Quem foi Winnicott…

Donald Woods Winnicott (1896-1971) nasceu em Plymouth, na Inglaterra em uma família de três filhos, tendo mais duas irmãs. Seu pai era um comerciante e empreendedor próspero, com uma vida pública importante. Sua mãe uma dona de casa com tendências depressivas e uma saúde debilitada.

Em 1917 decidiu iniciar sua formação em medicina, servindo a Marinha até o fim da Primeira Guerra Mundial. Foi o primeiro médico pediatra a tornar-se também um psicanalista. Em 1923, inicia sua prática clínica como pediatra no Queen´s Hospital for Children e também no Paddignton Green Children´s Hospital, trabalhando por quase 40 anos.

Durante sua formação como médico começou a se interessar pela psicanálise e pelas obras de Freud, uma vez que não conseguia lembrar de seus sonhos. Fez análise por quase dez anos com James Strachey, o tradutor das obras de Sigmund Freud para o inglês, e após mais cinco anos com Joan Riviere importantes psicanalistas de sua época.

Em 1927 Winnicott foi aceito como iniciante na Sociedade Britânica de Psicanálise e em 1935 finaliza sua formação como analista de crianças. Foi presidente da SBP por duas vezes, fez palestras radiofônicas para as mães durante a guerra. Pode-se dizer que foi pioneiro em estudar os aspectos psiquiátricos com a prática clínica pediátrica.

As experiências que adquiriu trabalhando com crianças e suas mães nos hospitais e em seu consultório foram muito importantes para a construção de suas teorias. Foi inovador ao propor uma teoria do desenvolvimento emocional do ser humano da saúde, pautada no relacionamento estabelecido com a mãe suficientemente boa e o bebê. Também se propôs a reavaliar a importância da sexualidade e do complexo de Édipo no desenvolvimento saudável e patológico.

Para Winnicott, o bebê nasce imaturo emocionalmente para poder reconhecer e compreender o mundo externo ao seu redor, e ter sentimentos de amor, ódio, inveja com o ambiente. Inicialmente, ele necessita de cuidados essenciais e uma série de conquistas integrativas para que possa quando criança ter condições te ter relações edípicas. Neste sentido, para se chegar ao Édipo é preciso uma maturidade emocional.

Também o conceito de criatividade revela ser muito original em sua obra, sendo entendido como um potencial humano inato. O autor acredita que este potencial humano está presente desde a fase intrauterina e, é a partir do relacionamento com a mãe que as experiências criativas possibilitam a constituição de um si mesmo real e espontâneo. Desta forma, são as experiências criativas vividas desde o nascimento e ao longo da vida presentes no brincar, na arte, na religião e na cultura que possibilitam o prazer e o sentido na vida.

Em 1951, publica um artigo sobre os objetos e fenômenos transicionais, tornando conhecido mundialmente. Entre suas principais obras podemos citar ainda o livro Natureza Humana (1954), O Ambiente e os Processos de Maturação (1961).

De modo geral, pode-se dizer que Winnicott foi um pensador que se dedicou a aplicar suas teorias, a ampliar o método de tratamento psicanalítico e a entender o ser humano tanto no seu desenvolvimento saudável quanto patológico.

Morreu em 22 de janeiro de 1971, após a piora de seu estado de saúde e infarto no miocárdio.

Natividade

Latejar intervalado de orgasmo já em ferida.

Rotura. Espanto. Irreversível dor.

Um ventre inchado golfa a expectativa de si próprio.

Porém já fui pequena

Já fui também pequena

E me nasceram seios

E me cresceram pelos

E o sexo me floriu

No afago quente

Do primeiro sangue.

Um grito rouco. Um ventre rasgado de dentro.

Viscoso, um novo corpo

Tomba

E limita a eternidade…

Não tem olhos nem dentes, não tem nome,

Digere, vaga, suga,

É calvo, é mole, é outrem,

Só fúria sem contornos de crescer.

