Manoel poeta

Feliz dia da criança. Vou pegar aqui umas ideias do nosso saudoso Victor Guerra, para falar de poesia. Em um belo artigo falando sobre ritmo e subjetivação, um dos seus temas preferidos, Victor retoma os primórdios da linguagem. Para ele, a linguagem antes da linguagem categorial (adquirida como uma primeira castração) é rica em sons de todos os tipos e polissensorial. Quando um bebê cresce e aprende a falar, a tirania da linguagem exercida sobre o mundo sensível dos sentidos (visão, audição, olfato, tato, paladar) com suas regras lógicas , sintáticas, gramaticais, de separação sujeito-objeto com privilégio dado ao verbo (ação) vem para subordinar em nós o infantil, este infantil que alguns poetas resgatam justamente ao desconstruir as palavras em suas invencionices. Os ritmos, as pausas, a sonoridade ocupam a poesia além do sentido comum das palavras. Nosso poeta brasileiro , Manoel de Barros, era um dos preferidos de Victor Guerra . Trabalhava “a infância da língua”, ou seja, a experiência de polissensorialidade “ em que havia “uma correspondência e uma passagem de um canal sensorial a outro, com valor metafórico e poético“. Manoel de Barros, que viveu a maior parte da sua vida no pantanal perguntava: “se o lagarto pode lamber o lado azul do silêncio “.

Nós podemos?

Para Victor, o infantil e o “arcaico” não devem se referir

” apenas ao eixo temporal, o que começou primeiro” , mas seu aspecto fundamental talvez seja “dar forma a um “originário incessante”, fonte de criação e de descoberta do mundo e da novidade para um bebê“- maravilhamento do mundo.

Maravilhamento?

Para o ofício da psicanálise é preciso ter o pasmo essencial, a possibilidade de ouvir- através- de, e aprender de novo a cada momento a musiquinha do inconsciente que é um rio profundo e cantante , às vezes difícil de ouvir. Lamber o azul do silêncio?

Dia da criança: vamos ler poesia.

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo.

(Aberto Caieiro)

http://pepsic.bvsalud.org/pdf/ide/v40n64/v40n64a04.pdf

( Dedico este post à minha querida amiga Carla , que foi quem me apresentou o poeta Manoel de Barros).

CAPRICHOS…



Caprichos – Adília Lopes

Conheci uma menina
muito caprichosa a comer
tinha dias que só comia chocolate
ou então ovos mexidos
diziam dela está a chocolate
como se diz de Picasso
que teve uma fase azul
de uma vez gritou
que tinha fome de queijadas de Sintra
e de mais nada
partiu brinquedos
até que mandaram uma criada á periquita
comprar-lhe queijadas
amigos da família notavam
que uma criança tem de se habituar
a comer de tudo
não porque se seja a rainha Isabel
que por uma questão de cortesia diplomática
teve de comer ratos no Punjab
nem porque esteja próximo de um período de racionamento
mas porque é a comer do que não se gosta
que se aprende a saber do que se gosta
as crianças mimadas
acabam por escrever gostava de gostar de gostar
e contraem doenças infecciosas
com muita facilidade
esta apanhou tosse convulsa
e enquanto teve tosse convulsa
só comeu pombinhas de pão
um dia a padeira enganou-se
em vez de pombinhas trouxe vianinhas
e a mãe da menina
ao vê-la chorar como uma possessa
despediu a padeira
a menina durante a convalescença
refinou
tinha ódio ao pão com manteiga
todos estavam a par deste seu ódio
pois em casa da tia Balbina
só aceitava comer pão com manteiga
dizia pão têga
o que já não era próprio da sua idade
acontecia que se recusava a pronunciar
certos sons
está em não dizer man nem ei
murmuravam na sala de visitas da tia Balbina
mas como quem fala de um prodígio
e não como quem diz coitadinha
depois de sete criadas terem sido despedidas
por não saberem cozinhar a preceito
pudim de beiço de vaca
apresentou-se uma que era extraordinária
a menina passou a tratá-la por Predilecta
a Predilecta compreendeu tão bem a menina
que no dia em que preparou com mais esmero
o prato preferido da menina
pudim de pardais assados em água
deitou no pudim um punhado quase mortal de arsénico.



