Coringa : do riso à dor

Joker (Todd Phillips,2019) é mais que a história de um vilão forjado pelo ambiente da privação e do abandono. É a história de um sujeito psicótico que tenta se curar a partir do humor. Filho do delírio materno, Arthur segue tentando aprender e apreender a linguagem do mundo por meio das suas nuances e sutilezas, pelo atalho do humor: mas não consegue encontrar o riso do Outro , não consegue capturar o seu olhar.

Hoje é dia das crianças, eu queria falar do riso. E desde que assisti ao filme Coringa, há uma semana, venho me lembrando dele … a atuação de Joachin Phoenix é tão impressionante que algumas imagens me capturaram e fizeram companhia durante muitos dias. Suas falas, seus gestos, seu caderno de piadas; sua dança, sua dor, sua fragilidade; a lógica pessoal tão própria a ele; as tentativas de estar num mundo hostil e incompreensível. Embora Coringa seja o louco, é quem denuncia a hipocrisia e a violência; assim como no seriado da Netflix “Casa de Papel” sua máscara virá a ser adotada por todos os que se veem calados pela injustiça e pela negligência, quando por fim o caos se instalar quase nos momentos finais do filme. O clima de caos social já se anuncia no início do filme, com o rádio noticiando o acúmulo dos ratos e do lixo na cidade de Gotham, enquanto Arthur se maquia para trabalhar ( como palhaço) : não há riso e sim abandono, solidão, descaso. Arthur é palhaço. Vive com a mãe e tenta se inserir na ordem do mundo por meio do trabalho: mas busca um reconhecimento que não encontra junto aos colegas e nem mesmo nas entrevistas com a assistente social que parece ser a responsável pelo tratamento psiquiátrico e pelo recebimento das medicações para controle da sua doença psicótica. Em um dado momento , diz a ela que não sabe bem “se existe” e não obtém ressonância, nada de uma escuta : e Arthur diz a ela que ela não ouve. No trabalho, ganha uma arma de um colega, a pretexto de ajuda-lo a se defender ( pois sofreu ataque de uma gangue quando trabalhava de palhaço). E diz ao colega” você sabe que não posso ter uma arma…”. Escreve em seu caderno algo como ” o problema de se ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”. O filme é bem construído na medida em que alguns dos seus delírios e alucinações nos são apresentados como reais, gerando a impressão de um borramento das suas vivências em relação aos fatos objetivos e suas percepções delirantes, recurso utilizado em filmes deste tipo ( como Tully http://www.gestoespontaneo.com.br/2018/07/02/natividade/ ). Este recurso gera empatia pela sua triste figura e uma maior compreensão do seu mundo mental. Há um sentimento de compaixão, senão simpatia, que surpreende, já que outros Coringas conhecidos de filmes anteriores não davam margem a este tipo de construção por sua vilania e crueldade. Mas seguir pelo caminho da “explicação” e justificativa do crime a partir da penúria e privação é sempre um caminho perigoso. O que comove aqui é a sua fantasia de cura* por meio do riso, do humor, humor que ele não acessa senão por imitação, por meio da máscara ( metáfora do seu não-rosto, do seu não-ser), humor que ele tenta buscar com o intelecto de forma obsessiva em seu caderno de anotações, copiando e assistindo a humoristas de stand-up. Mas Coringa não tem graça. Arthur tem um problema de riso inadequado que se expressa quase como um tique vocal nos momentos de maior angústia. O riso caricato de Arthur é bizarro e grotesco, e provoca no outro o que o “unheimlich” ( estranho) convoca: agressividade, asco- o Coringa é aquele para o qual os rostos não se voltam , é o feio, o louco, o estranho, o bizarro. E no entanto seu sonho é ir à TV e fazer os outros rirem; apresentar-se, fazer um show. Há um pai que existe-não existe. Fica pouco claro se o o pai do Batman é também pai de Arthur: no delírio dele, no delírio da mãe, ou na improvável hipótese de ser o pai de fato (que teria se eximido de filiá-lo por meio de um ato de coação à mãe, forçando-a a “assinar papéis falsos” de adoção). De todo modo, o menino jamais foi “adotado” por nenhum pai. Sua origem permanece indeterminada. (Mesmo filhos biológicos precisam ser de certa forma “adotados”- re-conhecidos: porque nenhum filho que nasce cumpre plenamente a fantasia de seus pais, e para se constituir pessoa precisará ser amado, filiado de alguma forma por alguém.) O menino escuta de sua mãe que sua missão na vida será trazer alegria e riso aos outros: a mãe o chama de “Happy” ( feliz). Feliz é tudo o que ele não é; mas a sina é tomada ao pé da letra – sendo o palhaço e carregando consigo a marca bizarra do riso imotivado, que denuncia sua miserável condição. A ironia está ligada à impossibilidade deste rapaz convocar o riso do Outro.

Para Freud, o humor é um dom precioso e raro. E é subversivo, porque proporciona um atalho para a expressão do reprimido, da agressividade- revela as imperfeições, as falhas, as incongruências e a fragilidade humana. Porém o humor permite que estes conteúdos se apresentem ao outro de forma aceitável: os chistes, as piadas e as ironias se utilizam de condensação e deslocamento para causar um efeito supreendente e que provoca o riso. O riso libera o corpo, e quando despertado pelo outro e pelos deslizamentos da linguagem , dá sentido a uma parte alienada do eu que se encontrava reprimida. Assim como o insight e apreensão estética de algo, o riso pode ser prazeroso não somente pela sua liberação motora mas também por integrar conteúdos do Si Mesmo, por ser atalho para enfrentar temores, vergonhas, sexualidade e morte recalcadas : ” numa brincadeira pode até se dizer a verdade…”

Assim o riso tem um papel civilizador, e a capacidade de humor é um recurso precioso para o indivíduo. Rir é gostoso, poder rir de si mesmo é como poder ser para Si Mesmo um pai bondoso que tolera o erro, o rebaixamento, a falha, o tropeço. Não para o Coringa que tem falhas básicas na sua estruturação: seu riso é uma caricatura, seu rosto é uma pintura, ele compreende as piadas com sua mente mas não é chamado a participar do banquete do mundo, está do lado de fora, está só.

