CAPRICHOS…



Caprichos – Adília Lopes

Conheci uma menina
muito caprichosa a comer
tinha dias que só comia chocolate
ou então ovos mexidos
diziam dela está a chocolate
como se diz de Picasso
que teve uma fase azul
de uma vez gritou
que tinha fome de queijadas de Sintra
e de mais nada
partiu brinquedos
até que mandaram uma criada á periquita
comprar-lhe queijadas
amigos da família notavam
que uma criança tem de se habituar
a comer de tudo
não porque se seja a rainha Isabel
que por uma questão de cortesia diplomática
teve de comer ratos no Punjab
nem porque esteja próximo de um período de racionamento
mas porque é a comer do que não se gosta
que se aprende a saber do que se gosta
as crianças mimadas
acabam por escrever gostava de gostar de gostar
e contraem doenças infecciosas
com muita facilidade
esta apanhou tosse convulsa
e enquanto teve tosse convulsa
só comeu pombinhas de pão
um dia a padeira enganou-se
em vez de pombinhas trouxe vianinhas
e a mãe da menina
ao vê-la chorar como uma possessa
despediu a padeira
a menina durante a convalescença
refinou
tinha ódio ao pão com manteiga
todos estavam a par deste seu ódio
pois em casa da tia Balbina
só aceitava comer pão com manteiga
dizia pão têga
o que já não era próprio da sua idade
acontecia que se recusava a pronunciar
certos sons
está em não dizer man nem ei
murmuravam na sala de visitas da tia Balbina
mas como quem fala de um prodígio
e não como quem diz coitadinha
depois de sete criadas terem sido despedidas
por não saberem cozinhar a preceito
pudim de beiço de vaca
apresentou-se uma que era extraordinária
a menina passou a tratá-la por Predilecta
a Predilecta compreendeu tão bem a menina
que no dia em que preparou com mais esmero
o prato preferido da menina
pudim de pardais assados em água
deitou no pudim um punhado quase mortal de arsénico.



Para os familiarizados com a psiquiatria infantil ensinada em São Paulo e no interior, neste e no século passado, dois nomes importantes de formadores psicanalistas nos vem logo à mente: Amelia de Vasconcelos e Di Loreto, psiquiatra que deu cursos de formação e supervisão a muitos dos aspirantes à especialização do atendimento de crianças. Quando a psicanálise ainda conversava mais com a psiquiatria (por que razão estão de mal, agora, não se sabe…); ainda mais no atendimento das crianças, todo médico que se especializasse na área, pediatra ou psiquiatra, estudava as teorias do desenvolvimento e aprendia que não se pode aplicar os conceitos da psicopatologia do adulto aos pequenos; que passam por doenças “normais” durante todo o seu período de maturação , que não devem e não merecem ser patologizadas e entendidas superficialmente fora do seu contexto bio-psico-social. Amelia costumava advogar que o pediatra, habituado à clinica e ao atendimento de crianças fora do âmbito da psiquiatria, seria o mais indicado a se especializar nesta área, por ter uma visão mais integral da criança, enquanto que os psiquiatras partiriam sempre de um viés patologizante no seu processo de diagnóstico infantil. Embora a medicina baseada em evidências de hoje reconheça muito pouco o valor da psicanálise, na formação de muitos de nós a contribuição de psicanalistas como Winnicott e Melanie Klein contribuiu para a possibilidade de um pensar muito mais abrangente, profundo e perguntador. Aprendi a perguntar foi mesmo com a psicanálise. Lendo Winnicott, a presença do paradoxo constante e do pensamento perguntador me trouxeram para mais perto do que me parece ser o verdadeiro curiosear científico do que a psiquiatria biológica que, como diz meu amigo Spinelli, entrou em mania e hoje em dia quer ser neurologia explicando tudo a partir do cérebro.