Para os familiarizados com a psiquiatria infantil ensinada em São Paulo e no interior, neste e no século passado, dois nomes importantes de formadores psicanalistas nos vem logo à mente: Amelia de Vasconcelos e Di Loreto, psiquiatra que deu cursos de formação e supervisão a muitos dos aspirantes à especialização do atendimento de crianças. Quando a psicanálise ainda conversava mais com a psiquiatria (por que razão estão de mal, agora, não se sabe…); ainda mais no atendimento das crianças, todo médico que se especializasse na área, pediatra ou psiquiatra, estudava as teorias do desenvolvimento e aprendia que não se pode aplicar os conceitos da psicopatologia do adulto aos pequenos; que passam por doenças “normais” durante todo o seu período de maturação , que não devem e não merecem ser patologizadas e entendidas superficialmente fora do seu contexto bio-psico-social. Amelia costumava advogar que o pediatra, habituado à clinica e ao atendimento de crianças fora do âmbito da psiquiatria, seria o mais indicado a se especializar nesta área, por ter uma visão mais integral da criança, enquanto que os psiquiatras partiriam sempre de um viés patologizante no seu processo de diagnóstico infantil. Embora a medicina baseada em evidências de hoje reconheça muito pouco o valor da psicanálise, na formação de muitos de nós a contribuição de psicanalistas como Winnicott e Melanie Klein contribuiu para a possibilidade de um pensar muito mais abrangente, profundo e perguntador. Aprendi a perguntar foi mesmo com a psicanálise. Lendo Winnicott, a presença do paradoxo constante e do pensamento perguntador me trouxeram para mais perto do que me parece ser o verdadeiro curiosear científico do que a psiquiatria biológica que, como diz meu amigo Spinelli, entrou em mania e hoje em dia quer ser neurologia explicando tudo a partir do cérebro.

Porque que é que a simplicidade da linguagem é tão importante para os pensadores iluministas? Porque o verdadeiro pensador iluminista, o verdadeiro racionalista, nunca pretende convencer ninguém a fazer nada. Não, nem sequer deseja convencer ninguém: tem permanentemente consciência de que pode estar errado. Acima de tudo, valoriza demasiado a independência intelectual dos outros para querer convencê-los em questões importantes. Prefere provocar a contradição, preferivelmente sob a forma de crítica racional e disciplinada. Não procura convencer mas despertar – desafiar os outros a formarem opiniões livres.(…) . Ele sabe que, fora do estreito campo da lógica, e talvez da matemática, nada pode ser provado.” Karl Popper

A boa psicanálise, a psicanálise “da gema” se faz por meio das perguntas e das dúvidas e do reconhecimento de que muito pouco sabemos. Inclusive, para o Di Loreto, nós -os psis- somos poetas pouco competentes . Nossa teorias tentam explicar o que os poetas sabem muito melhor … e quando estamos no lugar de ser aquele- que-cuida, tomar todo dia um chá de humildade , exercitando a tolerância diante do não-saber , é o que de mais precioso temos a oferecer aos nossos pacientes. E eu estava caçando um tema para escrever quando este poema poisou na minha janela – e é dele que quero falar.

Conheci uma menina
muito caprichosa a comer…

tinha ódio ao pão com manteiga
todos estavam a par deste seu ódio

dizia pão têga
o que já não era próprio da sua idade
acontecia que se recusava a pronunciar
certos sons

No seu livro “Posições Tardias” ( ed casa do psicologo, 2007), Di Loreto traz importantes contribuições para um entendimento das crianças “mimadas”, “birrentas” e “mandonas”. Considera este comportamento normal, não patológico, numa certa fase. Mas a partir de certo tempo sua persistência indica que algo não vai bem.

Não sei como o leitor do ramo, que trabalha com a mente de crianças, compreende a birra. Para mim, ficou por duas décadas vagamente colocada como distúrbio de conduta , o que significa em termos de compreensão da mente, rigorosamente nada. Ganharia localização útil e compreensível,se entendida como uma das alterações do desenvolvimento da potência. Mas, o que é mais importante para a prática, é a seguinte constatação: quer sob a forma de crises escandalosas, quer como oposição surda e sistemática, a birra é, na cultura psi, uma patologia menor, quando não é vista apenas como “manha” e “mimo”, acompanhando a cultura popular.E, como tal, permite manejos fáceis, simples e lineares, ( “colocar limites”), aconselhado tanto por leigos quanto por profissionais. ( A irresistível atração exercida pelo conselho óbvio).

