Suicídio e Vulnerabilidade

                     “Como é tênue a linha entre a vontade de viver e a vontade de morrer. Como é tênue a membrana entre a energia e o torpor. Tantas pessoas mais poderiam ceder à tentação de cometer suicídio se este fosse facilitado. Que tal …um buraco , um buraco bem profundo, que se pusesse num lugar público, para uso geral. Digamos na esquina da Quinta Avenida com a rua 70, em Manhatan. Onde fica a coleção Frick. ( Ou um lugar mais proletário?) Uma tabuleta ao lado do buraco diz:                     16h-20h/Seg,Qua, Sex/SUICÍDIO PERMITIDO.  Só isso. Uma tabuleta.Ora, com certeza pulariam pessoas que antes nem tinha pensado no assunto. Qualquer cratera é um abismo, se se colocar o rótulo adequado.Voltando para casa do trabalho, ou saindo para comprar um maço de maléficos cigarros, desviando para apanhar roupa na lavanderia, procurando na calçada a echarpe de seda vermelha que o vento deve ter lhe arrancado dos ombros, você se lembra da tabuleta, você olha para baixo, você traga depressa, exala devagar,e pergunta – por que não.”
                                                                                     Susan Sontag, em O Amante do Vulcão (1992)

     Como é mesmo tênue a linha entre a vontade de viver e a vontade de morrer. Nas fases de crise, nas “idades- dobradiça”, na velhice solitária ou na adolescência turbulenta, esta tênue linha ainda mais se esvaece. O aumento de suicídios na adolescência é um fenômeno que ainda não foi compreendido. Culpar a geração Mimimi e seus frouxos pais ausentes que não os prepararam para as frustrações da vida é solução fácil para explicar a passagem ao ato, à morte, quando se deparam com os lutos e as perdas do crescer. Para mim é conversa de bar ( nada contra uma boa conversa de bar! ) pouco fundamentada na clínica ,e rasa, que transfere a responsabilidade da cultura e do social para o microcosmo familiar e para a frágil geração nutela , oca e sem recheio, que decide se matar “por qualquer besteira”… como se a geração RAIZ dos tempos passados não enfrentasse os mesmos dilemas. Que dizer das mudanças de crenças, da espiritualidade, ligada ou não a uma religião, quando a vida deixa de ser valor sagrado ; da morte estilizada e tornada fetiche nos seriados da TV a cabo, dos grupos de internet para apoio ao suicidio ensinando as técnicas mais primorosas de morrer, incentivando também o cutting, a anorexia; do país inteiro festejando o novo presidente com o gesto alegre que simboliza a arma apontada para o outro.
A ironia da autora imaginando um buraco bem no meio de Nova York com uma tabuleta: suicídio permitido é para mim uma das leituras possíveis para as notícias recentes sobre a facilitação da posse  de armas pelos brasileiros. Para um adolescente vulnerável, ter uma arma em casa ( e não me digam que eles não vão saber exatamente onde ela deve estar escondida!) é o buraco no meio da sala, de onde se pode pular. Existe uma vulnerabilidade em toda pessoa em fase de muda, de transição. A adolescência, a gravidez, a velhice, os períodos de passagem, enfim, nos tornam, como os bichos que mudam de pele, mais assustadiços e frágeis. Ainda não tendo chegado à fase de borboleta, os adolescentes se encasulam e tem de abandonar as certezas da infância; pais perfeitos tornados imperfeitos, gargalos: sua sexualidade, ter sucesso na vida, emprego, identidade. Antes de poderem voar têm pele fina, medo; e muita impulsividade . A facilidade que encontram para usar substâncias que alteram neurotransmissores e humores também contribui para que nos momentos de desespero e dor pensem : por que não? Na vulnerabilidade, a distância entre energia e torpor é tão pequena que o acaso conta, a oportunidade conta.
Porque a busca de sentido na vida é mais antiga que a modernidade e carece de resposta universal. A busca de sentido é uma criação individual que pode ou não se servir dos enredos disponíveis por aí; os enredos fornecidos pelo social, pela religião, pelos pais, pelos modelos. Uma das características das pessoas que estão conectadas com os seus verdadeiros selves é sentirem-se reais, e com isso terem uma bússola na vida para avaliar os diversos enredos que o mundo lhes for disponibilizando. E faz parte da saúde poder adaptar-se; permitir-se ser modificado pelo mundo. Engajar-se no FAZER que caracteriza a entrada na adultice fica muito difícil se não há antes um SER que foi constituído, sim, com as frustrações superadas a cada fase, mas sobretudo pela sensação de continuidade que o ambiente amoroso permitiu nos primórdios da vida. Como nos dizia Winnicott: primeiro é o SER, e depois o FAZER. Quando o SER está presente, o corpo se manifesta integrado no viver; e a agressão contra o próprio corpo é sentida como estranha; não prevalece na hora da dor e da crise: porque houve o estabelecimento de uma confiança básica em si mesmo e num ambiente bom.
Que sociedade é essa que cava um buraco no meio de Nova York com uma tabuleta assim? Uma das consequências da facilitação das armas é o aumento de suicídios. Quem ainda não assistiu pode procurar ver A Sociedade dos Poetas Mortos ( 1989) ou Yonlu (2017), a história de um adolescente gaúcho que teve seu suicidio divulgado na internet. Sempre haverão razões para viver e para morrer, para cada pessoa; mas, nos momentos de vulnerabilidade  estar num ambiente facilitador da morte pode fazer toda a diferença.

Sobre o assunto, a  entrevista do psicanalista  Mario Corso, na revista Época, que pode ser lida aqui.

 

Da janela do último andar
A cidade se suicida
É difícil não se jogar
É tão fácil acabar com a vida…