Porque que é que a simplicidade da linguagem é tão importante para os pensadores iluministas? Porque o verdadeiro pensador iluminista, o verdadeiro racionalista, nunca pretende convencer ninguém a fazer nada. Não, nem sequer deseja convencer ninguém: tem permanentemente consciência de que pode estar errado. Acima de tudo, valoriza demasiado a independência intelectual dos outros para querer convencê-los em questões importantes. Prefere provocar a contradição, preferivelmente sob a forma de crítica racional e disciplinada. Não procura convencer mas despertar – desafiar os outros a formarem opiniões livres.(…) . Ele sabe que, fora do estreito campo da lógica, e talvez da matemática, nada pode ser provado.” Karl Popper

A boa psicanálise, a psicanálise “da gema” se faz por meio das perguntas e das dúvidas e do reconhecimento de que muito pouco sabemos. Inclusive, para o Di Loreto, nós -os psis- somos poetas pouco competentes . Nossa teorias tentam explicar o que os poetas sabem muito melhor … e quando estamos no lugar de ser aquele- que-cuida, tomar todo dia um chá de humildade , exercitando a tolerância diante do não-saber , é o que de mais precioso temos a oferecer aos nossos pacientes. E eu estava caçando um tema para escrever quando este poema poisou na minha janela – e é dele que quero falar.

Conheci uma menina
muito caprichosa a comer…

tinha ódio ao pão com manteiga
todos estavam a par deste seu ódio

dizia pão têga
o que já não era próprio da sua idade
acontecia que se recusava a pronunciar
certos sons

No seu livro “Posições Tardias” ( ed casa do psicologo, 2007), Di Loreto traz importantes contribuições para um entendimento das crianças “mimadas”, “birrentas” e “mandonas”. Considera este comportamento normal, não patológico, numa certa fase. Mas a partir de certo tempo sua persistência indica que algo não vai bem.

Não sei como o leitor do ramo, que trabalha com a mente de crianças, compreende a birra. Para mim, ficou por duas décadas vagamente colocada como distúrbio de conduta , o que significa em termos de compreensão da mente, rigorosamente nada. Ganharia localização útil e compreensível,se entendida como uma das alterações do desenvolvimento da potência. Mas, o que é mais importante para a prática, é a seguinte constatação: quer sob a forma de crises escandalosas, quer como oposição surda e sistemática, a birra é, na cultura psi, uma patologia menor, quando não é vista apenas como “manha” e “mimo”, acompanhando a cultura popular.E, como tal, permite manejos fáceis, simples e lineares, ( “colocar limites”), aconselhado tanto por leigos quanto por profissionais. ( A irresistível atração exercida pelo conselho óbvio).

Isso não “bate” com minha experiência clínica, que me ensina que a birra é uma patologia maior, porque evidencia a permanências de grandes cisões na mente .Crianças acima de 4 anos que reagem com birra às frustrações razoáveis e realistas, demonstram que estão se organizando de modo defeituoso, um grande aspecto da personalidade, a potência. Porém, muito mais sério é o indicativo da ausência de birra, principalmente da sua ausência no segundo ano,e que tende, no entanto, a passar despercebida…

Para Di Loreto, no desenvolvimento, o bebê dependente do primeiro ano , ao crescer, aprende a falar e andar e correr, e com a potência motora recém-adquirida,aliada ao pensamento mágico caracteristico da fase, está pronto a ganhar o mundo. Crianças entre 2 e 4 anos experimentam a onipotência, como parte do seu processo de crescimento. São hipertímicas, tirânicas, fazem birra, testam os limites.Nesta fase, uma grande questão enfrentada pela criança pequena é o destino a ser dado ao seu medo. Porque algo acontece no processo do crescer: o medo surge e a onipotência se quebra. O que acontece nesse processo depende da sua maturação, do ambiente e da tomada de uma posição mais depressiva, em que começa a tomar conhecimento de sua própria destrutividade e se ocupar do outro, saindo da fase do “tudo ou nada” em direção da construção da auto estima a partir da sua verdadeira potência. A confiança em si mesma e na sua capacidade de reparar , a entrada no Édipo ( momento em que a criança passa a lidar com o sentimento de exclusão e não ser o centro do mundo) são as maiores bases para a auto-estima e a capacidade para lidar com os limites. Quando tudo corre bem a introjeção do limite se dá de pouco em pouco . Mas o que acontece quando as dissociações predominam sobre a direção natural da integração na criança…e as relações de poder, disfarçando uma sensação de impotência , negada, passam a predominar no palco das relações familares? A criança poderosa não consegue dar um bom destino ao seu medo, falha no processo de integração. A birra, saudável num momento do desenvolvimento, passa a ser expressão de um bloqueio do amadurecimento.

a menina durante a convalescença
refinou
tinha ódio ao pão com manteiga
todos estavam a par deste seu ódio
pois em casa da tia Balbina
só aceitava comer pão com manteiga
dizia pão têga
o que já não era próprio da sua idade
acontecia que se recusava a pronunciar
certos sons
está em não dizer man nem ei
murmuravam na sala de visitas da tia Balbina
mas como quem fala de um prodígio
e não como quem diz coitadinha

Para o Di Loreto, neste caso, há

Um narcisismo que, quando assim dissociador, volta-se contra o individuo.

