivo. Ás vezes, falava coisas inesperadas e sem sentido para nós. De vez em quando, inventava algum nome para algum objeto o que para nós era muitas vezes uma linguagem incompreensível só dele. Parecia viver em um universo paralelo, onde ele reinava o tempo todo e por ser uma “majestade” não fazia nada por si só.  Os adultos é que tinham que fazer por ele. Quando sua mãe tentava colocá-lo na rotina da casa ele ficava enfurecido, falava milhões de desaforos e se negava terminantemente a fazer o que a mãe lhe pedia: como tomar banho, jantar ou almoçar, escovar os dentes, pentear os cabelos ir dormir. A mãe com pressa precisava dar conta das tarefas da casa e do seu trabalho . Mas, ele não ligava para o que a mãe pedia e continuava nas suas brincadeiras imaginárias.

Certa vez em um encontro de orientação, a mãe conta um episódio muito ruim onde ela pedia para ele tomar banho e ele se recusava e, gritava bem alto que queria comer bolo e não tomar banho.

Foi nesse momento que eu disse a ela o quanto ele estava sentindo falta dela, sempre muito ocupada com as tarefas e com o horário. Expliquei que a maneira dele, estava solicitando a atenção e a proximidade dela para com ele. Ela ficou muito  incomodada com o que eu disse. Disse que eu falava como se ela não fosse presente na vida dele. E pelo contrário ela sempre se esforçou muito para estar com ele.

Foi quando eu perguntei o que ela fazia quando eles estavam juntos. Ela respondeu que quando voltava do trabalho à noite,ela fazia o jantar e ele na TV  ou no iPAD. Depois, como o tempo era curto, ela dava banho nele e já colocava a roupa, o pijama para ele dormir. Isto ocorria porque ele era muito lento, não fazia as coisas porque a “cabecinha” dele estava em outro lugar. E justificou: é por isso que eu faço as coisas para ele.

Perguntei se naquele jantar tinha bolo. Ela declarou que não e porque não tinha tempo.

Perguntei se ela conhecia o bolo de caneca. Ela me disse que sim, mas que nunca tinha feito em casa. Ela decidiu que em uma noite qualquer ela faria com ele porque era fácil e rápido.

Em uma noite, depois que ela chegou do trabalho, a mãe resolveu fazer junto com ele o tal do bolo de caneca.

Quando eles terminaram ela disse para ele que  a sobremesa seria o bolo. Sem precisar mandar ele foi tomar banho sozinho e colocou o pijama para dormir. Muito feliz a mãe percebeu que não era a quantidade de tempo que ela deveria passar com ele, mas a qualidade do tempo que passavam juntos é o que fez a diferença no relacionamento deles. A experiência foi muito boa, e a mãe resolveu apostar nisso.

Nesse momento, ela deixou de estar impedida pela pressa e pelo excesso de tarefas e conseguiu fazer uma criação conjunta com seu filho. Como tudo deu muito certo, ela resolveu investir nessa idéia com o filho.

Meu papel como terapeuta foi fazer a interlocução entre ela e o filho e nada mais.

Depois do bolo de caneca ela passou a fazer junto com ele, nos finais de semana, ovo dourado, crepioca, rosquinhas,massa de pão e macarrão, entre outros quitutes. Uma infinidade de novas receitinhas que ela passou a compartilhar a confecção com ele.

A relação dos dois melhorou muito porque ela procurou estar mais atenta no que ele desejava e assim, pode estar com ele de uma forma mais significativa.

Hoje, nos finais de semana, junto com ele e o irmão, anda de bicicleta na ciclovia e vai  a parques e ao teatro assistir peças infantis. Quando terminam as atividades conjuntas conversam sobre como foi o dia  e combinam os próximas diversões.

Desta maneira, criaram seu espaço lúdico particular deles  que é sustentado por inúmeras possibilidades de criação onde, cada um é  estimulado e estimula  o outro a inventar e reinventar jeitos e modos partilhados que abrem um verdadeiro oásis cheio de vida no meio a tantas tarefas estressantes que estão no seu cotidiano.

Renato e sua mãe puderam se beneficiar muito com os encontros que se proporcionaram.Renato pode se sentir amado e compreendido por ela e, sua mãe, além de ser agora, participante do mundo dele, pode recuperar o que permaneceu de bom da sua infancia e compartilhar isso com ele

Os diálogos dele melhoraram muito e isto foi percebido até por sua professora. Ele também tem mostrado mais foco nas atividades escolares, embora ainda de vez em quando provoque os colegas.

Só para constar: hoje, ele está com 8 anos e começou a ler as primeiras sílabas.

Para quem interessar aqui vai a receita do bolo de caneca.

 

Ingredientes

1 ovo

3 colheres de sopa de óleo

4 colheres de sopa de leite

3 colheres de sopa de açucar

3 colheres de sopa de chocolate em pó ou achocolatado.

4 colheres de sopa de farinha de trigo.

½ colher de chá de fermento em pó

 

Modo de preparo

Preparo: 1 minuto

Cozimento: 3 minutos

Pronto: 4 minutos.

Em uma caneca junte o ovo e o óleo.Em seguida adicione o leite, o açucar e o chocolate em pó.Mexa bem até incorporar todos os ingredientes.Aos poucos, vá incorporando a farinha de trigo, sempre mexendo.Por último, acrescente o fermento em pó e misture.

Leve ao micro-ondas por 3 minutos. Não se assuste se a massa do bolo crescer e começar a passar da caneca.Ela não vai transbordar.

Retire do micro-ondas e se quiser sirva com calda de chocolate

 

Odelis Basile
Psicóloga e psicanalista