(Helder Macedo- Viagem de Inverno- 2000)

Tempos obscuros onde a maternidade não se acomoda mais dentro das expectativas da mulher moderna. O choque, o espanto, o horror, diante da dependência e da fragilidade. Mulher, o tempo se inscreve no seu corpo de modo muito marcado: a menarca, a gravidez, a menopausa. É o tempo marcando a mulher, limitada da eternidade, marcada. E no entanto! Como são fofinhos os bebês da propaganda do shampoo Johnsons!!! Como são lindos os papéis de parede azuis e lilases, os móbiles coloridos…

Por que então não estamos  inundadas de felicidade ao nos tornarmos mães?

Figura 1 Woman with shopping- Ron Mueck. 2013-detalhe

  Tenho trabalhado com estas mulheres envergonhadas, usando sertralina e palavras. São engenheiras, biólogas, são professoras, donas de casa

          são muito jovens, são mais velhas, tiveram gêmeos, tiveram parto prematuro, fizeram ovodoação, fizeram inseminação artificial, tiveram um filho planejado, tiveram um filho acidentalmente.

Quanta vergonha, não amar meu filho!!!”

Eu penso só no que vai ser da minha vida de agora em diante!”.  “Morei na Bélgica para fazer o meu pós-doc, não me apertava com nada, hoje tenho medo de dirigir, não consigo pegar o carro para ir a lugar nenhum, não consigo sair na rua com o bebê, acho que algo vai acontecer com ele”.

“Doutora, acho que tenho TOC. Tenho medo de o meu nenê ter frio, mas se o cubro, acho que vai ter calor, acordo toda hora para checar a temperatura do quarto, não consigo dormir pensando que ele não vai conseguir se descobrir nem se cobrir sozinho!… não sei o que faço, sei que é loucura; só que eu não durmo”.

Estranho! Como pode acontecer de não haver este reconhecimento, tão natural, biológico, tão programado! …Será???

Eu penso: sou capaz de fazer algo ruim com ela. Não quero ficar sozinha com ela. Quando a babá vai, antes do meu marido chegar, é a pior hora. Ela chora e eu não sei o que fazer, fico muito nervosa”.  

“Não deixo ela chorar. Tomo banho de porta aberta. Se ela chora, eu corro, pelada, molhada; sei que devia deixar ela chorar um pouquinho, não faz mal; mas eu não aguento.”

O estranho em mim. Meu filho, parte de mim, partiu exatamente de mim, do meu corpo, cresceu em mim, mas não é meu, não sou eu. Estranho e familiar. “Acho que não devia ter tido filho. Quis dar um neto para a minha mãe. Não achei que ia ser assim, não tive irmão. Quando tive o nenê comecei com essa cefaléia, fui internada no hospital, que vergonha, internar num  hospital onde todo mundo me conhece; aí que parei de amamentar, tomei muito decadron. Me fizeram um liquor e fiquei pior. Não acharam nada. Dor de cabeça não tem explicação e não passa com nada!!! Foi meu cardiologista que me deu  a fluoxetina, mas não adiantou, e eu parei. Está tudo tão horrível doutora”.

Em todos os relatos, a impotência. A perplexidade. Culpa. Vergonha… O estranho em mim. O estranho de mim. Quem sou eu, mulher, quem sou eu, mãe? As mães não vêm prontas, se constituem mães, assim como os bebês se constituem pessoas, inaugurando a família consigo. Como suportar a inexatidão deste processo: construído exatamente a partir de seus erros, tentativas, ajustes… Como controlar o que não tem controle? O que não tem governo, nem nunca terá, como canta o Chico. O que vem das entranhas, o que será que será? O que não tem juízo.

