A Função materna

” Entender os outros não é uma tarefa que comece nos outros. O início somos sempre nós próprios, a pessoa em que acordámos nesse dia. Entender os outros é uma tarefa que nunca nos dispensa. Ser os outros é uma ilusão. Quando estamos lá, a ver aquilo que os outros veem, a sentir na própria pele a aragem que outros sentem, somos sempre nós próprios, são os nossos olhos, é a nossa pele. Não somos nós a sermos os outros, somos nós a sermos nós. Nós nunca somos os outros. Podemos entendê-los, que é o mesmo que dizer: podemos acreditar que os entendemos. Os outros até podem garantir que estamos a entendê-los. Mas essa será sempre uma fé. Aquilo que entendemos está fechado em nós. Aquilo que procuramos entender está fechado nos outros.”

José luis Peixoto; “Em teu ventre”

Falando de fé.

Existe uma coisa que é a fé: um sentimento e uma certeza que não se pode explicar. Falamos para nos comunicar, acreditamos. O que você ouve? Acredito que você me ouve. Acredito que sabe que sentido estas palavras tem para mim. Acredito que, na nossa linguagem comum, compartilhamos palavras e sentidos. Você me escuta? O que você escuta? Tento te contar alguma coisa, compartilhar algo. Um pensamento, uma história, um pedido.

Mas às vezes sua cabeça funciona como o corretor automático do whatsap. Vai completando as palavras, terminando a minha frase antes que ela acabe. Não me espera terminar. Também não te espero. Exaspero. De onde vem esta fé de ser compreendido?

Não perco a fé, recomeço.

Gostaria de não precisar das palavras. Você brinca comigo, você diz : será que vou ter que desenhar? Quem sabe.

Quem dera a gente pudesse e soubesse desenhar assim. Se tivesse uma penseira, que nem aquela da história do Harry Potter. A penseira uma bacia grande em que os pensamentos refletidos em imagens e cenas pudessem ser observados de fora. A penseira é o sonho? E se eu te contar o meu sonho?

Mas não me lembro mais. Ao pensar no sonho, ele já se escorrega para o fundo da penseira. Conto uma história do meu sonho, uma narrativa do sonho. Mas o sonho já me escapuliu. Nem eu sei do meu sonho.

E não sei se era bem isso… não sei… Não era bem isso que eu queria dizer. Se tudo é mal-entendido… existe bem-entendido? Será que a gente poderia vir ao mundo com uma tecla SAP? Uma legenda … veja bem… uma tabuleta luminosa com explicações . Que idioma, que léxico, compartilhamos – ou não?

Longe, muito longe, era uma vez. Quando eu não podia falar já falavam comigo. Alguém falou por mim meu sono, minha fome. Alguém me disse que eu estava assustado de noite, era escuro. Alguém soube da minha dor de barriga e me colocou de bruços, foi bom. Quem é você, que fala comigo antes que eu me fale? Quem é você, meu cobertor, minha geladeira e meu microondas, meu carro, meu patinete, meu balanço ? Quem é este cheiro familiar, este barulhinho de água esquentando, quem é esta água em que me mergulham para eu brincar? Quem é esta voz que se aproxima e se afasta, nesta certa tonalidade, que me faz dormir? Quem me veste estes panos macios, coloca meias nos meus pés, que eu tiro sem perceber.

Fé. Eu não me esqueço destas memórias das quais não me lembro bem… hoje são fé. Falo com você porque acredito. Espero, porque acredito, que possamos nos bem entender. À parte os mal entendidos … Um dia me adivinharam , hoje quero te falar.

Um dia me pensaram, me sonharam.

Hoje sou.

A função materna resta em fé.

Acima: Uma mãe adotiva dando ao pequeno Leitão assustado a experiência de um banho!

Amamentação e sexualidade: falando sobre isso

O processo de amamentação é de grande riqueza quando pensamos na sintonia que com ele se estabelece entre a mãe e o bebê. Para mais além das vantagens nutricionais e imunológicas, na amamentação há aspectos emocionais que contribuem para o desenvolvimento, no bebê, da experiência de continuidade de ser. A idéia da continuidade de ser é formulada por Winnicott considerando que o bebezinho tem uma pequena capacidade de tolerar os estresses ambientais: barulhos fortes, alterações de temperatura, e até a própria fome que ele não tem condições de perceber que vem de dentro dele mesmo ! Sensações ruins desorganizam o bebê, e cabe à mãe ou aos que dele cuidam garantir a ele um ambiente acolhedor, quentinho, transições suaves , e o atendimento às suas necessidades : que no início são muito grandes. Quem já cuidou de um bebê pequeno sabe que há um grau de exigência alto do ambiente para que tudo corra bem. A tarefa que pode parecer simples é de fato muito complexa, demandando dedicação e amor. Na amamentação que corre bem, o bebê experimenta a sensação de que o seio está lá exatamente quando ele precisa, e essa sensação aumenta a sua experiência de continuidade de ser. Obviamente para que isso ocorra a mãe estará muito atenta e sintonizada com ele. Essa é a grande riqueza da experiência de amamentação de que nos fala Winnicott.

Pode parecer estranho falar de amamentação e sexualidade se pensamos na sexualidade genital, associada à procriação e ao erotismo adulto. Mas do ponto de vista psicanalítico a sexualidade é muito mais ampla, diz de todos os prazeres que vem do corpo e faz parte da vida , nos ligando aos objetos do mundo. Para o bebê o prazer oral de mamar e sugar está conectado ao seu modo de alimentação . Por isso a gratificação de suas necessidades neste âmbito torna-se uma experiência emocional , afetiva. Para a mãe, amamentar também se torna prazeroso ( embora possa haver muitas dificuldades iniciais), e no processo de alimentar o bebê a mãe se conecta ainda mais a ele.

É natural que no puerpério a sexualidade se desloque,do ponto de vista da mãe , para o bebê – e o seio que foi uma zona erógena de prazer para o casal esteja agora ligado ao processo da amamentação, em outro registro libidinal. É importante falar do pai ( ou parceiro- parceira) que em alguns momentos pode se sentir excluído da relação mãe- bebê. Mas o tempo passa e chega o momento em que a adaptabilidade quase perfeita deixa de acontecer: o bebê já pode esperar, e a mãe já deseja retomar aspectos da sua vida que foram deixados de lado no processo. O casal parental deseja retomar sua vida erótica genital, voltar a namorar. Sobre isto falaram Cleyton e Denise, pediatra e psicanalista, na live abaixo. Vale conferir.

( texto de Arianne Angelelli)