Isso não “bate” com minha experiência clínica, que me ensina que a birra é uma patologia maior, porque evidencia a permanências de grandes cisões na mente .Crianças acima de 4 anos que reagem com birra às frustrações razoáveis e realistas, demonstram que estão se organizando de modo defeituoso, um grande aspecto da personalidade, a potência. Porém, muito mais sério é o indicativo da ausência de birra, principalmente da sua ausência no segundo ano,e que tende, no entanto, a passar despercebida…

Para Di Loreto, no desenvolvimento, o bebê dependente do primeiro ano , ao crescer, aprende a falar e andar e correr, e com a potência motora recém-adquirida,aliada ao pensamento mágico caracteristico da fase, está pronto a ganhar o mundo. Crianças entre 2 e 4 anos experimentam a onipotência, como parte do seu processo de crescimento. São hipertímicas, tirânicas, fazem birra, testam os limites.Nesta fase, uma grande questão enfrentada pela criança pequena é o destino a ser dado ao seu medo. Porque algo acontece no processo do crescer: o medo surge e a onipotência se quebra. O que acontece nesse processo depende da sua maturação, do ambiente e da tomada de uma posição mais depressiva, em que começa a tomar conhecimento de sua própria destrutividade e se ocupar do outro, saindo da fase do “tudo ou nada” em direção da construção da auto estima a partir da sua verdadeira potência. A confiança em si mesma e na sua capacidade de reparar , a entrada no Édipo ( momento em que a criança passa a lidar com o sentimento de exclusão e não ser o centro do mundo) são as maiores bases para a auto-estima e a capacidade para lidar com os limites. Quando tudo corre bem a introjeção do limite se dá de pouco em pouco . Mas o que acontece quando as dissociações predominam sobre a direção natural da integração na criança…e as relações de poder, disfarçando uma sensação de impotência , negada, passam a predominar no palco das relações familares? A criança poderosa não consegue dar um bom destino ao seu medo, falha no processo de integração. A birra, saudável num momento do desenvolvimento, passa a ser expressão de um bloqueio do amadurecimento.

a menina durante a convalescença
refinou
tinha ódio ao pão com manteiga
todos estavam a par deste seu ódio
pois em casa da tia Balbina
só aceitava comer pão com manteiga
dizia pão têga
o que já não era próprio da sua idade
acontecia que se recusava a pronunciar
certos sons
está em não dizer man nem ei
murmuravam na sala de visitas da tia Balbina
mas como quem fala de um prodígio
e não como quem diz coitadinha

Para o Di Loreto, neste caso, há

Um narcisismo que, quando assim dissociador, volta-se contra o individuo.

E, como diz a Adilia Lopes, precisamos estar atentos para não deitar a estes indivíduos “um punhado quase mortal de arsênico” disfarçado em pílulas como os antipsicóticos ou as anfetaminas, tão amplamente utilizados e tantas vezes inoperantes nestes casos.

Adultos também fazem birras. Alguns se mantém vivos por meio dos embates que travam com a vida. Esses embates encobrem uma real dificuldade de se adaptar, pensar, abdicar da condição de estar no controle, ter poder sobre o outro.

Para Winnicott ” é no entremeio que talvez resida a coisa mais difícil no desenvolvimento humano, ou talvez a mais penosa de reparar,de todas as falhas iniciais que ocorrem. O que existe no meio…é o fato de o sujeito colocar o objeto fora da sua área de controle onipotente;isto é, o sujeito perceber que o objeto é um fenômeno externo, não uma entidade projetiva, na verdade, o reconhecimento de que o objeto é uma entidade autônoma.” – entenda-se aqui por “objeto” a outra pessoa com quem ele se liga.

Como diz o Drummond, amoré o que se aprende no limite, amor começa

tarde.

Somente a retomada do caminho da integração pode contribuir para o enfraquecimento da relação “dominador-dominado”, preponderante em alguns casos. É difícil:

Gostaria de ser, mas não sou um GRANDE DEUS TERAPEUTA. Também não sou um terapeuta desastrado. Sou comum, mediano, feijão com arroz, bem temperado. Uso fármacos, como terapeutica sintomática, uso psicoterapia, se consigo reter o paciente…Esclarecimentos às familias têm evitado muita via-sacra de médico em médico, de Serviço em Serviço, um mais idealizado que o outro, e cada um mais denegrido que o outro, quando o fracasso terapêutico se evidencia.”

Dedico este post a todos os pacientes com os quais falhei, e com os quais ainda tenho falhado.