Parece que o rapaz Arthur intui que o humor é a chave do simbólico que precisa acessar para passar a existir no mundo. Como um código, uma senha, que tenta descobrir. Sua busca fracassa, e o resto da história a gente já sabe; sem sonho e sem riso, sem humor e sem reconhecimento, resta a violência e o delírio. Interessante notar que à medida que delira o “Joker” cria para si uma identidade, um nome, e passa a existir no ato violento. Coringa forja o seu riso com o sangue da sua ferida-numa imagem fortíssima. Não há melhor metáfora para a sua maquiagem que o sangue (dor) transformado em riso -não pela via do humor, que se utiliza do recurso simbólico; mas pela concretude da marca deste sangue em seu rosto.

Los silêncios  . Quem fala no silêncio da menina que não fala?   

Os silêncios  . Quem fala no silêncio da menina que não fala?

Começa assim. Sexta de noite, depois de uma semana puxada de consultório, pós feriado, uma amiga querida nos convida para o cinema. O título do filme? Los silêncios. Hummm. No Instituto Moreira Sales. Sem pipoca. Chegamos. Cinema quase vazio,  começa o filme com a imagem de uma canoa, que chega a uma ilha . O barulho da canoa na água, a pouca luz , e passa pela cabeça a pergunta: valeu a pena vir? Porque começa um sono, que vem sim, do horário, do dia, do fim da semana, mas que enfim se transforma em viagem. De inicio, quero des- esperar , pular fora da canoa.

Depois entendo sem entender: esta chegada  é um convite . Como um preparo para a entrada neste mundo particular, feito de silêncios, nao-ditos, espíritos,  real  e imaginário. Dizia Victor Guerra que a transição sono- vigilia é a hora do fantasma, do sinistro, mas também a hora da entrada no mundo do sonho. Antes de adormecer, há um momento de transição, em que inicia o intercurso entre pensamentos, restos do dia, e devaneios, imagens… É a entrada num processo primário de pensamento, em que a mente escorrega em associações frouxas, figuras flutuantes, perdendo a linha reta das palavras e das ideias. É torvelinho. É a  entrega do corpo e da alma a um fluxo livre que desemboca enfim no sono e no sonhar. Me vem à mente: às vezes, como as crianças, demoro e custo a dormir, com dificuldade de me deixar levar para este momento de transição. Num dia tenso  em que falta a segurança para se sustentar numa canoa que balança. Quero  des-esperar e pular fora. Assim me sinto no cinema começando a ter sono até que uma luz , na tela, se transforma em uma pessoa que recebe e acolhe os passageiros da canoa. Percebo que também chego. Chego à ilha. Chego de canoa.

Um filme assim é como uma vertigem. Na vida diurna , moderna, estamos encharcados, empapuçados de palavras. Somos falantes , ou até ouvintes , mas há poucos lugares  para a  escuta . Assim é estranho penetrar no silêncio e se deixar envolver por ele. Filmes assim são preciosos. Densos , ricos nas linguagens não  verbais , envolventes. Transportam para o reino do silêncio e do sentimento, e nos ajudam a botar reparo no agora das coisas. O pensamento também é um modo de não estar presente. A película tem um andamento particular, muitas vezes lento : e o silêncio a atravessa de muitas maneiras. O escuro, a pouca luz. O não dito da menina, filha, índia, que começa a intrigar a gente: por que ela não fala? E o silêncio do luto. Trata este filme do desamparo de Amparo, viuva dos conflitos da Colombia, refugiada em uma região  fronteiriça numa comunidade amazonica. Sem trilhar o caminho da vitimização, retrata a mulher em seu processo de integração na comunidade , enquanto lida com sua grande perda.

Em ” Los Silencios” falam os mortos e falam os vivos, fala a modernidade e fala o modo mais primitivo de viver dos indios, em seu contato com o sobrenatural, com o ritual e em comunidade. Quando perto do fim do filme se rompe o silêncio dos que antes foram calados , o luto de Amparo se encaminha para uma resolução ritual, poética. Se o poeta tentou fotografar o silêncios, Beatriz Seigner, diretora deste filme, bem logrou filmá-lo.

O filme está em cartaz.

Suicídio e Vulnerabilidade

                     “Como é tênue a linha entre a vontade de viver e a vontade de morrer. Como é tênue a membrana entre a energia e o torpor. Tantas pessoas mais poderiam ceder à tentação de cometer suicídio se este fosse facilitado. Que tal …um buraco , um buraco bem profundo, que se pusesse num lugar público, para uso geral. Digamos na esquina da Quinta Avenida com a rua 70, em Manhatan. Onde fica a coleção Frick. ( Ou um lugar mais proletário?) Uma tabuleta ao lado do buraco diz:                     16h-20h/Seg,Qua, Sex/SUICÍDIO PERMITIDO.  Só isso. Uma tabuleta.Ora, com certeza pulariam pessoas que antes nem tinha pensado no assunto. Qualquer cratera é um abismo, se se colocar o rótulo adequado.Voltando para casa do trabalho, ou saindo para comprar um maço de maléficos cigarros, desviando para apanhar roupa na lavanderia, procurando na calçada a echarpe de seda vermelha que o vento deve ter lhe arrancado dos ombros, você se lembra da tabuleta, você olha para baixo, você traga depressa, exala devagar,e pergunta – por que não.”
                                                                                     Susan Sontag, em O Amante do Vulcão (1992)