E, como diz a Adilia Lopes, precisamos estar atentos para não deitar a estes indivíduos “um punhado quase mortal de arsênico” disfarçado em pílulas como os antipsicóticos ou as anfetaminas, tão amplamente utilizados e tantas vezes inoperantes nestes casos.

Adultos também fazem birras. Alguns se mantém vivos por meio dos embates que travam com a vida. Esses embates encobrem uma real dificuldade de se adaptar, pensar, abdicar da condição de estar no controle, ter poder sobre o outro.

Para Winnicott ” é no entremeio que talvez resida a coisa mais difícil no desenvolvimento humano, ou talvez a mais penosa de reparar,de todas as falhas iniciais que ocorrem. O que existe no meio…é o fato de o sujeito colocar o objeto fora da sua área de controle onipotente;isto é, o sujeito perceber que o objeto é um fenômeno externo, não uma entidade projetiva, na verdade, o reconhecimento de que o objeto é uma entidade autônoma.” – entenda-se aqui por “objeto” a outra pessoa com quem ele se liga.

Como diz o Drummond, amoré o que se aprende no limite, amor começa

tarde.

Somente a retomada do caminho da integração pode contribuir para o enfraquecimento da relação “dominador-dominado”, preponderante em alguns casos. É difícil:

Gostaria de ser, mas não sou um GRANDE DEUS TERAPEUTA. Também não sou um terapeuta desastrado. Sou comum, mediano, feijão com arroz, bem temperado. Uso fármacos, como terapeutica sintomática, uso psicoterapia, se consigo reter o paciente…Esclarecimentos às familias têm evitado muita via-sacra de médico em médico, de Serviço em Serviço, um mais idealizado que o outro, e cada um mais denegrido que o outro, quando o fracasso terapêutico se evidencia.”

Dedico este post a todos os pacientes com os quais falhei, e com os quais ainda tenho falhado.

Suicídio e Vulnerabilidade

                     “Como é tênue a linha entre a vontade de viver e a vontade de morrer. Como é tênue a membrana entre a energia e o torpor. Tantas pessoas mais poderiam ceder à tentação de cometer suicídio se este fosse facilitado. Que tal …um buraco , um buraco bem profundo, que se pusesse num lugar público, para uso geral. Digamos na esquina da Quinta Avenida com a rua 70, em Manhatan. Onde fica a coleção Frick. ( Ou um lugar mais proletário?) Uma tabuleta ao lado do buraco diz:                     16h-20h/Seg,Qua, Sex/SUICÍDIO PERMITIDO.  Só isso. Uma tabuleta.Ora, com certeza pulariam pessoas que antes nem tinha pensado no assunto. Qualquer cratera é um abismo, se se colocar o rótulo adequado.Voltando para casa do trabalho, ou saindo para comprar um maço de maléficos cigarros, desviando para apanhar roupa na lavanderia, procurando na calçada a echarpe de seda vermelha que o vento deve ter lhe arrancado dos ombros, você se lembra da tabuleta, você olha para baixo, você traga depressa, exala devagar,e pergunta – por que não.”
                                                                                     Susan Sontag, em O Amante do Vulcão (1992)