O que não faz sentido… Entre a depressão e o baby blues, mulheres numa contemporaneidade onde  bom senso e  instinto dão lugar aos manuais, à busca dos blogs, dos grupos de mães da internet, numa busca desesperada de referências: onde há tanta informação, não há informação nenhuma! Que sou eu? Mãe!????????? Mulher? “Eu dou peito livre demanda e lá em casa é cama compartilhada”.  “Tive parto em casa, foi maravilhoso, mas depois ele teve esta alergia: não posso comer: ovo, soja, leite, tomate, estou pensando em parar de amamentar”.

O que é ser mulher? Me diga menina, o que é feminina (agora é a Joyce quem canta)2. Ô mãe, me explica, me ensina…o que é feminina… E, principalmente: o que é ser mãe.

Ninguém fala a verdade tudo o que a gente passa no parto. Se eu soubesse que era assim, não queria. Porque ninguém fala a verdade para a gente! “

Porque o mistério nos horroriza. Em verdade, temos medo. Senhor, escutai meu estrondoso medo 3. Esta frase é no poema de Adelia Prado.É a Adelia Prado rezando.Rezando pedindo ajuda. Mãe no pos parto precisa de ajuda. É necessária uma tribo para cuidar de um bebê. E não uma mulher sozinha.

O filme Tully 1, do diretor Jason Reitman, nos traz a solidão de uma mulher que encontra na psicose um remendo para seu desamparo. Belíssimo, imperdível. Um retrato da maternidade. Que tão pouco se parece com os fantasiosos comerciais do shampoo Jonhson, do creminho para assaduras. A realidade da maternidade é assustadora e não perfeita; só na fantasia os bebês são tão bonzinhos e cheiram tãaao bem !!!.

Há três anos numa visita à pinacoteca, na exposição das esculturas hiper realistas de Ron Mueck, me deparei com uma obra de arte que muito me impactou. Woman with shopping, de 2013, que mostra uma mãe muito cansada, desarrumada, carregada de compras, que não olha para o seu bebê, que olha para ela, como uma interrogação. Depressão pós parto?

Estranho…O estranho em mim.

E chamo a Joyce de novo para arrematar essa conversa:

“Então me ilumina, me diz como é que termina?
– Termina na hora de recomeçar,

dobra uma esquina no mesmo lugar.

E esse mistério estará sempre lá
Feminina menina no mesmo lugar.”

Como  ajudar  tantas mães muito parecidas com esta: como oferecer uma ajuda ? Carregando para elas um pouco destas sacolas?

Winnicott, que foi pediatra toda a sua vida, dizia que bebê e mãe são uma coisa só; não existe “o bebê”; portanto, não se pode prover para os bebês um ambiente suficientemente bom, se a mãe não tem também um bom suporte.

Referencias

Figura – Woman with shopping- Ron Mueck. 2013

         2) Feminina– de Joyce  Moreno – uma inspiração!!!

  • 3)Do poema Impropérios, de Adelia Prado, do livro “O coração disparado”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2013.

O Objeto Subjetivo à luz do filme ¨1945¨: por Diana Goldberg

O Objeto Subjetivo à luz do filme ¨1945¨

O filme de título 1945, se passa em uma pequena cidade/ aldeia no interior da Hungria, quando a Segunda Guerra recém terminou. Dois judeus chegam de trem a essa cidade carregando 2 baús, contratam um charreteiro para que possam transportá-los e iniciam sua caminhada atravessando a cidade.

Impressionante a sensibilidade e sutileza do diretor que, de forma extremamente sucinta e contida, consegue comunicar os inúmeros dramas que são mobilizados e despertados pela chegada dos dois homens, por meio dos quais o espectador vai depreendendo e se dando conta. Nada é claramente explicitado e mostrado, o que vai se revelando a cada momento é a vivência emocional e a estrutura de personalidade de cada habitante frente à chegada desses dois judeus que nada falam, nada fazem, apenas seguem caminhando.

 

Os sentimentos que são despertados nos distintos personagens revelam seu caráter.