Live realizada em 20/08/20 com o pediatra Cleyton Angelelli e Denise Feliciano

Rapunzel e sua torre:considerações a respeito da psicose puerperal

Entre a psicose e a normalidade existem mais conexões do que  gostaríamos de acreditar- e a familiaridade do estranho da psicose nos assusta justamente por sua ressonância em nós mesmos. Diz Nino Ferro “Naturalmente, é com os pacientes graves (e com as partes psicóticas de cada paciente) que continuamente nos expomos às maiores dificuldades… à espera de poder transitar por zonas ainda escuras e cegas da nossa mente”.
Como então distanciar-se do terror da psicose puerperal e dos  transtornos mais graves que podem ocorrer no período perinatal- se um dia já fomos também bebês em estado de dependência absoluta, se a rejeição ao bebê não nos provoca empatia? Se o próprio feminino em nossa cultura não nos fornece referência suficiente? Vivemos numa cultura do matricídio, em que as coisas inanimadas prevalecem sobre o humano, e a relação mais primeira, da mãe com seu bebê, é idealizada ou reificada mas não encontra proteção ambiental necessária ao seu sustento. “É preciso uma tribo para cuidar de um
bebê”, diz o ditado. Esta verdade parece estar sendo esquecida nos nossos dias.
Sucumbem os indivíduos mais frágeis diante das pressões e da instabilidade característica da fase perinatal. Instabilidade esta que é orgânica,pelas intensas flutuações hormonais, pela privação do sono, pelas vicissitudes do corpo e seu Real , tão presentes no momento. Mas também psíquica ,também social, também familiar.
Para a psiquiatria, a conexão entre psicose puerperal e transtorno bipolar faz-se evidente, delimitando um fator de risco dos mais importantes.
Porém, para o analista, a desconstrução do rótulo e a busca de um sentido para o sujeito importam mais. No contato com a paciente o terapeuta tenta prosseguir na construção de um “historiar” e um acolhimento para o delírio -composição e remendo criado pela pessoa para dar significado às suas  vivências. A aliança terapêutica é um holding que vai possibilitar o outro holding, o holding do bebê, impossível nos estágios iniciais de desorganização em que a paciente se encontra. Aqui importa menos o reencontro da mãe e do bebê do que a a possibilidade de a mãe re-significar a si mesma, aprisionada
que está dentro da torre da psicose.
Delírios envolvendo o roubo ou a troca do bebê são muito comuns na psicose puerperal. Podem estar muito estruturados (como vimos no filme “O bebê de Rosemary” de Polanski) ou, no mais das vezes, conectados a um estado paranóide difuso, ligado a grandes flutuações do humor. O que  na psicose aparece como delírio surge como fantasia no período do blues puerperal.
Nesta ocasião de transparência psíquica os ciúmes e conflitos surgem como uma forma camuflada do temor de não ser suficiente, de ter seu bebê “sequestrado” pela sogra, pela enfermeira super competente, ou pela própria mãe. Ansiedades estas que são mitigadas pelo ambiente continente, pela passagem do tempo e pelo descanso. O próprio contato com o bebê faz diluir paulatinamente a flutuação do humor de base neurótica do blues puerperal.
Mas na psicose, o terror é vivenciado – não é bonita a psicose, nem fácil de suportar. Os casos puerperais costumam ser muito graves. Mas, pertencendo ao sitio do estranho, não deixam de ressoar profundamente em nós. Quando eclode o surto, muitas vezes ainda no período da internação, intensas angústias mobilizam toda a equipe do hospital- em geral despreparada para isso. Às vezes a visão médica domina a cena, o que pode roubar à mulher a oportunidade de encontrar, a partir da crise, um caminho para a subjetivação. Sem cuidado, a família se desorganiza, impossibilitada de dar e receber escuta. É quando iatrogenias ocorrem, porque o sujeito psicótico deixa de ser considerado um sujeito, mesmo que a desorganização ocorra de forma autolimitada, mesmo nos casos de resolução mais rápida da crise. A equipe hospitalar raramente tem condições de manejar casos de tanta complexidade.
Apesar de não ser infecciosa, a loucura “pega”, e pega de um jeito que muitas vezes não se percebe. Porém, somente uma atitude cuidadosa e não julgadora tem chance de atingir paciente e família neste momento. Há que se encontrar dialética no cuidado : enquanto, de um lado, o psiquiatra busca e ajusta as medicações, o manejo da enfermagem é de particular importância, pois as famílias se desestruturam e a paciente está muito regredida. Enquanto o antipsicótico age para reduzir as manifestações
delirantes e a desorganização, no contato com a paciente o terapeuta prossegue fornecendo uma escuta única, uma escuta para o delírio, para o ser quebrado desta mãe que ainda não pode constituir-se como tal. Sem contar a particularidade da vinda do bebê: quem vai se ocupar dele? Tamanha é a complexidade do manejo nos casos de psicose puerperal.

No conto de fadas que narra a história da Rapunzel, a apropriação pela mulher de algo que pertence à bruxa faz com a mesma reivindique o bebê desta mulher, assim que ele nasce: como pagamento pelo roubo. Sua primeira filha.

Ou seja: a Rapunzel nasce de uma mulher que, na gravidez, comeu rabanetes roubados da horta da bruxa. Mulher que, ao parir, paga uma dívida .
Para quem não se lembra da história, a menina Rapunzel cresce encerrada em uma torre até poder ser resgatada por um príncipe. No conto, é a mediação do príncipe que desfaz o encanto do seu aprisionamento.
Pensando no período pos-parto, podemos imaginar  a psicose como um aprisionamento em que a mãe, que deve à bruxa, não pode apropriar-se do lugar materno. Outrossim, tem seu bebê roubado. Que bruxa é esta? Sua própria mãe? Algo de sua história?
Como saber… Cada mulher e cada Rapunzel terão sua história particular. Mas sabemos que mulheres psicotizam mais no pós parto do que em qualquer outra época da vida… Pois algo arriscado acontece à mulher que pare e é convocada a tornar-se Mãe. Agora ela é chamada a responder a uma pergunta e ocupar um novo papel. Este bebê é meu? Tenho permissão para ocupar este lugar?
Penso que a estória de Rapunzel é cena e enredo vivido no pós parto de muita mãe que passa a delirar sobre a troca, a morte, o sequestro de seu bebê.
De certa forma, é a mãe que está então confinada na torre da sua própria psicose. A mulher, roubada de si mesma, estará à espera de um terceiro, um mediador, que quebre o encanto da indiferenciação entre ela e a bruxa. Estará à espera do “príncipe” sem o qual jamais poderá se separar, se organizar, tocar o chão. Quem poderá enfim ajudá-la a tecer, no vão que surge entre as suas tranças cortadas- cortadas como um cordão umbilical- um pouco de sentido, um tanto de coragem, para poder se apartar da bruxa? Eis uma aproximação poética do trabalho a ser feito no caso da psicose. Dizem que o príncipe também, ao tentar chegar perto da Rapunzel, levou um tombo danado. E aí,
quem se habilita? Será que esta história ainda pode ter um final feliz?
Arianne Angelelli
Julho- 2020

A difícil arte da intimidade

E, no entanto, constroem-se pontes.

Antoine de Saint-Exupéry

O filme israelense The Day After I’m Gone ( O dia seguinte à minha partida) apresenta de forma dramática e intensa a tensão que pode estar presente entre um pai e uma filha que apresentam muitas dificuldades de comunicação.  Habitando o mesmo espaço físico, existe um abismo entre eles e uma impossibilidade de se construir uma ponte que possa criar um caminho de encontro.

O abismo entre eles nos é apresentado logo no início do filme. Yoram, que é veterinário, diz à sua colega de trabalho que se descobre que o filho entrou na adolescência quando se passa a odiá-lo. Após formular essa frase chocante e de impacto, conta do desaparecimento de sua filha adolescente há dois dias.  A amiga lhe interroga onde ela poderia estar e se a polícia ainda não foi acionada, provavelmente pensando que a garota poderia estar em apuros ou sofrido violência. Ele, apesar de preocupado e aflito, nega tal fato dizendo que ela já vai voltar, que é “coisa de adolescente”. Percebemos então que o pai também não está podendo acessar os próprios sentimentos de preocupação com a filha. Voltando para casa, porém, já sensibilizado pela conversa com a amiga, decide ir à delegacia. É repreendido pela delegada pela demora em comunicar o desaparecimento. A delegada lhe diz que a filha é criança, e ele não concorda, pois considera a filha responsável pelos próprios atos. A policial retruca que, por lei, por ter apenas 16 anos, ela ainda é uma criança. Para obter dados sobre a filha e poder iniciar uma busca começa a lhe fazer perguntas:  se tem a senha do celular da filha, se ela tem facebook ou instagram, etc. Ele não tem nenhuma dessas informações- o que já vai revelando a distância e o desconhecimento da vida e do cotidiano da filha.