     Como é mesmo tênue a linha entre a vontade de viver e a vontade de morrer. Nas fases de crise, nas “idades- dobradiça”, na velhice solitária ou na adolescência turbulenta, esta tênue linha ainda mais se esvaece. O aumento de suicídios na adolescência é um fenômeno que ainda não foi compreendido. Culpar a geração Mimimi e seus frouxos pais ausentes que não os prepararam para as frustrações da vida é solução fácil para explicar a passagem ao ato, à morte, quando se deparam com os lutos e as perdas do crescer. Para mim é conversa de bar ( nada contra uma boa conversa de bar! ) pouco fundamentada na clínica ,e rasa, que transfere a responsabilidade da cultura e do social para o microcosmo familiar e para a frágil geração nutela , oca e sem recheio, que decide se matar “por qualquer besteira”… como se a geração RAIZ dos tempos passados não enfrentasse os mesmos dilemas. Que dizer das mudanças de crenças, da espiritualidade, ligada ou não a uma religião, quando a vida deixa de ser valor sagrado ; da morte estilizada e tornada fetiche nos seriados da TV a cabo, dos grupos de internet para apoio ao suicidio ensinando as técnicas mais primorosas de morrer, incentivando também o cutting, a anorexia; do país inteiro festejando o novo presidente com o gesto alegre que simboliza a arma apontada para o outro.
A ironia da autora imaginando um buraco bem no meio de Nova York com uma tabuleta: suicídio permitido é para mim uma das leituras possíveis para as notícias recentes sobre a facilitação da posse  de armas pelos brasileiros. Para um adolescente vulnerável, ter uma arma em casa ( e não me digam que eles não vão saber exatamente onde ela deve estar escondida!) é o buraco no meio da sala, de onde se pode pular. Existe uma vulnerabilidade em toda pessoa em fase de muda, de transição. A adolescência, a gravidez, a velhice, os períodos de passagem, enfim, nos tornam, como os bichos que mudam de pele, mais assustadiços e frágeis. Ainda não tendo chegado à fase de borboleta, os adolescentes se encasulam e tem de abandonar as certezas da infância; pais perfeitos tornados imperfeitos, gargalos: sua sexualidade, ter sucesso na vida, emprego, identidade. Antes de poderem voar têm pele fina, medo; e muita impulsividade . A facilidade que encontram para usar substâncias que alteram neurotransmissores e humores também contribui para que nos momentos de desespero e dor pensem : por que não? Na vulnerabilidade, a distância entre energia e torpor é tão pequena que o acaso conta, a oportunidade conta.
Porque a busca de sentido na vida é mais antiga que a modernidade e carece de resposta universal. A busca de sentido é uma criação individual que pode ou não se servir dos enredos disponíveis por aí; os enredos fornecidos pelo social, pela religião, pelos pais, pelos modelos. Uma das características das pessoas que estão conectadas com os seus verdadeiros selves é sentirem-se reais, e com isso terem uma bússola na vida para avaliar os diversos enredos que o mundo lhes for disponibilizando. E faz parte da saúde poder adaptar-se; permitir-se ser modificado pelo mundo. Engajar-se no FAZER que caracteriza a entrada na adultice fica muito difícil se não há antes um SER que foi constituído, sim, com as frustrações superadas a cada fase, mas sobretudo pela sensação de continuidade que o ambiente amoroso permitiu nos primórdios da vida. Como nos dizia Winnicott: primeiro é o SER, e depois o FAZER. Quando o SER está presente, o corpo se manifesta integrado no viver; e a agressão contra o próprio corpo é sentida como estranha; não prevalece na hora da dor e da crise: porque houve o estabelecimento de uma confiança básica em si mesmo e num ambiente bom.
Que sociedade é essa que cava um buraco no meio de Nova York com uma tabuleta assim? Uma das consequências da facilitação das armas é o aumento de suicídios. Quem ainda não assistiu pode procurar ver A Sociedade dos Poetas Mortos ( 1989) ou Yonlu (2017), a história de um adolescente gaúcho que teve seu suicidio divulgado na internet. Sempre haverão razões para viver e para morrer, para cada pessoa; mas, nos momentos de vulnerabilidade  estar num ambiente facilitador da morte pode fazer toda a diferença.

Sobre o assunto, a  entrevista do psicanalista  Mario Corso, na revista Época, que pode ser lida aqui.

 

Da janela do último andar
A cidade se suicida
É difícil não se jogar
É tão fácil acabar com a vida…

 

 

 

Museu- a história dentro da história.

Retirado de Folha-Uol

 

A Psicanálise? Uma das mais fascinantes modalidades do gênero policial, em que o detetive procura desvendar um crime que o próprio criminoso ignora.