O primeiro a se alarmar com a chegada dos desconhecidos é o chefe da estação, que rapidamente espalha a notícia a quantos moradores seja possível. Primeiramente, a um homem rico e poderoso na cidade, proprietário da farmácia, que está envolvido com os preparativos do casamento do filho que aconteceria naquele dia. Quem teria mandado aqueles dois judeus até lá? E assim a história se desvela, através das reações emocionais de cada habitante que projeta seus fantasmas.  Se constrói dessa forma o enredo do filme através dos sentimentos de culpa, sentimentos persecutórios, de negação, que os personagens expressam. Entendemos que os judeus que ali viviam antes da guerra foram levados para os campos de concentração, alguns traídos por seus melhores amigos. Após isso, os gentios que permanecem, tomam de forma ilícita suas casas e bens.

Cria-se o caos e o pânico entre os habitantes:  O Poderoso, muito nervoso e preocupado, havia se apoderado da casa e dos bens do melhor amigo, ao qual havia traído, e passa a demonstrar um comportamento psicopático de negação de seu ato, revelado pela mulher deprimida, a qual ele trata como doente mental. Esse mesmo homem destrata e humilha o filho, que não se comporta da mesma maneira autoritária e prepotente. Outro personagem, tomado pela culpa e desespero de ter se apropriado do que não era seu, querendo devolver o que não lhe cabe de direito, e sendo impedido, não suporta a angústia e se suicida.

Assim, temos uma rica oportunidade de constatar as teorias psicanalíticas segundo a luz de pelo menos dois autores distintos: Donald Winnicott, com sua Teoria do Objeto Subjetivo[1], e Freud, com o conceito de Projeção, assimilado e muito presente na obra de Melanie Klein.

Os dois judeus que ali chegam nada dizem, nada fazem, a não ser seguir caminhando e olhando ao redor, até chegarem ao cemitério judaico. Quando interpelados pelo Sr. Poderoso, o que queriam ali, respondem: ¨Viemos a um enterro¨; de quem pergunta o Sr. Poderoso; ¨Do que restou de nossos mortos¨; e assim como chegam, se vão. Toda a história é contada por meio do que a chegada desses dois senhores desperta nos moradores da cidade, pelos sentimentos projetados de culpa, medos persecutórios de descoberta e punição, negação maníaca de que seus comportamentos de apropriação indevida foram absolutamente lícitos, ou porque necessitavam, ou porque tinham escrituras que, na verdade, foram forjadas e falsas.

Além dos sentimentos despertados pela presença dos dois senhores, a situação tensa que se cria na cidade faz com que outras situações emocionais entre os moradores apareçam, revelando de forma contundente a natureza humana com o que tem de mais violento:  ódios, raivas, traições, interesses, inveja e ciúmes. A personagem mais lúcida é justamente a mulher melancólica, deprimida, que para aliviar seu intenso sofrimento faz uso de éter. Aquele que seria o mais íntegro só encontra saída partindo daquele lugar, justamente no mesmo trem em que partem os dois judeus, que não vieram a mando de ninguém, para reivindicar nada, cobrar nada, apenas para fazerem um enterro simbólico dos que já morreram.

[1] Conceito de objeto Subjetivo:  Para Winnicott, o ser humano não nasce do ponto de vista psíquico, ele vai se constituindo no olhar da mãe. Como o ser humano nasce numa condição de dependência absoluta e, nesse início, o bebê não sabe que é separado e diferente da mãe, como diz Winnicott: ¨o bebê é o seio¨, é importante que nesse início a mãe possa sustentar essa ilusão de onipotência, sendo essa uma mãe suficientemente boa que se adapta ativamente às necessidades do bebê, e assim sustenta a ilusão de que o bebê cria o seio. Esse conceito é central porque se refere a um aspecto essencial do desenvolvimento emocional que é a experiência da realidade subjetiva. A realidade subjetiva é a condição em que vive o bebê no início da vida e é através dessa condição que se dá a única possibilidade de percepção e apreensão do mundo.

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