     Como é mesmo tênue a linha entre a vontade de viver e a vontade de morrer. Nas fases de crise, nas “idades- dobradiça”, na velhice solitária ou na adolescência turbulenta, esta tênue linha ainda mais se esvaece. O aumento de suicídios na adolescência é um fenômeno que ainda não foi compreendido. Culpar a geração Mimimi e seus frouxos pais ausentes que não os prepararam para as frustrações da vida é solução fácil para explicar a passagem ao ato, à morte, quando se deparam com os lutos e as perdas do crescer. Para mim é conversa de bar ( nada contra uma boa conversa de bar! ) pouco fundamentada na clínica ,e rasa, que transfere a responsabilidade da cultura e do social para o microcosmo familiar e para a frágil geração nutela , oca e sem recheio, que decide se matar “por qualquer besteira”… como se a geração RAIZ dos tempos passados não enfrentasse os mesmos dilemas. Que dizer das mudanças de crenças, da espiritualidade, ligada ou não a uma religião, quando a vida deixa de ser valor sagrado ; da morte estilizada e tornada fetiche nos seriados da TV a cabo, dos grupos de internet para apoio ao suicidio ensinando as técnicas mais primorosas de morrer, incentivando também o cutting, a anorexia; do país inteiro festejando o novo presidente com o gesto alegre que simboliza a arma apontada para o outro.
A ironia da autora imaginando um buraco bem no meio de Nova York com uma tabuleta: suicídio permitido é para mim uma das leituras possíveis para as notícias recentes sobre a facilitação da posse  de armas pelos brasileiros. Para um adolescente vulnerável, ter uma arma em casa ( e não me digam que eles não vão saber exatamente onde ela deve estar escondida!) é o buraco no meio da sala, de onde se pode pular. Existe uma vulnerabilidade em toda pessoa em fase de muda, de transição. A adolescência, a gravidez, a velhice, os períodos de passagem, enfim, nos tornam, como os bichos que mudam de pele, mais assustadiços e frágeis. Ainda não tendo chegado à fase de borboleta, os adolescentes se encasulam e tem de abandonar as certezas da infância; pais perfeitos tornados imperfeitos, gargalos: sua sexualidade, ter sucesso na vida, emprego, identidade. Antes de poderem voar têm pele fina, medo; e muita impulsividade . A facilidade que encontram para usar substâncias que alteram neurotransmissores e humores também contribui para que nos momentos de desespero e dor pensem : por que não? Na vulnerabilidade, a distância entre energia e torpor é tão pequena que o acaso conta, a oportunidade conta.
Porque a busca de sentido na vida é mais antiga que a modernidade e carece de resposta universal. A busca de sentido é uma criação individual que pode ou não se servir dos enredos disponíveis por aí; os enredos fornecidos pelo social, pela religião, pelos pais, pelos modelos. Uma das características das pessoas que estão conectadas com os seus verdadeiros selves é sentirem-se reais, e com isso terem uma bússola na vida para avaliar os diversos enredos que o mundo lhes for disponibilizando. E faz parte da saúde poder adaptar-se; permitir-se ser modificado pelo mundo. Engajar-se no FAZER que caracteriza a entrada na adultice fica muito difícil se não há antes um SER que foi constituído, sim, com as frustrações superadas a cada fase, mas sobretudo pela sensação de continuidade que o ambiente amoroso permitiu nos primórdios da vida. Como nos dizia Winnicott: primeiro é o SER, e depois o FAZER. Quando o SER está presente, o corpo se manifesta integrado no viver; e a agressão contra o próprio corpo é sentida como estranha; não prevalece na hora da dor e da crise: porque houve o estabelecimento de uma confiança básica em si mesmo e num ambiente bom.
Que sociedade é essa que cava um buraco no meio de Nova York com uma tabuleta assim? Uma das consequências da facilitação das armas é o aumento de suicídios. Quem ainda não assistiu pode procurar ver A Sociedade dos Poetas Mortos ( 1989) ou Yonlu (2017), a história de um adolescente gaúcho que teve seu suicidio divulgado na internet. Sempre haverão razões para viver e para morrer, para cada pessoa; mas, nos momentos de vulnerabilidade  estar num ambiente facilitador da morte pode fazer toda a diferença.

Sobre o assunto, a  entrevista do psicanalista  Mario Corso, na revista Época, que pode ser lida aqui.

 

Da janela do último andar
A cidade se suicida
É difícil não se jogar
É tão fácil acabar com a vida…

 

 

 

Museu- a história dentro da história.

Retirado de Folha-Uol

 

A Psicanálise? Uma das mais fascinantes modalidades do gênero policial, em que o detetive procura desvendar um crime que o próprio criminoso ignora.