Quem foi Victor Guerra

 

Por Carla Braz Metzner

 

O psicanalista Uruguaio Victor Guerra dedicou a sua vida ao estudo, pesquisa e atendimentos clínicos da relação mãe/ bebê, da primeira infância, adolescentes e adultos.

Ele realizou por mais de vinte anos consultas terapêuticas em um jardim da infância inspirado nas contribuições tão importantes de D. Winnicott .
Estava trabalhando na sua tese de doutorado em Paris, sobre o ritmo e os indicadores de intersubjetividade no processo de subjetivação do bebê. Mas seu falecimento precoce interrompeu seu percurso, o seu trabalho e suas contribuições continuam reverberando entre nós.
Sua tese de doutorado será publicada em Paris com um evento em sua homenagem no dia 12/1/2019. Seu trabalho trouxe grande contribuição ao pensamento psicanalítico.
No dia 22 e 23 de junho de 2018 ocorreu uma homenagem para Victor Guerra em Montevidéu. O tema era : o que  nos ensinam os bebês? – Prof psicanalista Victor Guerra.
Neste evento o mais marcante era a transmissão de uma forma, de uma ética psicanalítica  presente no respeito ao outro, aos profissionais  e pacientes.
Na sua disposição de mente para fazer dialogar os autores e as teorias, que como ele dizia ,trazia movimento, ritmo e abertura para ir em busca do sofrimento humano e poder através da arte, da literatura e da poesia encontrar o assombro,  e a capacidade negativa como elucida o escritor john Keats. A Capacidade para viver a incerteza, o não saber, para poder lidar com o lamentável  e o sublime da condição humana, como assinala o escritor Octavio Paz tão apreciado por ele.
Victor foi coordenador da Fepal da área de crianças e adolescentes e foi um dos idealizadores da carta de Cartagena. Nos  trazendo a contribuição de varias associações e sociedades de psicanálise, se posicionando favoráveis ao tratamento psicanalítico do transtorno do espectro autista, reconhecendo toda experiência dos profissionais e produção de conhecimento construído pela psicanálise.
Victor encontrava na poesia sua inspiração para a clínica e para a vida, sua lista de escritores e poetas preferidos é muito grande, mas o escritor Uruguaio Felizberto Hernandez que aparece no fundo desta fotografia do Victor exerceu grande influência. Sua descrição dos personagens humanos, do seu mundo interno e seus dilemas despertaram seu interesse pela psicologia e psicanálise na adolescência, assim como sua experiência de vida com os imigrantes que frequentavam o boliche de seu pai e contavam suas histórias e seus dramas.
Os escritores brasileiros Ferreira Gullar e Manoel de Barros também foram sempre muito citados em seus trabalhos e em sua tese. E para também homenagear Victor neste texto cito um poema de Ferreira Gullar que ele gostava muito.

Despedida
Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.
De fato,
neste momento estarão de mim arrebentando raízes tão fundas.
Quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei, rostos amigos
tardes e verões vividos
Estarão gritando ao meu ouvido
para que eu fique , para que eu fique.
Não chorarei
Não soluço maior do que despedir-se da vida.
Ferreira Gullar

Sossegue

 SOSSEGUE…  

  

 

“ Carlos, sossegue, o amor 

 é isso mesmo que você está vendo: 

 hoje beija, amanhã não beija  

Depois de amanhã é domingo 

E segunda-feira ninguém sabe o que será” 

                                               Carlos Drummond Andrade 

 

 

TIRA RADIOGRAFIA, TIRA A PRIMEIRA RUGA, A CIATALGIA

O QUE FICA?  

O AMOR.  

 

MACERA O ALHO, MOLHA A CEBOLA, EMBALA O FILHO, EMBRULHA O ASSADO,

QUEM ESTÁ COMENDO?  

O AMOR.  

 

 

FAZ O IMPLANTE, RETIRA A SAFENA, RETIRA O DENTE, ENXERTA A MAMÁRIA,

QUEM VELA NA CAPELA?  

O AMOR.  

 

COMPRA CAMA DE FERRO, COMPRA COLCHA BONITA,  

COMPRA VIAGRA, PAGA À VISTA E NÃO PODE, PULA A CERCA E NÃO ESCONDE,

TROPICA E CAI.  

QUEM LIMPA A VERGONHA?  

O AMOR.

 

FICA PELADO SEM APAGAR A LUZ   

ESQUECE A CARTEIRA  NO BANHEIRO DO TREM

PINTA A UNHA DE VERMELHO, ELA DESCASCA

PERDE CABELO NO TRAVESSEIRO TODOS OS DIAS.  