 A questão da intimidade e de quem é o outro sempre foi um ponto que muito me intrigou e afligiu. Esse tema é intensamente tratado no livro de Josephine Hart “ Perdas e Danos”, que foi transformado em filme por Louis Malle ( 1992), baseado num caso verídico que aconteceu na Inglaterra :  um ministro da Alta Corte se envolve com a namorada do filho, que quando os flagra num encontro se joga pela janela. Enquanto o pai vai vive esse tórrido e proibido romance se pergunta como isso é possível:  como pode ele estar ali,  deitado ao lado de sua mulher, com quem é casado há tantos anos, como se nada estivesse acontecendo. E como é possível que a esposa sequer desconfie de qualquer coisa  enquanto ele vive essa paixão avassaladora e louca. Essa é uma situação que o angustia muito- essa situação de divisão e ambiguidade convivendo dentro de si, sem que o outro ao seu lado tenha sequer ideia.

Sempre me perguntei quem de fato é o outro–  o que sabemos das pessoas que convivem ao nosso lado. Essa é uma situação muito comum nos nossos dias, principalmente com filhos adolescentes:  por mais que os controlemos, o que sabemos de sua intimidade, de quem são eles?

Este pai, voltando para casa depois do desconcertante diálogo com a policial, permanece sentado, imóvel no sofá, olhando para o nada. Preocupado? Com raiva? Totalmente imóvel e com o olhar perdido. De repente a adolescente Roni abre a porta, entra, cumprimenta-o friamente e vai para seu quarto como se nada tivesse acontecido. Ele pergunta onde estava e ela responde um lacônico “por aí”.

Na noite seguinte o mesmo ritual frio e distante se repete : Roni chega, dá um “oi” e se dirige ao seu quarto. Na madrugada, enquanto dorme, Yoram  é acordado com batidas à sua porta – investigadores da polícia chegam dizendo que foi  identificado nas redes sociais uma comunicação dela de que iria se suicidar. Ele reage violentamente achando isso um absurdo, uma invasão, mas a polícia força a entrada e de fato a filha já estava desacordada após ter ingerido remédios para se matar. A moça é levada para o hospital.

Atordoado com tudo isso, no hospital , é abordado por um judeu ortodoxo que reza pela filha e lhe entrega um livro de reza,  lhe dizendo que reze também por sua recuperação.

Depois do ocorrido retornam à casa e o mesmo clima de distância permanece sem que ele consiga se aproximar da moça, sem que possam conversar sobre o que aconteceu. O silêncio entre eles permanece inalterado, tenso. No decorrer do filme somos informados de sua esposa morreu recentemente, e de que antes deste fato , os três eram muito próximos e unidos.

Ele, sem saber de fato o que fazer, como se aproximar, conversar e acolher a filha, decide ir visitar a família da esposa que mora ao sul de Israel. Comunica-lhe sua decisão, a qual ela acha muito estranha porque parece que não tinha um bom relacionamento com a mesma. Partem em viagem no mesmo silêncio por todo longo trajeto, fluxo represado, denso e tenso.

Ao chegarem, encontram a família da mãe com todas as suas esquisitices. Vamos nos dando conta porém que esse foi um gesto desesperado , um pedido de socorro de um pai paralisado e impotente diante da impossibilidade de um gesto espontâneo em relação à dor e ao sofrimento da filha. Roni havia lhe pedido que não lhes contasse nada de sua tentativa de suicídio, mas ele o faz numa conversa particular com sua cunhada. Esta lhe pergunta se a moça queria de fato se matar e ele responde que não, que queria apenas lhe mandar uma mensagem, chamar sua atenção. E ele diz  que não faz ideia do que ela realmente  queria lhe comunicar. 

Diz Winnicott que quando a criança descobre que pode se esconder, que tem essa possibilidade, isso lhe dá a descoberta de um poder… mas se ao mesmo tempo  é uma glória poder se esconder, é uma tragédia não ser encontrado!  De certa forma a moça, neste filme,  não era encontrada pelo pai, que a via mas não a percebia, não a sentia:  ela lhe era uma estranha. Em seu trabalho sobre a tendência antissocial Winnicott diz que quando a criança ou adolescente apresentam comportamentos de agressividade, mentiras, roubos, rebeldia, estes comportamentos antissociais estão expressando um sentimento de que algo bom foi perdido por uma falha que é atribuída ao ambiente. Sabendo que a falha é do ambiente, estão vivendo uma deprivação afetiva e desejam resgatar o que tinham de bom e perderam. Endereçam então ao próprio ambiente esse protesto que ao mesmo tempo é um pedido de ajuda.  O momento do comportamento antissocial é justamente um momento de esperança: identificaram  em seu entorno algum sinal que lhes deu a esperança, ou a ilusão,  de que a falha pode ser  reconhecida de modo a se restabelecer a situação anterior.

A tia, ao se inteirar do fato, imediatamente diz que tem sim que contar à família, que seria absurdo não contar, que isso é muito sério – e a partir daí assume a administração da situação. Reúnem a família inteira em uma “roda de conversa”, chamam a menina para lhe dizer, cada um à seu modo, que reconhecem a dor da sua perda, da terrível vivência da doença e morte da mãe. Falam inclusive da própria dor relativa a esta morte, reiterando que Roni é membro da família e muito querida por todos ali. Cada um fala de seus sentimentos por ela, da importância que tem, reconstruindo sua história desde o nascimento, rememorando momentos significativos de sua vida.

Ao partirem, ela está, obviamente, furiosa com o pai por ter violado o seu segredo. Pede à ele para voltar dirigindo o carro, pedido que já havia feito na ida mas ele não permitiu – e eis que dessa vez ela vem dirigindo no caminho de volta. O mesmo silêncio se mantém entre eles, apenas um pouco mais leve. No caminho, passam pelo túmulo da mãe e a filha chora: a situação do luto extremamente dolorosa já não é negada. Chegam em casa e num primeiro momento não parece haver qualquer mudança no relacionamento entre eles… Roni vai para seu quarto enquanto Yoram fica na varanda.

Porém, quando a moça vai à cozinha pegar um copo de água , logo em seguida, encontra o livro de rezas que o pai trouxera do hospital.  Olha, acha estranho e pergunta a ele o que é aquilo, ao que ele lhe responde: Rezei por você enquanto você estava no hospital… Ela sorri …e vem sentar no sofá da sala, ligando a televisão.

Através desse simples gesto a filha consegue se dar conta do amor do pai, da sua importância para ele, sua angústia e sofrimento com o que poderia ter lhe acontecido. Sendo o pai não religioso, ter rezado por ela e ter trazido o livro para casa era muito significativo, e assim finalmente ela conseguiu ser encontrada.

As vezes é muito difícil lidar com os adolescentes e saber exatamente qual seria a conduta mais acertada, e a medida adequada do limite. Apesar do seu pedido de não contar nada à família da mãe e da fúria pelo pai não ter atendido a este pedido, foi de extrema importância a família ter se encarregado do seu desespero e do sofrimento de Roni. A ação da família foi reconhecer e nomear sua angústia e sua perda, acolhendo esses dois seres atolados em si mesmos, sem conseguir compartilhar o sofrimento, por não poder elaborar o luto da mãe/esposa que funcionava como a ponte e o elo de comunicação da família.

Também foi um processo muito importante a possibilidade do pai  ter a humildade de reconhecer sua total impotência para lidar com a situação, se aproximar da filha e compreender o que se passava com ela.