Está em cartaz nos cinemas uma nova película, muito interessante, que conta a estória do roubo do museu nacional de antropologia do México, ocorrida em 1985, fato real. ( Museu-2018- diretor Alonso Ruizpalacios). Dois jovens mexicanos , que por diferentes motivos se encontram numa certa marginalidade em suas vidas, à margem, vivendo numa adolescência comprida, encompridada pelas próprias dificuldades, decidem roubar o museu de antropologia da cidade. Há um narrador que retrospectivamente conta a história de como os dois rapazes, engenhosamente, conseguem burlar o sistema de segurança  e realizar o roubo, no dia de natal, de várias peças do museu, ato aparentemente despropositado. Fica parecendo que o roubo e a esperteza , o desafio, a perícia , fascinam mais os rapazes do que o prêmio monetário possível a se conseguir com o tráfico destas peças. Outrossim, logo virão a descobrir que o seu roubo teria um valor inestimável, não mensurável, e que não seria possível conseguir alguém para comprá-las. Afinal, o que querem estes rapazes? Corre paralela à trama principal, em estilo road-movie, das peripécias deste Dom- Quixote-ao-contrário e seu fiel escudeiro, uma outra trama: a exposição dos motivos, dos enredos, das circunstâncias, que os levaram a este ato. É intrigante perceber que o protagonista, Juan, mentor do crime, tem seu código de honra e profundo respeito pela história do país; é conhecedor e admira, pensa, se encanta, com aquilo que rouba. Esta peculiaridade explica também o destino que escolhe dar para as peças, nas cenas finais do filme.
Podemos nos enveredar pela vertente social que está presente no discurso dos rapazes: a questão do colonialismo, das pilhagens sofridas na América por todo o sempre ,e na sua pouca consciência de valor, da crença quixotesca de Juan num resgate da cultura e do que é autêntico num país também assolado pela corrupção e pelo descuido com seu patrimônio. Como não pensar no incêndio do Museu Nacional do Rio de janeiro, ocorrido em setembro último? Esta realidade compartilhamos com o México e com nossos vizinhos aqui da América Latina. A gente fica torcendo para os nossos (anti)heróis encontrarem um jeito de se safar porque, apesar da astúcia e da gravidade do ato cometido, são ingênuos e quixotescos; e nem sabem bem o que roubam, o que querem roubar. Em alguns momentos parece que tentam se apropriar deste capital simbólico, do que seriam aqueles amuletos maias e seus instrumentos por se identificarem, como marginais, com a opressão sofrida por este povo  no contato com os espanhóis e cujo tesouro procuram resgatar. Para os povos pre-hispanicos (termo inclusive que os rapazes recusam, por trazer no seu bojo a referência à dominação) o ouro e a prata tinham um valor diferente, não monetário: assim também Juan e Benjamim não roubam o museu para enriquecer, mas para se apropriar de outra coisa.
Que coisa?
No texto “pacto edípico e pacto social”, Helio Pelegrino* articula a conexão entre o pacto edípico, que fala de triangulação familiar e da introjeção pela criança dos valores paternos, do limite e da interdição, com o pacto social, descrevendo como o estado corrupto e a corrosão dos valores numa sociedade dificulta o trabalho, em cada lar , de promover a maturidade de cada indivíduo. Há que crescer, mas, para que? Para quem? Para o que?
Da mesma maneira, quando nos seus começos a criança não consegue uma saída razoável para o seu drama familiar, também não cresce e não pode reconhecer a lei como sua, como algo a respeitar. Como diz Manoel de Barros: “tudo que não invento é falso”.  Para alguns a lei estará sempre fora , do lado de fora, incompreensível e ilógica porque não pôde  ser inventada de novo no jogo das identificações que ocorrem em tempos muito precoces…tempos quase pré-históricos.
Juan é um filho que o pai não re-conhece. Cenas belíssimas, do filho no consultório do pai, fazendo perguntas que não são respondidas, e de momentos em que ele não consegue ouvir as palavras articuladas pelo pai nos fazem intuir uma falha profunda na constituição de Juan como sujeito. É como se ele fosse o pai ao avesso, irresponsável, um zé-ninguém, o esquisito de uma casa onde todo mundo se encaixa em algum papel e ao “baixinho” cabe somente o lugar da exclusão. Juan é de baixa estatura e parece ser objeto de desaprovação geral. Será que inventa esse roubo magistral para ter um reconhecimento? Para ser visto como alguém capaz de fazer uma coisa realmente grande?
O bom Benjamim, parceiro de Juan, que tenta desistir de vender a pilhagem porque deseja voltar para cuidar do pai doente, também está à margem. Entraram ambos na faculdade de veterinária, mas Benjamim trabalha catalogando peças do museu, é um trabalho maçante, mas que possibilita o acesso ao sistema de segurança para facilitar o roubo. Nas cenas em que os rapazes ardilosamente se aproximam das peças tão valiosas, rompendo os vidros e os lacres que as separam do seu alcance, há o júbilo de se apropriar. Uma máscara é roubada. Juan brinca de colocá-la em seu rosto- e em um momento até alucina o maia Pacal, grande governante, a quem parece admirar.
Este filme também é a história de um filho em busca do seu pai. De alguma forma Juan não se encaixa e não consegue estar perto dele, senão pelos seus atos avessos, pelo seus contrários. Para Winnicott  o comportamento anti-social muitas  vezes esconde um pedido de ajuda, um apelo ao ambiente: apelo que Juan faz ao pai e que fica mais claro quando o filme vai se encaminhando para um desfecho, no encontro deles dois. Parece que o moço está disposto a pagar um preço alto por este reconhecimento!
Mas este poderia ser somente uma dos motivos para explicar esta história possível, dentro da história. Como diz o narrador no final: qual seria a verdade? Se  às vezes nem mesmo o próprio protagonista da história sabe o que se passou ali , dentro de si, e em sua própria história.
Um pouco como na vida de todos nós.
* Pacto Edipico e Pacto Social- Artigo escrito por Hélio Pellegrino no suplemento Folhetim da Folha de S.Paulo do dia 11 de setembro de 1983.