QUEM CATA?  

O AMOR.  

 

TIRA O BERNE, SOLTA AS BICHAS, PASSA VINAGRE PRA MATAR AS LÊNDEAS,

PASSA BABOSA  NO CABELO.  

QUEM BRILHA?  

O AMOR.  

 

QUEIMA A COMIDA, FAZ O ENEMA, AMORNA O LEITE, TEMPERA O PEIXE, QUEM CHEIRA?  

O AMOR.  

 

FAZ A FOGUEIRA QUEM QUEIMA É O AMOR.  

SOSSEGA,CARLOS, QUEM SOSSEGA É O AMOR.  

 

Arianne Angelelli

Pra meus queridos tios, Marina e Reginaldo, pelos seus cinquenta anos de casados

E para tio Reginaldo, também, pelos seus oitenta anos

 

 

Benzinho: a nossa pietá brasileira.

Benzinho – A nossa pietá brasileira
Sobre a relação do homem com sua mãe, a nossa blogueira do Gesto Espontaneo , Cecilia Hirchzon escreve *:
“O homem, para ser “si mesmo” e para constituir a sua identidade masculina, terá de se separar desta Mulher, de quem dependeu totalmente. Já a mulher, para se constituir como tal, não precisa estabelecer necessariamente a separação – pode manter-se identificada com essa Mulher. Observamos, portanto, duas direções distintas: enquanto a mulher lida com a Mulher dentro de si através da identificação, o homem tem que se separar, tornar-se único, o que se constitui em uma urgência no desenvolvimento da sua identidade. A especificidade da identidade feminina caracteriza-se por ser geracional e infinita, isto é, podendo manter dentro de si três mulheres: o bebê menina, a mãe e a mãe da mãe. Essa condição possibilita à mulher o desempenho de diferentes funções sem violar a sua natureza. Pode ocupar posições diversas nas brincadeiras, onde ora é mãe, ora é filha, alternando papéis. Ou, ainda, na idade adulta, exercendo a sua feminilidade, ocupando o lugar de mãe e/ou mulher sedutora. Enquanto isso, o homem não se funde nessa linhagem – sua condição básica é a de ser um”.
No belíssimo Benzinho, de Gustavo Pizzi, que está em cartaz nos cinemas, o primogenito de Irene, mulher brasileira , mãe de quatro filhos, vai embora para a Alemanha a convite de uma universidade que está interessada no seu talento esportivo. O adolescente vibra enquanto a mãe se quebra, assustada com a partida súbita, fora de hora, do filho muito jovem. A história de Benzinho é o processo que se desencadeia com a chegada da noticia, suas idas e vindas , focado aqui no ponto de vista da mãe que vai tentando aceitar o momento que é de alegria e tristeza. Porque Irene é Pietá não vou contar aqui, para não dar um “spoiler” do filme. A interpretação de karine Teles é magistral. O amor materno aqui se desdobra em suas mais variadas possibilidades ( como diz a Adelia Prado, mulher é desdobrável) . A mãe suficiente boa, por sua saúde e sua capacidade de lidar com a perda e a separação, aparece na interpretação de Irene. Mãe suficientemente boa que se atrapalha, fica brava, dá chilique, chora, pira, respira, mas, enfim, ama. A gente fica apaixonada pela Irene. O longa foi escolhido como o filme brasileiro que vai disputar uma vaga entre os quatro finalistas ao Prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-americano, considerado o Oscar espanhol.
E , para terminar, um poema, uma musica.

O gato andaluz*
(Rosa Alice Branco)
O meu filho caminha por aí. Já não sei
se é o Douro ou o Darro que lhe embala o sono.
Nem onde guardei as datas e o nome das ruas
ou se vou te encontrar logo à tardinha.
Deixei-me de saber e de pensar que sei.
Um gato arranha à minha porta a miar em andaluz.
Eu arranho a porta a dois dias daqui, duas horas
De avião. É proibido miar nos voos europeus.
Engulo a saliva do dia e assim se faz noite.
E não há gaivotas a gritar por mim. Por mim
estou eu à janela do avião. As malas
com que hei de dizer-te: cheguei. O teu abraço
como um rio qualquer onde corra água.
Esquecer o que ficou para trás e a língua que me fala.
Levar o copo à boca onde nasce a boca,
A fonte do quintal, a nascente do mar. O meu filho
Voa como se caminhasse descalço. Cruzamo-nos
no horizonte sobre a linha do rio onde deságua a luz.
E as palavras aquietam-se no seu nada.