O momento atual da humanidade é um momento de luto coletivo, onde estamos tendo que lidar com muitas perdas ao mesmo tempo, desde a morte física de pessoas próximas e queridas, como a nossa vida roubada- um momento em que como um todo estamos sofrendo uma deprivação. As crianças perderam os amigos, a escola. Os professores, suas atividades regulares, sua rotina, assim como adultos e adolescentes. A ideia da morte paira no ar como uma possibilidade real e concreta. Roubaram-nos a possibilidade de fazer planos e com isso os sonhos, os projetos…Estamos à deriva…. cada um de nós tendo que encontrar em sua história e circunstância a esperança de um porto onde atracar com segurança permanecer em espera. As relações de amor que cultivamos, agora, são o nosso porto seguro.


Aponte
Ê, a nuvem vai fazer chover
Lavar a terra maltratada
Sem teu amor, não sobra nada
A gota d’água pra viver
Tão seco assim não brota nada
És minha santa, és minha amada
Fui te encontrar pra me perder
Aponte que eu não enxergo quase nada
Nem assovio, nem um pio
Pode vir raio ou trovoada
Eu não arredo desse rio
Aponte onde dá o norte
Aponte onde leva o rio



Composição: Lan Lan / Nanda Costa / Sambê

Para assinar o MUBI https://mubi.com/pt ( vale muuuuuuuuuito a pena!)

O filme THE DAY AFTER I`M GONE pode ser visto em https://mubi.com/pt/films/the-day-after-i-m-gone

Benzinho- a Nossa Pietá brasileira


Benzinho-  A nossa pietá brasileira

Sobre a relação do homem com sua mãe, a nossa blogueira  do Gesto Espontaneo , Cecilia Hirchzon escreve *:

“O homem, para ser “si mesmo” e para constituir a sua identidade masculina, terá de se separar desta Mulher,  de quem dependeu totalmente. Já a mulher, para se constituir como tal, não precisa estabelecer necessariamente a separação – pode manter-se identificada com essa Mulher. Observamos, portanto, duas direções distintas: enquanto a mulher lida com a Mulher dentro de si através da identificação, o homem tem que se separar, tornar-se único, o que se constitui em uma urgência no desenvolvimento da sua identidade. A especificidade da identidade feminina caracteriza-se por ser geracional e infinita, isto é, podendo manter dentro de si três mulheres: o bebê menina, a mãe e a mãe da mãe. Essa condição possibilita à mulher o desempenho de diferentes funções sem violar a sua natureza. Pode ocupar posições diversas nas brincadeiras, onde ora é mãe, ora é filha, alternando papéis. Ou, ainda, na idade adulta, exercendo a sua feminilidade, ocupando o lugar de mãe e/ou mulher sedutora. Enquanto isso, o homem não se funde nessa linhagem – sua condição básica é a de ser um”.

No belíssimo Benzinho, de Gustavo Pizzi,  o primogênito de Irene, mulher brasileira , mãe de quatro filhos, vai embora para a Alemanha. Foi  convidado por uma universidade  interessada no seu talento esportivo. O adolescente vibra enquanto a mãe se quebra, assustada com a partida súbita, fora de hora, do filho. A história de Benzinho é o processo que se desencadeia com a chegada deste convite que tanto abala a Irene  . O principal foco do filme é o  ponto de vista da mãe que tenta aceitar a situação. De sua alegria e de sua tristeza por ver o filho partir .  Irene é “Pietá” : numa das cenas mais lindas que já vi no cinema, a mãe embala seu filho numa bóia , aproveitando este momento de grande intimidade entre eles, já elaborando sua partida…

O amor materno , no filme Benzinho, se desdobra em suas mais variadas possibilidades  ( como diz a Adelia Prado, mulher é desdobrável) . A mãe suficiente boa, por sua saúde e sua capacidade de lidar com a perda e a separação, aparece na interpretação de Irene. Mãe suficientemente boa que se atrapalha, fica brava, dá chilique, chora, pira, respira, mas, enfim, ama. A gente fica apaixonada pela Irene. Embora abatida, apoia o seu filho e o desejo dele, reconhecendo sua alteridade, lidando de forma muito humana e amorosa com a separação.

O longa foi escolhido como o filme brasileiro que vai disputar uma vaga entre os quatro finalistas ao Prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-americano, considerado o Oscar espanhol.

E, para refletir…uma música e um poema.

O gato andaluz*

(Rosa Alice Branco)

O meu filho caminha por aí. Já não sei

se é o Douro ou o Darro que lhe embala o sono.

Nem onde guardei as datas e o nome das ruas

ou se vou te encontrar logo à tardinha.

Deixei-me de saber e de pensar que sei.

Um gato arranha à minha porta a miar em andaluz.

Eu arranho a porta a dois dias daqui, duas horas

De avião. É proibido miar nos voos europeus.

Engulo a saliva do dia e assim se faz noite.

E não há gaivotas a gritar por mim. Por mim

estou eu à janela do avião. As malas

com que hei de dizer-te: cheguei. O teu abraço

como um rio qualquer onde corra água.

Esquecer o que ficou para trás e a língua que me fala.

Levar o copo à boca onde nasce a boca,

A fonte do quintal, a nascente do mar. O meu filho

Voa como se caminhasse descalço. Cruzamo-nos

no horizonte sobre a linha do rio onde deságua a luz.

E as palavras aquietam-se no seu nada.

( do livro Soletrar o dia, Ed escrituras, 2004)

o filme pode ser visto pelo Now ou Youtube nos links: https://www.nowonline.com.br/filme/benzinho/385245

O sono dos bebês

por Gilca Zlochevsky

  Os bebês acordam muitas vezes ao longo da noite, sobretudo, no primeiro ano de vida. Os conceitos de Donald Winnicott de integração e não-integração me pareceram interessantes para nos aproximar desse fenômeno. A integração surge gradualmente a partir de um estado primário não integrado. O repouso representa um retorno ao estado não integrado. Esta volta não é necessariamente assustadora para o bebê se a mãe lhe assegura um sentimento de segurança principalmente na maneira que o bebê é acolhido. A integração parece relacionada às experiências emocionais ou afetivas mais definidas tais como a raiva ou excitação ligada à amamentação. Muitos bebês acordam, precisam do colo e também do seio para se sentirem novamente integrados, voltarem a dormir e retornar ao estado não-integrado. Os pais ficam aflitos uma vez que são crianças espertas, estão se desenvolvendo muito bem mas  evidenciam nestes movimentos que são bebês e necessitam serem vistos como tal. Estas oscilações variam muito de um bebê para outro. A posssibilidade da mãe poder reconhecer esses estados, tolerá-los e atender ao bebê, apesar do cansaço que isso representa, ajuda a criança aos poucos ir se reassegurando que ela não vai cair num abismo, nem mesmo se desintegrar. 

Quando estamos na área da necessidade, não se tem tempo de esperar a hora

Um bate-bola com os adolescentes

Vozes em Debate: Adolescência

Gabriela Viana conversa com a especialista em psiquiatria da infância e adolescência pelo Hospital das Clínicas da USP, Arianne Angelelli, e os adolescentes Gustavo Polo, de 14 anos, e Beatriz Videira, de 17 anos.

Publicado em 17/07/2019•Duração: 52min

https://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/267570/vozes-em-debate-adolescencia.htm

meninas e o álcool

Não há um consumo seguro de álcool na adolescência.

A cura da adolescência é a passagem do tempo. ” nos diz  Winnicott.

Sabemos que eles e elas vão testar nossos limites, mas temos de nos posicionar firmemente : “Onde houver o desafio do rapaz ou da moça em crescimento, que haja um adulto para aceitar o desafio.” 

o pai no pós parto

A elaboração psíquica do processo gravídico puerperal e do fenômeno da parentalidade ocorre em homens e mulheres e o processo ocorrido com o pai tem sido menos documentado. A paternidade é um momento de crise para o homem, que, quando adoece, tende a apresentar mais sintomas externalizantes e ter sua depressão não reconhecida pelos profissionais de saúde.