Está em cartaz nos cinemas uma nova película, muito interessante, que conta a estória do roubo do museu nacional de antropologia do México, ocorrida em 1985, fato real. ( Museu-2018- diretor Alonso Ruizpalacios). Dois jovens mexicanos , que por diferentes motivos se encontram numa certa marginalidade em suas vidas, à margem, vivendo numa adolescência comprida, encompridada pelas próprias dificuldades, decidem roubar o museu de antropologia da cidade. Há um narrador que retrospectivamente conta a história de como os dois rapazes, engenhosamente, conseguem burlar o sistema de segurança  e realizar o roubo, no dia de natal, de várias peças do museu, ato aparentemente despropositado. Fica parecendo que o roubo e a esperteza , o desafio, a perícia , fascinam mais os rapazes do que o prêmio monetário possível a se conseguir com o tráfico destas peças. Outrossim, logo virão a descobrir que o seu roubo teria um valor inestimável, não mensurável, e que não seria possível conseguir alguém para comprá-las. Afinal, o que querem estes rapazes? Corre paralela à trama principal, em estilo road-movie, das peripécias deste Dom- Quixote-ao-contrário e seu fiel escudeiro, uma outra trama: a exposição dos motivos, dos enredos, das circunstâncias, que os levaram a este ato. É intrigante perceber que o protagonista, Juan, mentor do crime, tem seu código de honra e profundo respeito pela história do país; é conhecedor e admira, pensa, se encanta, com aquilo que rouba. Esta peculiaridade explica também o destino que escolhe dar para as peças, nas cenas finais do filme.
Podemos nos enveredar pela vertente social que está presente no discurso dos rapazes: a questão do colonialismo, das pilhagens sofridas na América por todo o sempre ,e na sua pouca consciência de valor, da crença quixotesca de Juan num resgate da cultura e do que é autêntico num país também assolado pela corrupção e pelo descuido com seu patrimônio. Como não pensar no incêndio do Museu Nacional do Rio de janeiro, ocorrido em setembro último? Esta realidade compartilhamos com o México e com nossos vizinhos aqui da América Latina. A gente fica torcendo para os nossos (anti)heróis encontrarem um jeito de se safar porque, apesar da astúcia e da gravidade do ato cometido, são ingênuos e quixotescos; e nem sabem bem o que roubam, o que querem roubar. Em alguns momentos parece que tentam se apropriar deste capital simbólico, do que seriam aqueles amuletos maias e seus instrumentos por se identificarem, como marginais, com a opressão sofrida por este povo  no contato com os espanhóis e cujo tesouro procuram resgatar. Para os povos pre-hispanicos (termo inclusive que os rapazes recusam, por trazer no seu bojo a referência à dominação) o ouro e a prata tinham um valor diferente, não monetário: assim também Juan e Benjamim não roubam o museu para enriquecer, mas para se apropriar de outra coisa.
Que coisa?
No texto “pacto edípico e pacto social”, Helio Pelegrino* articula a conexão entre o pacto edípico, que fala de triangulação familiar e da introjeção pela criança dos valores paternos, do limite e da interdição, com o pacto social, descrevendo como o estado corrupto e a corrosão dos valores numa sociedade dificulta o trabalho, em cada lar , de promover a maturidade de cada indivíduo. Há que crescer, mas, para que? Para quem? Para o que?
Da mesma maneira, quando nos seus começos a criança não consegue uma saída razoável para o seu drama familiar, também não cresce e não pode reconhecer a lei como sua, como algo a respeitar. Como diz Manoel de Barros: “tudo que não invento é falso”.  Para alguns a lei estará sempre fora , do lado de fora, incompreensível e ilógica porque não pôde  ser inventada de novo no jogo das identificações que ocorrem em tempos muito precoces…tempos quase pré-históricos.
Juan é um filho que o pai não re-conhece. Cenas belíssimas, do filho no consultório do pai, fazendo perguntas que não são respondidas, e de momentos em que ele não consegue ouvir as palavras articuladas pelo pai nos fazem intuir uma falha profunda na constituição de Juan como sujeito. É como se ele fosse o pai ao avesso, irresponsável, um zé-ninguém, o esquisito de uma casa onde todo mundo se encaixa em algum papel e ao “baixinho” cabe somente o lugar da exclusão. Juan é de baixa estatura e parece ser objeto de desaprovação geral. Será que inventa esse roubo magistral para ter um reconhecimento? Para ser visto como alguém capaz de fazer uma coisa realmente grande?
O bom Benjamim, parceiro de Juan, que tenta desistir de vender a pilhagem porque deseja voltar para cuidar do pai doente, também está à margem. Entraram ambos na faculdade de veterinária, mas Benjamim trabalha catalogando peças do museu, é um trabalho maçante, mas que possibilita o acesso ao sistema de segurança para facilitar o roubo. Nas cenas em que os rapazes ardilosamente se aproximam das peças tão valiosas, rompendo os vidros e os lacres que as separam do seu alcance, há o júbilo de se apropriar. Uma máscara é roubada. Juan brinca de colocá-la em seu rosto- e em um momento até alucina o maia Pacal, grande governante, a quem parece admirar.
Este filme também é a história de um filho em busca do seu pai. De alguma forma Juan não se encaixa e não consegue estar perto dele, senão pelos seus atos avessos, pelo seus contrários. Para Winnicott  o comportamento anti-social muitas  vezes esconde um pedido de ajuda, um apelo ao ambiente: apelo que Juan faz ao pai e que fica mais claro quando o filme vai se encaminhando para um desfecho, no encontro deles dois. Parece que o moço está disposto a pagar um preço alto por este reconhecimento!
Mas este poderia ser somente uma dos motivos para explicar esta história possível, dentro da história. Como diz o narrador no final: qual seria a verdade? Se  às vezes nem mesmo o próprio protagonista da história sabe o que se passou ali , dentro de si, e em sua própria história.
Um pouco como na vida de todos nós.
* Pacto Edipico e Pacto Social- Artigo escrito por Hélio Pellegrino no suplemento Folhetim da Folha de S.Paulo do dia 11 de setembro de 1983.

 

 

Benzinho: a nossa pietá brasileira.

Benzinho – A nossa pietá brasileira
Sobre a relação do homem com sua mãe, a nossa blogueira do Gesto Espontaneo , Cecilia Hirchzon escreve *:
“O homem, para ser “si mesmo” e para constituir a sua identidade masculina, terá de se separar desta Mulher, de quem dependeu totalmente. Já a mulher, para se constituir como tal, não precisa estabelecer necessariamente a separação – pode manter-se identificada com essa Mulher. Observamos, portanto, duas direções distintas: enquanto a mulher lida com a Mulher dentro de si através da identificação, o homem tem que se separar, tornar-se único, o que se constitui em uma urgência no desenvolvimento da sua identidade. A especificidade da identidade feminina caracteriza-se por ser geracional e infinita, isto é, podendo manter dentro de si três mulheres: o bebê menina, a mãe e a mãe da mãe. Essa condição possibilita à mulher o desempenho de diferentes funções sem violar a sua natureza. Pode ocupar posições diversas nas brincadeiras, onde ora é mãe, ora é filha, alternando papéis. Ou, ainda, na idade adulta, exercendo a sua feminilidade, ocupando o lugar de mãe e/ou mulher sedutora. Enquanto isso, o homem não se funde nessa linhagem – sua condição básica é a de ser um”.
No belíssimo Benzinho, de Gustavo Pizzi, que está em cartaz nos cinemas, o primogenito de Irene, mulher brasileira , mãe de quatro filhos, vai embora para a Alemanha a convite de uma universidade que está interessada no seu talento esportivo. O adolescente vibra enquanto a mãe se quebra, assustada com a partida súbita, fora de hora, do filho muito jovem. A história de Benzinho é o processo que se desencadeia com a chegada da noticia, suas idas e vindas , focado aqui no ponto de vista da mãe que vai tentando aceitar o momento que é de alegria e tristeza. Porque Irene é Pietá não vou contar aqui, para não dar um “spoiler” do filme. A interpretação de karine Teles é magistral. O amor materno aqui se desdobra em suas mais variadas possibilidades ( como diz a Adelia Prado, mulher é desdobrável) . A mãe suficiente boa, por sua saúde e sua capacidade de lidar com a perda e a separação, aparece na interpretação de Irene. Mãe suficientemente boa que se atrapalha, fica brava, dá chilique, chora, pira, respira, mas, enfim, ama. A gente fica apaixonada pela Irene. O longa foi escolhido como o filme brasileiro que vai disputar uma vaga entre os quatro finalistas ao Prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-americano, considerado o Oscar espanhol.
E , para terminar, um poema, uma musica.