 

 

Benzinho: a nossa pietá brasileira.

Benzinho – A nossa pietá brasileira
Sobre a relação do homem com sua mãe, a nossa blogueira do Gesto Espontaneo , Cecilia Hirchzon escreve *:
“O homem, para ser “si mesmo” e para constituir a sua identidade masculina, terá de se separar desta Mulher, de quem dependeu totalmente. Já a mulher, para se constituir como tal, não precisa estabelecer necessariamente a separação – pode manter-se identificada com essa Mulher. Observamos, portanto, duas direções distintas: enquanto a mulher lida com a Mulher dentro de si através da identificação, o homem tem que se separar, tornar-se único, o que se constitui em uma urgência no desenvolvimento da sua identidade. A especificidade da identidade feminina caracteriza-se por ser geracional e infinita, isto é, podendo manter dentro de si três mulheres: o bebê menina, a mãe e a mãe da mãe. Essa condição possibilita à mulher o desempenho de diferentes funções sem violar a sua natureza. Pode ocupar posições diversas nas brincadeiras, onde ora é mãe, ora é filha, alternando papéis. Ou, ainda, na idade adulta, exercendo a sua feminilidade, ocupando o lugar de mãe e/ou mulher sedutora. Enquanto isso, o homem não se funde nessa linhagem – sua condição básica é a de ser um”.
No belíssimo Benzinho, de Gustavo Pizzi, que está em cartaz nos cinemas, o primogenito de Irene, mulher brasileira , mãe de quatro filhos, vai embora para a Alemanha a convite de uma universidade que está interessada no seu talento esportivo. O adolescente vibra enquanto a mãe se quebra, assustada com a partida súbita, fora de hora, do filho muito jovem. A história de Benzinho é o processo que se desencadeia com a chegada da noticia, suas idas e vindas , focado aqui no ponto de vista da mãe que vai tentando aceitar o momento que é de alegria e tristeza. Porque Irene é Pietá não vou contar aqui, para não dar um “spoiler” do filme. A interpretação de karine Teles é magistral. O amor materno aqui se desdobra em suas mais variadas possibilidades ( como diz a Adelia Prado, mulher é desdobrável) . A mãe suficiente boa, por sua saúde e sua capacidade de lidar com a perda e a separação, aparece na interpretação de Irene. Mãe suficientemente boa que se atrapalha, fica brava, dá chilique, chora, pira, respira, mas, enfim, ama. A gente fica apaixonada pela Irene. O longa foi escolhido como o filme brasileiro que vai disputar uma vaga entre os quatro finalistas ao Prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-americano, considerado o Oscar espanhol.
E , para terminar, um poema, uma musica.