( do livro Soletrar o dia, Ed escrituras, 2004)

* este artigo está postado em nosso blog na seção artigos e notícias ( “Os elementos masculino e feminino puro na clínica”).

La Vita in Comune- e seus homens imprudentemente poéticos.

“De vez em quando Deus me tira a poesia.

Olho pedra,

Vejo pedra mesmo.”

Adelia Prado

Em um certo momento do filme “la vita in comune” comecei a me perguntar se haveria uma final feliz , possível, para aqueles homens imprudentemente poéticos. Empresto aqui o título de uma outra obra* para falar de Filippo e os fratellos  Pati e Angiolino,  de sua amizade e de  sua inocência. Não deixa de ser engraçada a caricatura que a “vita in comune” faz da democracia, das mazelas da cidade parada no tempo que se chama Desperata**, e seus personagens.

A história é assim: Filippo é prefeito da cidade. Há pouco emprego, pouco progresso, e nas reuniões na câmara as criticas ao prefeito se tornam cada vez mais sérias. Querem construir perto do mar para atrair os turistas, mas Filippo gosta mesmo é de poesia, e vai ensinar literatura aos presos. Um deles é Pati, que se encanta e se transforma depois do contato com a poesia. Seu irmão, Angiolino, a principio se enraivece mas também se transforma por meio de um contato com o papa, que lhe diz para preservar a criação de Deus. A partir daí, a moda dos santos convertidos, ele que era um ladrão de galinhas, se regenera. Os três homens passam a compartilhar, poeticamente, e cada qual a sua maneira, um outro modo de vida. Aqui começa a utopia e o gosto levemente amargo da incompreensão -vai ficando mais clara a depressão de Filippo e a loucura dos irmãos. Porém o tema é tratado com leveza , com a poesia das imagens e da trilha sonora sempre presentes.

Os três Dons Quixotes encontram um doido que, a moda de Francisco de Assis, fala com os animais, e o acolhem. A imagem da arca de Noé aparece, com a utopia da paz entre os homens junto aos animais em harmonia e a terra-mãe protegida, cuidada. Algo como estar acolhendo o feminino de cada um.

Aparte os ( femin)ismos, acirrados nos nossos dias, e sem querer carregar bandeira; a película mostra a falta mesmo de poesia naquele mundo, onde pedra é pedra mesmo, onde falta espaço para o criar, lugar para o feminino. Este mundo masculino das coisas inanimadas e das relações robóticas, líquidas e utilitárias. Sem os objetos transicionais que dão sentido ao existir. Pois nos disse a Carla, também blogueira do Gesto Espontâneo, que a palavra poesia vem de poiseis, criar- transformar. Nesse sentido a poesia é o que reconecta o homem com o sagrado, a terra, o indizível, e o belo. São homens imprudentemente poéticos os heróis de La Vita em Comune. Vale apena assistir.

 

* titulo de um livro de Valter Hugo Mae, escritor português

**Aqui há um duplo sentido no nome da cidade; que pode significar “desespero” -“disperata” ou “aquela que em Deus espera- Desperata”. A polissemia é explorada de modo muito engraçado quando turistas chegam a cidade, logo no inicio do filme.

 

(La vita in comune – filme de Edoardo Winspeare, 2017. Em cartaz nos cinemas)

 

Aconchego

Cheguei em casa
E descansei
minha exaustão
no jantar
Enquanto
Brincava de fazer
estrelas no papel,
com mamãe.
Depois, levei
papai a ver a lua
e quando
olhei para trás,
repousei…
Adormeci…
Brinquei com os meus sonhos
Que suavizaram
A finitude dessa experiência.
Adormeci…
Hoje, aconchego
dentro de mim
essa memória
que brinca,
brinca, e brinca…

(Por Gina Tamburrino)

Doeu

Doeu
Ele me doeu a vida inteira
Congelou minha infância
Paralisou a menina
Que nunca virou mulher
Então, a menina sepultou seu filho não nascido
Com timidez sonhado
Antes, colocou seu vestido de noiva
E, diante dele, seu homem sonhado se desfez
O carrinho de bebê perdeu-se no tempo
Não subiu e nem desceu as escadas,
Vida e morte se entre-olham,
Se desafiam,
Se encaram,
Quem desafia quem?
•por Gina Tamburino