O gato andaluz*
(Rosa Alice Branco)
O meu filho caminha por aí. Já não sei
se é o Douro ou o Darro que lhe embala o sono.
Nem onde guardei as datas e o nome das ruas
ou se vou te encontrar logo à tardinha.
Deixei-me de saber e de pensar que sei.
Um gato arranha à minha porta a miar em andaluz.
Eu arranho a porta a dois dias daqui, duas horas
De avião. É proibido miar nos voos europeus.
Engulo a saliva do dia e assim se faz noite.
E não há gaivotas a gritar por mim. Por mim
estou eu à janela do avião. As malas
com que hei de dizer-te: cheguei. O teu abraço
como um rio qualquer onde corra água.
Esquecer o que ficou para trás e a língua que me fala.
Levar o copo à boca onde nasce a boca,
A fonte do quintal, a nascente do mar. O meu filho
Voa como se caminhasse descalço. Cruzamo-nos
no horizonte sobre a linha do rio onde deságua a luz.
E as palavras aquietam-se no seu nada.

( do livro Soletrar o dia, Ed escrituras, 2004)

* este artigo está postado em nosso blog na seção artigos e notícias ( “Os elementos masculino e feminino puro na clínica”).

La Vita in Comune- e seus homens imprudentemente poéticos.

“De vez em quando Deus me tira a poesia.

Olho pedra,

Vejo pedra mesmo.”

Adelia Prado

Em um certo momento do filme “la vita in comune” comecei a me perguntar se haveria uma final feliz , possível, para aqueles homens imprudentemente poéticos. Empresto aqui o título de uma outra obra* para falar de Filippo e os fratellos  Pati e Angiolino,  de sua amizade e de  sua inocência. Não deixa de ser engraçada a caricatura que a “vita in comune” faz da democracia, das mazelas da cidade parada no tempo que se chama Desperata**, e seus personagens.

A história é assim: Filippo é prefeito da cidade. Há pouco emprego, pouco progresso, e nas reuniões na câmara as criticas ao prefeito se tornam cada vez mais sérias. Querem construir perto do mar para atrair os turistas, mas Filippo gosta mesmo é de poesia, e vai ensinar literatura aos presos. Um deles é Pati, que se encanta e se transforma depois do contato com a poesia. Seu irmão, Angiolino, a principio se enraivece mas também se transforma por meio de um contato com o papa, que lhe diz para preservar a criação de Deus. A partir daí, a moda dos santos convertidos, ele que era um ladrão de galinhas, se regenera. Os três homens passam a compartilhar, poeticamente, e cada qual a sua maneira, um outro modo de vida. Aqui começa a utopia e o gosto levemente amargo da incompreensão -vai ficando mais clara a depressão de Filippo e a loucura dos irmãos. Porém o tema é tratado com leveza , com a poesia das imagens e da trilha sonora sempre presentes.

Os três Dons Quixotes encontram um doido que, a moda de Francisco de Assis, fala com os animais, e o acolhem. A imagem da arca de Noé aparece, com a utopia da paz entre os homens junto aos animais em harmonia e a terra-mãe protegida, cuidada. Algo como estar acolhendo o feminino de cada um.

Aparte os ( femin)ismos, acirrados nos nossos dias, e sem querer carregar bandeira; a película mostra a falta mesmo de poesia naquele mundo, onde pedra é pedra mesmo, onde falta espaço para o criar, lugar para o feminino. Este mundo masculino das coisas inanimadas e das relações robóticas, líquidas e utilitárias. Sem os objetos transicionais que dão sentido ao existir. Pois nos disse a Carla, também blogueira do Gesto Espontâneo, que a palavra poesia vem de poiseis, criar- transformar. Nesse sentido a poesia é o que reconecta o homem com o sagrado, a terra, o indizível, e o belo. São homens imprudentemente poéticos os heróis de La Vita em Comune. Vale apena assistir.

 

* titulo de um livro de Valter Hugo Mae, escritor português

**Aqui há um duplo sentido no nome da cidade; que pode significar “desespero” -“disperata” ou “aquela que em Deus espera- Desperata”. A polissemia é explorada de modo muito engraçado quando turistas chegam a cidade, logo no inicio do filme.

 

(La vita in comune – filme de Edoardo Winspeare, 2017. Em cartaz nos cinemas)

 

O gesto espontâneo de Francis Há

O filme Francis Há, do diretor Noah Baumbach (2013) está no netflix.

Para quem não assistiu no cinema, é uma boa opção. O filme narra as aventuras (e desventuras) de Francis, tentando achar o seu lugar ao sol em Nova York, e também no mundo adulto, em que parece não se encaixar. Grandona, desengonçada, espontânea, Francis e seus amigos são adolescentes tardios. Geração mimimi, geração nutela, geração nem-nem (nem trabalha, nem estuda)… Quem não escutou um destes termos e a explicação jocosa de que estes jovens estão se jogando da caixa d’água ou morrendo de propósito,  “feito passarinhos, avoando de edifícios” porque não querem crescer, ou não aguentam as frustrações? Não querem trabalhar, não querem dificuldades: “dá seis da tarde, largam a caneta”… ou: “foram criados na internet, tudo na mão, tudo fácil, não querem nada com a dureza”.

Hummmm… Ponho-me a pensar.