O gato andaluz*
(Rosa Alice Branco)
O meu filho caminha por aí. Já não sei
se é o Douro ou o Darro que lhe embala o sono.
Nem onde guardei as datas e o nome das ruas
ou se vou te encontrar logo à tardinha.
Deixei-me de saber e de pensar que sei.
Um gato arranha à minha porta a miar em andaluz.
Eu arranho a porta a dois dias daqui, duas horas
De avião. É proibido miar nos voos europeus.
Engulo a saliva do dia e assim se faz noite.
E não há gaivotas a gritar por mim. Por mim
estou eu à janela do avião. As malas
com que hei de dizer-te: cheguei. O teu abraço
como um rio qualquer onde corra água.
Esquecer o que ficou para trás e a língua que me fala.
Levar o copo à boca onde nasce a boca,
A fonte do quintal, a nascente do mar. O meu filho
Voa como se caminhasse descalço. Cruzamo-nos
no horizonte sobre a linha do rio onde deságua a luz.
E as palavras aquietam-se no seu nada.

( do livro Soletrar o dia, Ed escrituras, 2004)

* este artigo está postado em nosso blog na seção artigos e notícias ( “Os elementos masculino e feminino puro na clínica”).

O gesto espontâneo de Francis Há

O filme Francis Há, do diretor Noah Baumbach (2013) está no netflix.

Para quem não assistiu no cinema, é uma boa opção. O filme narra as aventuras (e desventuras) de Francis, tentando achar o seu lugar ao sol em Nova York, e também no mundo adulto, em que parece não se encaixar. Grandona, desengonçada, espontânea, Francis e seus amigos são adolescentes tardios. Geração mimimi, geração nutela, geração nem-nem (nem trabalha, nem estuda)… Quem não escutou um destes termos e a explicação jocosa de que estes jovens estão se jogando da caixa d’água ou morrendo de propósito,  “feito passarinhos, avoando de edifícios” porque não querem crescer, ou não aguentam as frustrações? Não querem trabalhar, não querem dificuldades: “dá seis da tarde, largam a caneta”… ou: “foram criados na internet, tudo na mão, tudo fácil, não querem nada com a dureza”.

Hummmm… Ponho-me a pensar.

 

Na clínica dos tempos atuais constatamos um prolongamento da adolescência, toda uma geração de adultos jovens que não está conseguindo amadurecer. No entanto, amar e trabalhar, sair de casa, fazer parcerias e escolher uma maneira de ser autônomo é um desafio que enfrentam com dificuldade, nem sempre com essa placidez que aqueles termos pejorativos evocam. A geração mimimi está sofrendo de verdade.  Para Freud o trabalho pode “tornar possível o uso de inclinações pré-eexistentes, de impulsos pulsionais” a serviço da realização pessoal e da vida em comunidade. Winnicott diz: “se o que se pretende é que a vida instintual tenha liberdade de expressão...” haveria um equilíbrio que tem que ser obtido sempre de novo, em cada fase: “considerem um médico e suas necessidades. Privem-no de seu trabalho, e o que será dele? Ele necessita de seus pacientes e da oportunidade de usar suas aptidões, como qualquer outro profissional.”.

Privem o jovem adulto de usar suas aptidões… o que será dele?

Para estes jovens, estamos falhando em ser o ambiente que permite a realização: há os trabalhos criativos, e há os ofícios insanamente alienantes, e aqui eu não estou falando da alienação de Marx; eu estou falando da alienação do verdadeiro self. A morte psíquica é um desfecho possível, e quem viu o filme Arábia (Afonso Uchoa e João Dumas-2017) se entristeceu com a história do Cristiano, que escreve um diário, se apaixona, mas no final sucumbe, vira “coisa”, deixa de sonhar.

Francis sonha. E podemos sonhar este filme, como nos propõe Nino Ferro: Francis e seus amigos representando, cada um, uma parte do seu self (como no enredo de um sonho ou de uma sessão). O filme é uma fábula moderna sobre as vicissitudes da bailarina meio gauche, desengonçada, Francis, que com 27 anos enfrenta dificuldades para manter-se economicamente. Não  selecionada para o espetáculo de natal, ainda é uma adolescente: tem sonhos grandiosos de realizar-se como artista,  mas  não encontra reconhecimento no trabalho.Também não se acerta com o namorado :  “sou alta demais para casar” , e fala de si mesma  ” eu ainda não sou uma pessoa real, de verdade” . Da dificuldade de passar pela fase da adolescência diz ” sou uma pessoa que tem dificuldade em deixar os lugares” quando se demora no camarim, tentando organizar suas coisas após um ensaio, quando todos já foram embora.