Que jogo é esse?

“Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: “Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?”. Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.” Rubem Braga

Está difícil essa quarentena. Para quem está em casa, para quem está doente, para os idosos com medo, para as crianças sem escola. Para quem não está doente, para os que se alienam numa casa na praia da Baleia com três babás- sim, alienar-se traz um custo também. O mundo não vai parar de bater na nossa porta mesmo que ela não seja ela um barracão de zinco sem janela e sem trinco. Uma gaiola de ouro ainda é gaiola, e todo ensimesmamento cobra um preço, empobrece a alma, endurece o coração. Os otimistas esperam e os desesperados tem seus temores confirmados; para eles o mundo não será como antes, agora o medo tem nome .

Mas este recado aqui vai para os casais. Àqueles que estão se fazendo companhia neste momento particular, fora do combinado, não estando de férias, nem em recesso, não sabendo quando vai terminar. Aos que se encontram sob a luz fria da solidão à dois.

Gostaríamos de dizer algumas coisas. O amor é coisa difícil. Amor começa tarde e felicidade não é obrigação. E, como dizia o meu dentista Carlão lá de Guaxupé, casamento é coisa de profissional, não é para amador, não. Para Winnicott, ter concernimento, cuidar de um outro, reconhecer mesmo o outro, é processo de amadurecimento e nunca termina de acontecer na nossa vida. A vida toda, nos relacionamos com o outro e com a idéia que fazemos dele, negamos e aceitamos a sua alteridade, focando e desfocando a sua imagem conforme a nossa cegueira particular. É possível enxergar o outro, ou mesmo a nós mesmos? Quanto dói perder a ilusão… pode-se viver sem ilusões?

Talvez essas perguntas não tenham mesmo resposta ou morem na filosofia. Amor rima com dor – diz o poeta. Mas sempre podemos conversar. A arte de conversar, que pode ser aprendida, que a psicanálise preza, é metaforizada por Rubem Braga como um jogo de frescobol. Rubem Braga, capixaba, grande cronista, sensível artista. Vejamos o que ele diz:

“Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa. Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo…”. Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada”. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro. O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá…”

Esta metáfora do jogo de frescobol é útil para pensar também a psicanálise, na sua vertente intersubjetiva. Muita gente boa na psicanálise vem falando sobre este frescobol que acontece numa sessão, a possibilidade de brincar de verdade com os sentidos que envolvem as palavras que dizemos. Reconhecer que entre dois existe sempre um terceiro : o entre-dois, aquele que criamos juntos, na relação. Somos nós e os nós que se formam nesse laço que tecemos a dois.

A experiência do frescobol, numa análise ou numa conversa boa, é proveitosa e inesquecível. Pode ser rara no casamento, que (penso diferente do Rubem Braga) tende a ter seus momentos de frescobol entremeados entre as ferozes cortadas do tênis jogado a dois, em diferentes medidas conforme o momento e a constituição de cada casal. Criar e destruir o outro faz parte da experiência.

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…

Parece que na quarentena precisamos mais do que alcool gel e máscaras, precisamos do cuidado com as nossas relações, e jogar frescobol com o sol na cara, na areia quente. Paciência. Tolerância. Se a bola vier meio torta, pense um segundo: que jogo é esse?

Ritmo: um organizador do psiquismo

                           

 

                         “Eu quero a revolução

                    mas antes quero um  ritmo”

                                                        Adelia Prado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conheci um menino que acaba de ganhar um irmãozinho , ainda antes de desmamar.

Perto de fazer 2 anos , mama antes de dormir, já come bem e vai a escola, brinca e fala. Mas, com essa novidade tremenda na sua casa, agora reluta em dormir. A mãe, cansada, que amamenta o dia todo o menorzinho, precisa que ele compreenda esse novo limite. Conta que agora ele não quer deixar de sugar, fica por muito tempo “grudado” no peito. Conheci também uma mocinha que só  consegue dormir com o celular do lado, vendo sua série favorita. Acorda cedo para a escola e sente sono nas duas primeiras aulas. Os pais  pensaram em alguma maneira de desconectar a internet dela depois das 22h. Mas ela , esperta, usa a rede da vizinha. E tem o jovem que combina de jogar video game on line com os amigos e passa da meia noite facilmente- inclusive descobriu um jeito de fingir dormir para depois levantar na calada da noite para voltar ao jogo. Numa noite o pai acordou indisposto e foi aquele Deus-nos-Acuda. Quanto mais limites ao jogo os pais colocam, mais aumenta seu desejo de jogar… Por outro lado, a mãe de um mocinho muito parecido com este outro dorme somente com o seu “Stilnox”. Como ela, outros tantos vem desaprendendo a dormir e se descuidando dos rituais saudáveis que o dormir pede ao corpo: não precisa diminuir o ritmo, se tem um indutor de sono a disposição. Voce  pode estar “à mil” e daí BUM : basta tomar o remedinho, para dormir em cinco minutos.

Conheço também um cara muito bacana, pai de dois filhos, que não almoça nem toma café  da manha. Até as duas, três da tarde, passa com café e cigarro, não sente fome. De noite faz uma lauta refeição. Ele é magrinho, mas um outro senhor que conheci teve de fazer cirurgia bariátrica, aquela da redução de estômago. Tinha os hábitos semelhantes,estava muito obeso e comia somente de manha e muito tarde a noite; pois passava o dia na sua loja dentro da estação do trem  sem nenhuma pausa para lanchar ou descansar. Tudo que é  simples ( ou deveria ser) no corpo, depende de um certo ritmo. Dormir e acordar. Comer, trabalhar, descansar. Ir ao banheiro todos os dias. Uma amiga começa sua segunda graduação. Sente que perdeu muito tempo, por isso estuda todos os dias, inclusive sábado, domingo. Muitas horas seguidas. Não percebe que sua capacidade de concentração flutua, e sem fazer as devidas pausas acaba por gastar parte do seu tempo de forma contraproducente. Se sente muito cansada, ansiosa.

Ritmos. Pausas. Cadências. Cada pessoa tem a sua necessidade de sono, de sexo, sua fome, sua capacidade de concentração. Alguns se sentem muito mais espertos de noite, outros se irritam muito quando passa a hora de comer, ou tem enxaquecas. No filme ” O Novíssimo Testamento” a menina divina escuta o coração de cada pessoa e diz a musica que ouve em cada um. Cada um de nós teria um ritmo , uma melodia particular. Mesmo no jeito de falar diferem as pessoas. Nas pausas para respirar. No fluxo do pensamento. E os bebês ja tem seus ritmos dentro do ventre materno. Bebês e mães podem ter os seus ritmos semelhantes, sincronizando facilmente, ou nem tanto. Existem bebês que adoram barulho, passear. Outros tem um temperamento mais arredio. As sensibilidades também variam, muitíssimo. ao som, ao calor, aos estímulos do ambiente. Mas a descontinuidade e as mudanças de estado sempre incomodam os bebês. Quando são trocados, quando são despidos, quando são despertados. Um pouco como nós…quem nunca sentiu um desprazer quando o despertador toca, quando o feriado  acaba, quando esfria de repente.

Quanto mais imatura a pessoa, mais difícil para ela  lidar com as mudanças, as imposições do meio e dos outros, as mil interrupções da vida . Um bebê precisa de outro alguém a lhe garantir um ambiente reassegurador, tranquilo, e esta tranquilidade advém de muitos fatores: um deles o ritmo.