 

Na clínica dos tempos atuais constatamos um prolongamento da adolescência, toda uma geração de adultos jovens que não está conseguindo amadurecer. No entanto, amar e trabalhar, sair de casa, fazer parcerias e escolher uma maneira de ser autônomo é um desafio que enfrentam com dificuldade, nem sempre com essa placidez que aqueles termos pejorativos evocam. A geração mimimi está sofrendo de verdade.  Para Freud o trabalho pode “tornar possível o uso de inclinações pré-eexistentes, de impulsos pulsionais” a serviço da realização pessoal e da vida em comunidade. Winnicott diz: “se o que se pretende é que a vida instintual tenha liberdade de expressão...” haveria um equilíbrio que tem que ser obtido sempre de novo, em cada fase: “considerem um médico e suas necessidades. Privem-no de seu trabalho, e o que será dele? Ele necessita de seus pacientes e da oportunidade de usar suas aptidões, como qualquer outro profissional.”.

Privem o jovem adulto de usar suas aptidões… o que será dele?

Para estes jovens, estamos falhando em ser o ambiente que permite a realização: há os trabalhos criativos, e há os ofícios insanamente alienantes, e aqui eu não estou falando da alienação de Marx; eu estou falando da alienação do verdadeiro self. A morte psíquica é um desfecho possível, e quem viu o filme Arábia (Afonso Uchoa e João Dumas-2017) se entristeceu com a história do Cristiano, que escreve um diário, se apaixona, mas no final sucumbe, vira “coisa”, deixa de sonhar.

Francis sonha. E podemos sonhar este filme, como nos propõe Nino Ferro: Francis e seus amigos representando, cada um, uma parte do seu self (como no enredo de um sonho ou de uma sessão). O filme é uma fábula moderna sobre as vicissitudes da bailarina meio gauche, desengonçada, Francis, que com 27 anos enfrenta dificuldades para manter-se economicamente. Não  selecionada para o espetáculo de natal, ainda é uma adolescente: tem sonhos grandiosos de realizar-se como artista,  mas  não encontra reconhecimento no trabalho.Também não se acerta com o namorado :  “sou alta demais para casar” , e fala de si mesma  ” eu ainda não sou uma pessoa real, de verdade” . Da dificuldade de passar pela fase da adolescência diz ” sou uma pessoa que tem dificuldade em deixar os lugares” quando se demora no camarim, tentando organizar suas coisas após um ensaio, quando todos já foram embora.

 

Em várias de suas falas e no enquadramento do filme, quando dança, por exemplo, partes de seu corpo são deixadas fora da cena, e diz de si ” Nunca consigo saber como fiz meus machucados”. Esse corpo grandão e que escapa do esquema é tão próprio da adolescência, período de crescimento rápido, em que o corpo passa na frente e a mente corre atrás, atabalhoadamente, tentando dar conta do recado! Francis dança, mas é mesmo meio desastrada, como uma adolescente que cresceu rápido demais. Quando Sophie,  melhor amiga,  que pode ser sonhada como o seu duplo, de quem   diz “somos a mesma pessoa, com cabelos diferentes”, vai embora, inaugura-se  em Francis um período de solidão e busca de sentido,  marcado pela instabilidade: constantes mudanças de endereço  e viagens – a fuga para Paris, o retorno à universidade, à casa dos pais.  Outros personagens que vão aparecendo, todos na casa dos 30,e parecem encarnar os falsos-selves que Francis vai rejeitando em sua busca por autonomia e realização; os jovens ricos dependentes dos pais,  artistas que  nada produzem, a colega da companhia de dança que a acolhe em sua casa,  mas não sabe brincar. Francis, perto dos 30 e temendo parecer mais velha ( pois não se sente adulta), parece ser a pessoa mais desajustada, mas na verdade  é aquela que mais traz a marca da autenticidade e da alegria. Nem sempre estar bem ajustado significa saúde mental…se isso se faz às custas do estrangulamento do gesto espontâneo.

Podemos entender o tempo do filme como o tempo da adolescência,  tempo de estar sempre um pouco à deriva, sem respostas, de inquietude. Mas também tempo de rejeitar as falsas soluções. O que nós “adultos” ( rssss) gostamos de chamar de preguiça ou rebeldia ou aborrescência. ( É que a gente gosta de esquecer que já sentiu isso um dia – e vai sentir de novo: na menopausa, na hora de ter o ninho vazio, ao se aposentar, ao fazer o implante dentário, ao envelhecer…).

A cura da adolescência é a passagem do tempo. ” nos diz  Winnicott. Nós, terapeutas, vivemos com Francis, como expectadores, este marasmo que caracteriza tantos  momentos da análise dos adolescentes.

Enfim, nossa heroína consegue fazer a sua  passagem. No final do filme, tem a oferta de um trabalho de secretária ( aceito com  relutância), e se  reconcilia com a amiga que regressa do outro lado do mundo  ( simbolizando a integração dela mesma). Por fim alcançada alguma estabilidade,  inicia o trabalho como coreógrafa, inventando uma dança. Ela assim descreve sua coreografia       “gosto das coisas que parecem erradas”.

Três cenas finais indicam a elaboração da passagem da adolescência em Francis, de maneira muito poética. Na primeira,  orienta os bailarinos que vão ao palco encenar sua coreografia, mostrando a capacidade de estar na coordenação de um projeto original, autoral: a capacidade de trabalhar criativamente. Na segunda, o belo encontro de olhares de Sophie e Francis, ao fim da peça, que pode ser visto como o olhar amoroso, e também o espelho, o reconhecimento no olhar do outro, tão buscado pelo artista. E, enfim, a adequação ao princípio de realidade quando finalmente tem uma casa que é sua, e precisa cortar um pedaço de seu nome para que ele possa caber no  espaço da caixa de correio. É a aceitação da castração, como limite-borda definidora, parte do amadurecimento. Como nos diz Winnicott; “Ser, antes de fazer”. “O ser tem de se desenvolver antes do fazer…  finalmente a criança domina até mesmo os instintos sem a perda da identidade do self”. O nome comprido que pode ser cortado agora é Francis amadurecida, ajustando-se, sem deixar sua dança, sem perder a felicidade, o senso de identidade e a capacidade criativa. De uma forma dialética, e poética, o fazer também alimenta o Ser; assim acontece com Francis, que amadurece tarde, mas no seu próprio tempo.

para meu sobrinho, Thales Augusto.