 

Em várias de suas falas e no enquadramento do filme, quando dança, por exemplo, partes de seu corpo são deixadas fora da cena, e diz de si ” Nunca consigo saber como fiz meus machucados”. Esse corpo grandão e que escapa do esquema é tão próprio da adolescência, período de crescimento rápido, em que o corpo passa na frente e a mente corre atrás, atabalhoadamente, tentando dar conta do recado! Francis dança, mas é mesmo meio desastrada, como uma adolescente que cresceu rápido demais. Quando Sophie,  melhor amiga,  que pode ser sonhada como o seu duplo, de quem   diz “somos a mesma pessoa, com cabelos diferentes”, vai embora, inaugura-se  em Francis um período de solidão e busca de sentido,  marcado pela instabilidade: constantes mudanças de endereço  e viagens – a fuga para Paris, o retorno à universidade, à casa dos pais.  Outros personagens que vão aparecendo, todos na casa dos 30,e parecem encarnar os falsos-selves que Francis vai rejeitando em sua busca por autonomia e realização; os jovens ricos dependentes dos pais,  artistas que  nada produzem, a colega da companhia de dança que a acolhe em sua casa,  mas não sabe brincar. Francis, perto dos 30 e temendo parecer mais velha ( pois não se sente adulta), parece ser a pessoa mais desajustada, mas na verdade  é aquela que mais traz a marca da autenticidade e da alegria. Nem sempre estar bem ajustado significa saúde mental…se isso se faz às custas do estrangulamento do gesto espontâneo.

Podemos entender o tempo do filme como o tempo da adolescência,  tempo de estar sempre um pouco à deriva, sem respostas, de inquietude. Mas também tempo de rejeitar as falsas soluções. O que nós “adultos” ( rssss) gostamos de chamar de preguiça ou rebeldia ou aborrescência. ( É que a gente gosta de esquecer que já sentiu isso um dia – e vai sentir de novo: na menopausa, na hora de ter o ninho vazio, ao se aposentar, ao fazer o implante dentário, ao envelhecer…).

A cura da adolescência é a passagem do tempo. ” nos diz  Winnicott. Nós, terapeutas, vivemos com Francis, como expectadores, este marasmo que caracteriza tantos  momentos da análise dos adolescentes.

Enfim, nossa heroína consegue fazer a sua  passagem. No final do filme, tem a oferta de um trabalho de secretária ( aceito com  relutância), e se  reconcilia com a amiga que regressa do outro lado do mundo  ( simbolizando a integração dela mesma). Por fim alcançada alguma estabilidade,  inicia o trabalho como coreógrafa, inventando uma dança. Ela assim descreve sua coreografia       “gosto das coisas que parecem erradas”.

Três cenas finais indicam a elaboração da passagem da adolescência em Francis, de maneira muito poética. Na primeira,  orienta os bailarinos que vão ao palco encenar sua coreografia, mostrando a capacidade de estar na coordenação de um projeto original, autoral: a capacidade de trabalhar criativamente. Na segunda, o belo encontro de olhares de Sophie e Francis, ao fim da peça, que pode ser visto como o olhar amoroso, e também o espelho, o reconhecimento no olhar do outro, tão buscado pelo artista. E, enfim, a adequação ao princípio de realidade quando finalmente tem uma casa que é sua, e precisa cortar um pedaço de seu nome para que ele possa caber no  espaço da caixa de correio. É a aceitação da castração, como limite-borda definidora, parte do amadurecimento. Como nos diz Winnicott; “Ser, antes de fazer”. “O ser tem de se desenvolver antes do fazer…  finalmente a criança domina até mesmo os instintos sem a perda da identidade do self”. O nome comprido que pode ser cortado agora é Francis amadurecida, ajustando-se, sem deixar sua dança, sem perder a felicidade, o senso de identidade e a capacidade criativa. De uma forma dialética, e poética, o fazer também alimenta o Ser; assim acontece com Francis, que amadurece tarde, mas no seu próprio tempo.

para meu sobrinho, Thales Augusto.