Cedo a mente humana aprende a perceber os padrões ritmicos do ambiente; e dentro do corpo somos também ritmo: respiração e coração. Mas o que é o ritmo? Ritmo é o contraste entre presença e ausência, continuidade e descontinuidade, na presença de certo padrão, no tempo. O que marca um ritmo é a repetição. A compreensão de padrões, mesmo que de forma intuitiva- ou principalmente desta forma-torna possível suportar a ausência e a falta, preencher as lacunas e as esperas; e é por isso que no cuidado com os bebês pequenos a rotina é algo tão importante. O balançar acalma, o ninar é ritmico, a fala humana ao se dirigir a um bebê adquire uma tonalidade especial. Ao longo dos dias e do seu desenvolvimento , a criança, apoiada na previsibilidade dos ritmos maternos e do ambiente, aprende em pouco e pouco a tolerar e a esperar.

” No inicio o ritmo é um recurso para superar a violência da descontinuidade acalmando o bebe por meio da pluralidade de atividades ritmicas ( balanço, sucção, canto de ninar,etc). As experiências do bebê fazem-no confrontar-se com rupturas, descontinuidades, momentos de presença dos objetos que se alternam com ausências. Para evitar que isto  se revele traumático, é a ritmicidade da alternância presença/ausência  que vai  sustentar o crescimento mental”.  Para Vitor Guerra, autor da citação acima, a ritmicidade promove uma ilusão de permanência e continuidade verdadeiramente estruturantes para o psiquismo inicial.

Aquele menino se apega ao seio pois não está suportando agora, com a chegada do irmão, uma dose extra de descontinuidade em sua vida. Adolescentes tem dificuldade em deslogar, desligar, e se desorganizam facilmente. Adultos, também. Estamos demasiado acostumados com as máquinas. Comer, dormir, defecar, descansar: o corpo nos exige essas pausas que o ambiente moderno, que não pára de funcionar, nos nega. O Unibanco já era de 30 horas, antes de ser comprado pelo Itaú, imagina agora. E ninguém escuta mais o Adoniran que não quer perder o trem das onze. O trem das onze é o trem do sono: passou, perdeu, perdeu o sono. Não são apenas  os bebezinhos que precisam do ritmo e da rotina para se organizarem. Num nível profundo e  possivelmente  relacionado ao próprio desenvolvimento da mente, o ritmo aparece com elemento estruturante e organizador. Na vida adulta, ainda precisamos do ritmo e o buscamos para atingir estados mentais mais tranquilos, respirando, aprendendo a esperar e acolhendo os limites do nosso corpo , das nossas necessidades mais profundas , da finitude e da falta que nos constitui , humanos.

Para saber mais sobre o pensamento de Victor Guerra:

https://scholar.google.com.br/scholar?hl=pt-BR&as_sdt=0%2C5&q=el+ritmo+en+la+dimension+victor+guerra&btnG       

 

E aqui uma cena do filme ” o Novissimo Testamento”, filme belga de 2016. Recomendamos muito!

https://youtu.be/7LC0pTOQA4I?list=PLObaNLA3v3VwAnJxQlhbud-1-P5CsxX7B

O bolo de caneca

Por Odeliz Basile

A memória  guarda o seu passado. O olhar, o sabor, o cheiro, o toque, a cor a alegria e o dissabor vivido na infância de cada um de nós.

Toda criança é criança em qualquer tempo ou lugar do mundo. Cada um a seu jeito tráz na memória suas brincadeiras e brinquedos prediletos.

Quem não se lembra das cantigas de criança como: “Alecrim”, “Ciranda Cirandinha”, “Se essa rua fosse minha”,  “O Cravo brigou com a Rosa”, “ O sapo não lava o pé”, ou então, “ A barata diz que tem”, entre tantas outras canções.

Brincadeiras e brinquedos como boneca, carrinho de rolimãs, luta de espadas, bola, cabelereira, bicicleta, cabra cega , bater figurinha, esconde-esconde e futebol. Ou então, os brinquedos como  escorregador, gira-gira, gangorra, balança , bicicleta e patinete.

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Quem foi Victor Guerra

 

Por Carla Braz Metzner

 

O psicanalista Uruguaio Victor Guerra dedicou a sua vida ao estudo, pesquisa e atendimentos clínicos da relação mãe/ bebê, da primeira infância, adolescentes e adultos.

Ele realizou por mais de vinte anos consultas terapêuticas em um jardim da infância inspirado nas contribuições tão importantes de D. Winnicott .
Estava trabalhando na sua tese de doutorado em Paris, sobre o ritmo e os indicadores de intersubjetividade no processo de subjetivação do bebê. Mas seu falecimento precoce interrompeu seu percurso, o seu trabalho e suas contribuições continuam reverberando entre nós.
Sua tese de doutorado será publicada em Paris com um evento em sua homenagem no dia 12/1/2019. Seu trabalho trouxe grande contribuição ao pensamento psicanalítico.
No dia 22 e 23 de junho de 2018 ocorreu uma homenagem para Victor Guerra em Montevidéu. O tema era : o que  nos ensinam os bebês? – Prof psicanalista Victor Guerra.
Neste evento o mais marcante era a transmissão de uma forma, de uma ética psicanalítica  presente no respeito ao outro, aos profissionais  e pacientes.
Na sua disposição de mente para fazer dialogar os autores e as teorias, que como ele dizia ,trazia movimento, ritmo e abertura para ir em busca do sofrimento humano e poder através da arte, da literatura e da poesia encontrar o assombro,  e a capacidade negativa como elucida o escritor john Keats. A Capacidade para viver a incerteza, o não saber, para poder lidar com o lamentável  e o sublime da condição humana, como assinala o escritor Octavio Paz tão apreciado por ele.
Victor foi coordenador da Fepal da área de crianças e adolescentes e foi um dos idealizadores da carta de Cartagena. Nos  trazendo a contribuição de varias associações e sociedades de psicanálise, se posicionando favoráveis ao tratamento psicanalítico do transtorno do espectro autista, reconhecendo toda experiência dos profissionais e produção de conhecimento construído pela psicanálise.
Victor encontrava na poesia sua inspiração para a clínica e para a vida, sua lista de escritores e poetas preferidos é muito grande, mas o escritor Uruguaio Felizberto Hernandez que aparece no fundo desta fotografia do Victor exerceu grande influência. Sua descrição dos personagens humanos, do seu mundo interno e seus dilemas despertaram seu interesse pela psicologia e psicanálise na adolescência, assim como sua experiência de vida com os imigrantes que frequentavam o boliche de seu pai e contavam suas histórias e seus dramas.
Os escritores brasileiros Ferreira Gullar e Manoel de Barros também foram sempre muito citados em seus trabalhos e em sua tese. E para também homenagear Victor neste texto cito um poema de Ferreira Gullar que ele gostava muito.

Despedida
Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.
De fato,
neste momento estarão de mim arrebentando raízes tão fundas.
Quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei, rostos amigos
tardes e verões vividos
Estarão gritando ao meu ouvido
para que eu fique , para que eu fique.
Não chorarei
Não soluço maior do que despedir-se da vida.
Ferreira Gullar

Abrir a possibilidade para novas narrativas: um desafio. por Angela Hiluey.

http://pepsic.bvsalud.org/pdf/vinculo/v15n1/v15n1a02.pdf

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Abrir a possibilidade para novas narrativas: um desafio. Hiluey, A.

ABRIR A POSSIBILIDADE PARA NOVAS NARRATIVAS: UM DESAFIO

Angela Hiluey

RESUMO

Uma diversidade de narrativas pode enriquecer a vida humana, dada a possibilidade de atribuir significado à experiência relacional desde a vida intrauterina até a morte, postula Linares (2003; 2014). Por outro lado, conta-se com a resistência do ser humano a rever suas visões. Dada tal resistência, neste trabalho tem-se como objetivo mostrar uma ferramenta para auxiliar na construção de novas narrativas: a atividade artística-lúdica no atendimento a casais e famílias sob a ótica da abordagem sistêmico-integrativa. Tal ferramenta tanto permite que o ser humano, sem se dar conta, expresse sua angústia, quanto permite ser uma intervenção terapêutica propriamente dita. Através de um caso clínico, será ilustrado o planejamento da atividade lúdica; o uso da atividade proposta; e seus resultados. Constatou-se que novas percepções puderam ser referidas, e as mesmas permitiram a construção de novas narrativas familiares.