 

Natividade

Latejar intervalado de orgasmo já em ferida.

Rotura. Espanto. Irreversível dor.

Um ventre inchado golfa a expectativa de si próprio.

Porém já fui pequena

Já fui também pequena

E me nasceram seios

E me cresceram pelos

E o sexo me floriu

No afago quente

Do primeiro sangue.

Um grito rouco. Um ventre rasgado de dentro.

Viscoso, um novo corpo

Tomba

E limita a eternidade…

Não tem olhos nem dentes, não tem nome,

Digere, vaga, suga,

É calvo, é mole, é outrem,

Só fúria sem contornos de crescer.

(Helder Macedo- Viagem de Inverno- 2000)

Tempos obscuros onde a maternidade não se acomoda mais dentro das expectativas da mulher moderna. O choque, o espanto, o horror, diante da dependência e da fragilidade. Mulher, o tempo se inscreve no seu corpo de modo muito marcado: a menarca, a gravidez, a menopausa. É o tempo marcando a mulher, limitada da eternidade, marcada. E no entanto! Como são fofinhos os bebês da propaganda do shampoo Johnsons!!! Como são lindos os papéis de parede azuis e lilases, os móbiles coloridos…

Por que então não estamos  inundadas de felicidade ao nos tornarmos mães?

Figura 1 Woman with shopping- Ron Mueck. 2013-detalhe

  Tenho trabalhado com estas mulheres envergonhadas, usando sertralina e palavras. São engenheiras, biólogas, são professoras, donas de casa

          são muito jovens, são mais velhas, tiveram gêmeos, tiveram parto prematuro, fizeram ovodoação, fizeram inseminação artificial, tiveram um filho planejado, tiveram um filho acidentalmente.

Quanta vergonha, não amar meu filho!!!”

Eu penso só no que vai ser da minha vida de agora em diante!”.  “Morei na Bélgica para fazer o meu pós-doc, não me apertava com nada, hoje tenho medo de dirigir, não consigo pegar o carro para ir a lugar nenhum, não consigo sair na rua com o bebê, acho que algo vai acontecer com ele”.

“Doutora, acho que tenho TOC. Tenho medo de o meu nenê ter frio, mas se o cubro, acho que vai ter calor, acordo toda hora para checar a temperatura do quarto, não consigo dormir pensando que ele não vai conseguir se descobrir nem se cobrir sozinho!… não sei o que faço, sei que é loucura; só que eu não durmo”.

Estranho! Como pode acontecer de não haver este reconhecimento, tão natural, biológico, tão programado! …Será???

Eu penso: sou capaz de fazer algo ruim com ela. Não quero ficar sozinha com ela. Quando a babá vai, antes do meu marido chegar, é a pior hora. Ela chora e eu não sei o que fazer, fico muito nervosa”.  

“Não deixo ela chorar. Tomo banho de porta aberta. Se ela chora, eu corro, pelada, molhada; sei que devia deixar ela chorar um pouquinho, não faz mal; mas eu não aguento.”

O estranho em mim. Meu filho, parte de mim, partiu exatamente de mim, do meu corpo, cresceu em mim, mas não é meu, não sou eu. Estranho e familiar. “Acho que não devia ter tido filho. Quis dar um neto para a minha mãe. Não achei que ia ser assim, não tive irmão. Quando tive o nenê comecei com essa cefaléia, fui internada no hospital, que vergonha, internar num  hospital onde todo mundo me conhece; aí que parei de amamentar, tomei muito decadron. Me fizeram um liquor e fiquei pior. Não acharam nada. Dor de cabeça não tem explicação e não passa com nada!!! Foi meu cardiologista que me deu  a fluoxetina, mas não adiantou, e eu parei. Está tudo tão horrível doutora”.

Em todos os relatos, a impotência. A perplexidade. Culpa. Vergonha… O estranho em mim. O estranho de mim. Quem sou eu, mulher, quem sou eu, mãe? As mães não vêm prontas, se constituem mães, assim como os bebês se constituem pessoas, inaugurando a família consigo. Como suportar a inexatidão deste processo: construído exatamente a partir de seus erros, tentativas, ajustes… Como controlar o que não tem controle? O que não tem governo, nem nunca terá, como canta o Chico. O que vem das entranhas, o que será que será? O que não tem juízo.

O que não faz sentido… Entre a depressão e o baby blues, mulheres numa contemporaneidade onde  bom senso e  instinto dão lugar aos manuais, à busca dos blogs, dos grupos de mães da internet, numa busca desesperada de referências: onde há tanta informação, não há informação nenhuma! Que sou eu? Mãe!????????? Mulher? “Eu dou peito livre demanda e lá em casa é cama compartilhada”.  “Tive parto em casa, foi maravilhoso, mas depois ele teve esta alergia: não posso comer: ovo, soja, leite, tomate, estou pensando em parar de amamentar”.

O que é ser mulher? Me diga menina, o que é feminina (agora é a Joyce quem canta)2. Ô mãe, me explica, me ensina…o que é feminina… E, principalmente: o que é ser mãe.

Ninguém fala a verdade tudo o que a gente passa no parto. Se eu soubesse que era assim, não queria. Porque ninguém fala a verdade para a gente! “

Porque o mistério nos horroriza. Em verdade, temos medo. Senhor, escutai meu estrondoso medo 3. Esta frase é no poema de Adelia Prado.É a Adelia Prado rezando.Rezando pedindo ajuda. Mãe no pos parto precisa de ajuda. É necessária uma tribo para cuidar de um bebê. E não uma mulher sozinha.

O filme Tully 1, do diretor Jason Reitman, nos traz a solidão de uma mulher que encontra na psicose um remendo para seu desamparo. Belíssimo, imperdível. Um retrato da maternidade. Que tão pouco se parece com os fantasiosos comerciais do shampoo Jonhson, do creminho para assaduras. A realidade da maternidade é assustadora e não perfeita; só na fantasia os bebês são tão bonzinhos e cheiram tãaao bem !!!.

Há três anos numa visita à pinacoteca, na exposição das esculturas hiper realistas de Ron Mueck, me deparei com uma obra de arte que muito me impactou. Woman with shopping, de 2013, que mostra uma mãe muito cansada, desarrumada, carregada de compras, que não olha para o seu bebê, que olha para ela, como uma interrogação. Depressão pós parto?

Estranho…O estranho em mim.

E chamo a Joyce de novo para arrematar essa conversa:

“Então me ilumina, me diz como é que termina?
– Termina na hora de recomeçar,

dobra uma esquina no mesmo lugar.

E esse mistério estará sempre lá
Feminina menina no mesmo lugar.”

Como  ajudar  tantas mães muito parecidas com esta: como oferecer uma ajuda ? Carregando para elas um pouco destas sacolas?

Winnicott, que foi pediatra toda a sua vida, dizia que bebê e mãe são uma coisa só; não existe “o bebê”; portanto, não se pode prover para os bebês um ambiente suficientemente bom, se a mãe não tem também um bom suporte.

Referencias

Figura – Woman with shopping- Ron Mueck. 2013

         2) Feminina– de Joyce  Moreno – uma inspiração!!!

  • 3)Do poema Impropérios, de Adelia Prado, do livro “O coração disparado”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2013.

O Objeto Subjetivo à luz do filme ¨1945¨: por Diana Goldberg

O Objeto Subjetivo à luz do filme ¨1945¨

O filme de título 1945, se passa em uma pequena cidade/ aldeia no interior da Hungria, quando a Segunda Guerra recém terminou. Dois judeus chegam de trem a essa cidade carregando 2 baús, contratam um charreteiro para que possam transportá-los e iniciam sua caminhada atravessando a cidade.

Impressionante a sensibilidade e sutileza do diretor que, de forma extremamente sucinta e contida, consegue comunicar os inúmeros dramas que são mobilizados e despertados pela chegada dos dois homens, por meio dos quais o espectador vai depreendendo e se dando conta. Nada é claramente explicitado e mostrado, o que vai se revelando a cada momento é a vivência emocional e a estrutura de personalidade de cada habitante frente à chegada desses dois judeus que nada falam, nada fazem, apenas seguem caminhando.

 

Os sentimentos que são despertados nos distintos personagens revelam seu caráter.

O primeiro a se alarmar com a chegada dos desconhecidos é o chefe da estação, que rapidamente espalha a notícia a quantos moradores seja possível. Primeiramente, a um homem rico e poderoso na cidade, proprietário da farmácia, que está envolvido com os preparativos do casamento do filho que aconteceria naquele dia. Quem teria mandado aqueles dois judeus até lá? E assim a história se desvela, através das reações emocionais de cada habitante que projeta seus fantasmas.  Se constrói dessa forma o enredo do filme através dos sentimentos de culpa, sentimentos persecutórios, de negação, que os personagens expressam. Entendemos que os judeus que ali viviam antes da guerra foram levados para os campos de concentração, alguns traídos por seus melhores amigos. Após isso, os gentios que permanecem, tomam de forma ilícita suas casas e bens.

Cria-se o caos e o pânico entre os habitantes:  O Poderoso, muito nervoso e preocupado, havia se apoderado da casa e dos bens do melhor amigo, ao qual havia traído, e passa a demonstrar um comportamento psicopático de negação de seu ato, revelado pela mulher deprimida, a qual ele trata como doente mental. Esse mesmo homem destrata e humilha o filho, que não se comporta da mesma maneira autoritária e prepotente. Outro personagem, tomado pela culpa e desespero de ter se apropriado do que não era seu, querendo devolver o que não lhe cabe de direito, e sendo impedido, não suporta a angústia e se suicida.

Assim, temos uma rica oportunidade de constatar as teorias psicanalíticas segundo a luz de pelo menos dois autores distintos: Donald Winnicott, com sua Teoria do Objeto Subjetivo[1], e Freud, com o conceito de Projeção, assimilado e muito presente na obra de Melanie Klein.

Os dois judeus que ali chegam nada dizem, nada fazem, a não ser seguir caminhando e olhando ao redor, até chegarem ao cemitério judaico. Quando interpelados pelo Sr. Poderoso, o que queriam ali, respondem: ¨Viemos a um enterro¨; de quem pergunta o Sr. Poderoso; ¨Do que restou de nossos mortos¨; e assim como chegam, se vão. Toda a história é contada por meio do que a chegada desses dois senhores desperta nos moradores da cidade, pelos sentimentos projetados de culpa, medos persecutórios de descoberta e punição, negação maníaca de que seus comportamentos de apropriação indevida foram absolutamente lícitos, ou porque necessitavam, ou porque tinham escrituras que, na verdade, foram forjadas e falsas.

Além dos sentimentos despertados pela presença dos dois senhores, a situação tensa que se cria na cidade faz com que outras situações emocionais entre os moradores apareçam, revelando de forma contundente a natureza humana com o que tem de mais violento:  ódios, raivas, traições, interesses, inveja e ciúmes. A personagem mais lúcida é justamente a mulher melancólica, deprimida, que para aliviar seu intenso sofrimento faz uso de éter. Aquele que seria o mais íntegro só encontra saída partindo daquele lugar, justamente no mesmo trem em que partem os dois judeus, que não vieram a mando de ninguém, para reivindicar nada, cobrar nada, apenas para fazerem um enterro simbólico dos que já morreram.

[1] Conceito de objeto Subjetivo:  Para Winnicott, o ser humano não nasce do ponto de vista psíquico, ele vai se constituindo no olhar da mãe. Como o ser humano nasce numa condição de dependência absoluta e, nesse início, o bebê não sabe que é separado e diferente da mãe, como diz Winnicott: ¨o bebê é o seio¨, é importante que nesse início a mãe possa sustentar essa ilusão de onipotência, sendo essa uma mãe suficientemente boa que se adapta ativamente às necessidades do bebê, e assim sustenta a ilusão de que o bebê cria o seio. Esse conceito é central porque se refere a um aspecto essencial do desenvolvimento emocional que é a experiência da realidade subjetiva. A realidade subjetiva é a condição em que vive o bebê no início da vida e é através dessa condição que se dá a única possibilidade de percepção e apreensão do mundo.