Palavras-chave: narrativas familiares; atividade lúdica; atendimento a casais e famílias; abordagem sistêmico-integrativa.

OPEN THE POSSIBILITY FOR NEW NARRATIVES: A CHALLENGE ABSTRACTS

A variety of narratives can enrich human life, given the possibility of assigning meaning to the relational experience from intrauterine life until the death, postulates Linares (2003, 2014). On the other hand, there is the resistance of the human being to revise its visions. Given this resistance, this work aims to present a tool to assist in the construction of new narratives: the artistic-ludic activity to care for couples and families from the perspective of the systemic-integrative approach. Such a tool allows the human being, without realizing it, to expresses his anguish, as it allows to be a therapeutic intervention properly said. Through a clinical case, will be illustrated the planning of the ludic activity; the use of the proposed activity; and their results. It was observed that new perceptions could be referred to, and they allowed the construction of new family narratives.

Keywords: family narratives; ludic activity; care for couples and families; systemic- integrative approach.

ABRIR LA POSIBILIDAD PARA NUEVAS NARRATIVAS: UN DESAFIO RESÚMEN

Una diversidad de narrativas puede enriquecer la vida humana, dada la posibilidad de atribuir significado a la experiencia relacional desde la vida intrauterina hasta la muerte, postula Linares (2003; 2015). Por otro lado, se cuenta con la resistencia del ser humano a revisar sus visiones. Dada tal resistencia, en este trabajo se tiene como objetivo mostrar una herramienta para auxiliar en la construcción de nuevas narrativas: la actividad artística-lúdica en la atención a parejas y familias bajo la óptica del abordaje sistémico-integrativa. Tal herramienta permite tanto que el ser humano, sin darse cuenta, expresa su angustia, como permite ser una intervencion terapeutica propiamente dicha. A través de un caso clínico, se ilustra la planificación de la actividad lúdica; el uso de la actividad propuesta; y sus resultados. Se constató que nuevas percepciones pudieron ser referidas, y las mismas permitieron la construcción de nuevas narrativas familiares.

Palabras clave: narrativas familiares; actividad lúdica; atención a parejas y familias; enfoque sistémico-integrativo.

“O mundo não é o que penso, mas o que vivo, estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inesgotável.”

(Merleau-Ponty, 1971, p.14)

Esta epígrafe nos oferece a oportunidade de nos apercebermos que enquanto tivermos vida teremos a possibilidade de aprender e assim poderemos tecer diferentes narrativas individuais e familiares.

Tais possibilidades podem nos estimular a enfrentar os desafios com os quais nos defrontamos na prática clínica. Temos uma vasta bibliografia na terapia familiar e em outros campos do conhecimento que são o nosso alicerce para seguirmos em frente. Tais pressupostos poderão auxiliar a autora a apresentar o objetivo desse trabalho.

Linares (2014) nos abre uma primeira porta para enfrentarmos tal desafio quando se refere ao sentido de sua expressão: Terapia Familiar Ultramoderna. O autor explicita que tem com essa terminologia o objetivo de estimular a abertura das janelas do território sistêmico para ares novos para que se alimente com aquilo que há de muito bom já presente na tradição psicoterapêutica.

No entanto estar aberto ao mundo, conforme a epígrafe permite vislumbrar, não é necessariamente uma possibilidade tão natural, e as palavras de Bion (1992, p.9-10) nos confirmam tal vislumbre:

(…) Mas todos nós odiamos a tempestade que implica o ato de rever nossas visões; é muito perturbador pensar que poderíamos chegar a mudar de parceiro, ou profissão, ou país, ou sociedade; assim, a pressão para dizer “daqui não passo” estabelece uma resistência ao aprendizado (…). (BION, 1992, p 9-10).

A presença da abordagem sistêmico integrativa por outro lado materializa o incentivo de Linares (2014) propiciando a integração das múltiplas escolas sistêmicas às contribuições de outras abordagens, dentre elas a psicanalítica, bem como de abordagens advindas de outros campos do conhecimento. Tal integração é fruto de uma postura aberta que favorece o nosso enriquecimento para nos ocuparmos das situações as quais a prática clínica nos apresenta, onde se constata que a mudança não é algo tão simples de ser conseguido.

Selvini, Sorrentino, Cirillo (2016) utilizam o termo pensamento sistêmico, complexo e integrado e, assim, revelam estarem intervindo, segundo uma postura integrativa.

Linares (2003; 2015) por sua vez ao escrever que narrativa é a atribuição de significado à experiência relacional, que ocorrerá desde a vida intrauterina até a morte, nos

mostra quão rica pode ser nossa vida com uma diversidade de narrativas. Essa narrativa, segundo Linares, é o ato de descrever a si mesmo e ao que lhe acontece, dando a isso uma coerência, o que por sua vez é cultural e pessoal.

Laso (2017) pode auxiliar a especificar o que favorece as mudanças. Laso (2017) discorre sobre como vem levando em conta e intervindo sobre o aspecto emocional na terapia familiar e de casal. Esse autor destaca dois princípios fundamentais para viabilizar a mudança emocional: (1) compreender o lugar onde se está e (2) ver ou ao menos vislumbrar o lugar para onde se dirigir. Compreensão e visualização são conquistas advindas da experiência emocional desses grupos, segundo o autor.

As considerações dos autores citados permitem evidenciar que o objetivo desse trabalho é mostrar uma ferramenta para auxiliar a construir novas narrativas dadas as dificuldades implicadas nesse processo. Tal ferramenta é constituída pelas expressões artísticas e o brincar, atividades descritas em outros campos do conhecimento e/ou modelos teóricos que podem ser integradas ao atendimento de casais e famílias.

Tornam-se importantes ferramentas uma vez que a possibilidade de escrever novas histórias é inesgotável. Por outro lado, já que sabemos que reavaliar nossas posições é assustador, que precisamos nos dar conta de nosso lugar na relação (o que ainda implica outras gerações) bem como visualizar novos caminhos antes de seguir adiante podemos perceber a complexidade do processo. Sendo assim, ter novas ferramentas que possam abrir possibilidades para novas narrativas pode nos ser útil na prática clínica.

Pereira (2010) ao discorrer sobre o tipo de intervenção para promover a Resiliência Familiar mostra que a mesma deve permitir que se reconheça na narrativa familiar o sofrimento, que dê sentido ao ocorrido e um significado que possa ser aceito por todos os membros da família. Ou seja, nesse contexto continente como recomenda Pereira (2010) uma tempestade emocional como postula Bion está vigente precisando ser nomeada. Esta afirmação permite o reforço da tese sobre a relevância de mecanismos para abrir possibilidades para construção de novas narrativas.

Nesse trabalho o objetivo é apresentar a atividade artística- lúdica como útil ferramenta para a terapia de casal e família ao mesmo tempo em que evidenciar tanto a relevância como o que está implicado no planejamento da mesma pelo terapeuta para se favorecer a possibilidade de conversar sobre as dificuldades vividas.

Fazem-se, então, necessárias algumas considerações sobre as possibilidades desse instrumental.

Kenzler (1995) escreveu que o ser humano se defende das emoções e para tanto utiliza mecanismos de defesa. Sendo assim, segundo Kenzler (1995) o uso de técnicas em que o ser humano expressa sua angústia, sem perceber o que está fazendo pode ser significativo. Aqui temos as artes e o brincar.

Fernandes (2003) por sua vez especifica diferentes linguagens que transmitem a informação tais como: as atitudes, a mímica, a palavra, a escrita, o desenho. A arte, segundo Fernandes (2003) em suas cores e sons, melodias, ritmos, compõe e expressa.

Dentre essas diferentes maneiras de comunicação está o brincar como escreve Winnicott (1971).

Green (2013) completa escrevendo que na realidade externa existe horror demais: guerra, delinquência, catástrofes naturais, epidemias, desemprego e terrorismo nesse nosso mundo.

Grenn (2013) pergunta-se como suportaríamos todos os traumas causados pela realidade sem o brincar onde no caso das crianças todos esses temas se encontram.

Andrade (1995) escreveu que nas diversas expressões artísticas o homem se coloca diante da realidade, ao expressar por meio de uma simbolização (a obra de arte) como estrutura seu mundo interior. A arte, pode, também, segundo ele, ser terapêutica, pois permite acessar a emoção tanto do criador como no público participante. O criador e o produto da criação são o porta-voz de como o homem aliou as sensações e percepções frutos de sua experiência pessoal e relacional. Através da arte forças oponentes podem ser integradas graças a sua qualidade integrativa.

Hiluey (2004; 2007; 2008) no contexto da investigação com alunos-médicos e famílias pode constatar a relevância de tal ferramenta para favorecer tanto o despontar do que angustia como para integrar percepções e informações. Novos caminhos podiam ser vislumbrados.

Para tanto uma ilustração prática parece ser oportuna e aqui se segue.

Pode-se constatar que “enganar” era o termo que melhor exprimia aquilo que vivia a Família Silva com seu filho de 11 anos. Essa vivência de ser enganado, respaldada por situações concretas gerava um sentimento de falta de confiança dos pais para com seu filho. A terapeuta tinha dados que lhe permitiam pensar que para os pais se aperceberem de seu filho não era algo simples. Eles possuíam alguns princípios e formas de educar filhos alinhados com as gerações anteriores e sua própria vivência enquanto filhos para os guiarem. Isso interferia significativamente impedindo que pudesse circular reconhecimento, valorização e carinho entre eles, o que favoreceria a possibilidade de seu filho ter uma vivência de ser amado, como descreveu Linares (2014).

A terapeuta optou por algumas técnicas expressivas as quais permitiram que um espaço fosse aberto para gerar novas narrativas que propiciaram a Família Silva experimentar um clima de confiança. Algumas das técnicas foram:

1) genograma lúdico que favoreceu que conversassem sobre as características das figuras de animais escolhidas para representar alguns membros da família o que gerou novas ideias sobre o relacionamento entre eles. Por exemplo o leopardo como um animal solitário; o hipopótamo como um animal altamente violento apesar de seus olhos doces. O diálogo possibilitou o reconhecimento da dinâmica estabelecida entre eles.

2) cada um escolher miniaturas em madeira de personagens, pessoas, animais, aves, objetos. A seguir se propunha conseguir as miniaturas que quisesse solicitando ao outro. Alguns dos temas conversados nesse jogo foram: que percebiam que através de truques até mímicos se engana para conseguir o que se quer; se aperceberam que tem coisas que não se quer dar; quem é enganado fica triste e com raiva.

3) leitura de conto infantil. Por exemplo: A toupeira que queria ver o cometa, de Rubem Alves. Onde se pode conversar sobre a prisão decorrente das próprias convicções que impedem de ver o que está diante dos olhos.

4) Ouvir a música: “Apenas tenha certeza que nunca está sozinho” (93 Million Miles). Solicitou-se que com recursos não verbais mostrassem como lhes chegou essa música. Pode-se conversar tanto sobre o que cada um esperava dos outros membros da familia como foram constatando o que lhes era possivel.

Pode-se sinalizar que a confiança parecia estar vindo a ser uma experiência possível entre eles.

Em sessões com o casal parental, o casal pode rever suas convicções sobre como

deveriam se portar como pais, versus sobre o que lhes era possível ser. Também puderam se aperceber de novas características do filho, até então não percebidas. Diziam eles: como a toupeira (referindo-se à personagem do livro infantil).

E assim uma nova narrativa despontou. Nessa nova história pais e filho lutavam focando três instâncias: a do querer, poder e dever enquanto iam se transformando, em família. Não estavam sozinhos, percebiam que tinham com quem contar, podiam confiar.

Comentários: a atividade artística lúdica
1) permite que se trate de temas penosos com seriedade, firmeza e humor, sem

necessariamente deixar de chorar e/ou mesmo ficar bravo;
2) o terapeuta deve propor atividades que no seu entender propiciarão que surjam os

temas que segundo sua percepção estão circulando no grupo familiar;
3) deve-se levar em conta as características das pessoas da família para escolher a atividade lúdica que possa lhes ser possível. Nem todas as pessoas se dispõe a

brincar, mas dependendo da brincadeira até podem se dispor;
4) aqueles terapeutas que tenham uma experiência no trabalho com crianças e adolescentes, em especial em ludoterapia, terão um conhecimento relevante para

utilizarem essa ferramenta no atendimento de casais e famílias.
5) o terapeuta deve ser significativamente participativo e utilizar seus conhecimentos teórico-técnicos em terapia familiar para fazer alinhamentos ao longo da sessão a

partir das novas informações e percepções circulantes.

No entanto mesmo estimulados por novas ideias vale lembrarmo-nos da mensagem de Antonio Machado: Caminhante, não há caminho. O caminho se faz ao caminhar.

REFERENCIAS

ANDRADE, L.Q. Pensando sobre diferentes linguagens. In: ELIEZER, J; Andrade, L.Q.; CARVALHO, M.M.J et al. A arte cura? Campinas- São Paulo- Brasil: Editorial Psy II, 1995, 118p.

ANDRADE, L.Q. Terapias Expressivas- Arte-terapia; Arte- Educação; Terapia Artística. São Paulo: Vetor. 2000. 180p.

BION, W. Conversando com Bion. Rio de Janeiro: Imago Editora. 1992, p.9-10.
CIRILLO, S; SELVINI, M; SORRENTINO, A.M. Entrare in terapia- Le sette porte della

terapia sistêmica. Milano: Raffaelo Cortina Editore. 2016. 327p.

FERNANDES, B.S. Arte-terapia e grupos. In: FERNANDES, W.J.; SVARTMAN, B.; FERNANDES, B.S. et al. Grupos e Configurações Vinculares. Porto Alegre: Artmed. 2003, 303p.

VINCULO – Revista do NESME, 2018, V. 15, N.1 5

Abrir a possibilidade para novas narrativas: um desafio. Hiluey, A.

GRENN, A. Brincar e Reflexão na Obra de Winnicott. São Paulo: Zagodoni Editora. 2013. 76p.

HILUEY, A.A.G.S. Uma experiência de aprendizagem no serviço de Medicina Fetal. 305p. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo- São Paulo. 2004.

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Abrir a possibilidade para novas narrativas: um desafio. Hiluey, A.

Angela Hiluey – Psicóloga; Doutora em Educação pela FE/USP; Pós-Doutora em Terapia Familiar pela Universidade Autônoma de Barcelona/Espanha; Diretora e Docente do CEF-Centro de Estudos da Família Itupeva – escola associada a RELATES-Rede Européia e Latino-americana de Escolas Sistêmicas; Member of the EFTA – European Family Therapy Association; membro titular da ABRATEF e da APTF. angelahiluey@yahoo.com.br

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MENTALISTAS: Qual a importância da figura paterna no desenvolvimento da criança? Camila Tuchlinski recebe o psicanalista Claudinei Affonso, professor de Psicologia da PUC, e o humorista Fernando Strombeck, que lança livro contando como foi a gravidez da esposa.

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